Alma

De Wiki Canção Nova
Ir para: navegação, pesquisa

Índice

DEFINIÇÃO

Alma é o princípio da vida de todo ser vivo. A palavra é derivada do latim, "anima". O sopro vital de Deus que anima o corpo.

A ORIGEM DA ALMA HUMANA?

Em síntese: A alma humana é espiritual, ou seja, incorpórea e imaterial. Por conseguinte, não se origina por geração a partir do casal humano nem por emanação da Divindade, mas tem seu princípio de existência num ato criador de Deus, que a cria e infunde no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide.

O ser humano: corpo e alma

Todo ser humano é um composto de dois elementos realmente distintos um do outro: o corpo material, e a alma espiritual. São duas substâncias (como diz a Filosofia), que se complementam mutuamente; a alma espiritual é o princípio vital do corpo material, e não pode ser confundida ou identificada com este.

É preciso, porém, aduzir provas que demonstrem a espiritualidade da alma humana. É o que vamos fazer.

A espiritualidade da alma humana

A alma humana é realmente espiritual? – Para responder, deve-se levar em conta o seguinte princípio: o ser e o agir de determinada realidade devem ser correlativos entre si; cada qual age em função do que é. Em conseqüência, se vejo que determinada substância tem por efeito “salgar” alimentos, digo que o seu ser consta de sódio e cloro (NaCl); se outra substância é corrosiva, suporei que seja um ácido, como o ácido sulfúrico (H2SO4). Se, pois, desejo saber se a alma humana é espiritual ou material, devo examinar as suas atividades; se estas não ultrapassam as capacidades da matéria, direi que a alma humana é material; se as ultrapassam, direi que é espiritual ou imaterial.

Analisemos portanto as atividades da alma humana.

Percepção do universal

É certo que o ser humano é capaz de conceber noções abstratas, universais, percebendo o essencial; é apto a reconhecer proporções, relações de dependência, de causalidade, de finalidade. Com efeito; depois de ver um homem, uma mulher, uma criança, um ancião, um gordo, um magro . . ., a inteligência humana se emancipa das diferenças motivadas por cor, tamanh0, sexo, idade . . . e define todos esses indivíduos como participantes da mesma essência ou natureza; são todos iguais entre si pela natureza (que a inteligência apreende), embora diferentes uns dos outros pelos aspectos que os olhos percebem. Em conseqüência, deve-se dizer: a alma humana, que, por sua atividade, é capaz de ultrapassar o concreto, o material, é imaterial ou espiritual.

A linguagem humana

A linguagem é a capacidade que temos, de formular conceitos universais e exprimi-los mediante sons concretos, que variam de idioma para idioma. Assim os conceitos de pai e mãe, por exemplo, são conceitos universais, que cada povo exprime de modo diferente. O homem é capaz de emancipar-se de determinado som associado a determinado conceito universal para propor exatamente o mesmo conceito mediante outro vocábulo; é o que se dá com os tradutores.

Quem olha para a cavidade bucal de um homem e a de um macaco, é propenso a dizer: se o homem fala, o macaco também fala; não obstante, isto não se dá. A diferença de comportamentos só se pode explicar pelo fato de que no homem há algo mais do que no macaco; esse algo mais é a espiritualidade do seu princípio vital; em virtude deste, o homem é capaz de perceber que diversos sons não significam sempre diversos conceitos ou é capaz de distinguir entre o som concreto e o conceito universal, imaterial.

A consciência de si mesmo

O ser humano, além de conhecer os objetos que o cercam, possui o conhecimento de si mesmo ou a autoconsciência; o homem não somente sente dor, mas sabe que sente dor... Possuindo o conhecimento dos objetos e de si mesmo, o homem concebe o plano de ordenar o mundo e a si mesmo, dominando fatores estranhos ao seu ideal, superando paixões desregradas, cultivando boas tendências, etc. Isto tudo escapa às possibilidades de um animal irracional, pois este conhece o seu objeto concreto e é incapaz de se emancipar das notas concretas deste e de se voltar para si mesmo de maneira sistemática a fim de se conhecer. O ser humano, ao contrário, realiza esta introspecção, porque o seu princípio de conhecimento (intelectivo) é capaz de ultrapassar o seu objeto concreto, material, para atingir o próprio sujeito.

A cultura e o progresso

Verifica-se que o homem intervém no seu ambiente natural, criando cultura e civilização. Essa atividade se deve à ação intelectiva e planejadora da pessoa humana. Com efeito; ao conhecer a natureza que o cerca, o homem percebe as relações entre meios e fins ou as proporções entre os diversos termos, e concebe projetos para melhorar o seu ambiente (habitat, alimentação, vestuário, arte...); vai assim construindo civilizações sucessivas... Ora o animal é incapaz de progredir em suas expressões, porque é guiado por instintos: embora certeiro em seus movimentos instintivos, é incapaz de dar contas a si mesmo do que faz ou dos porquês da sua atividade; é por isto incapaz de se corrigir ou de se ultrapassar. Em última análise, a raiz da diferença entre o comportamento do homem e o do animal irracional reside no fato de que o homem tem um princípio vital imaterial ou espiritual, ao passo que o animal tem uma alma material ou confinada pelas potencialidades da matéria.

Eis, porém, que uma objeção se levanta: como admitir a espiritualidade da alma humana quando se sabe que as atividades mais sublimes do homem não se realizam se o organismo está lesado em seu cérebro ou em seu sistema nervoso?

A resposta não é difícil. Embora a alma seja espiritual, ela depende do organismo, especialmente do cérebro e do sistema nervoso, para funcionar devidamente. Por conseguinte, se o cérebro está lesado, a inteligência carece do instrumental sem o qual não pode manifestar a sua perspicácia; o sujeito poderá chegar a levar vida meramente vegetativa. É o que leva muitos estudiosos a dizer que a inteligência é o próprio cérebro ou a massa cinzenta. Tal conclusão, porém, é errônea pelos motivos indicados. A alma humana é espiritual, mas foi feita para animar a matéria e aperfeiçoar-se em união com esta.

A imortalidade da alma humana

A imortalidade decorre da espiritualidade da alma. Vejamos por quê.

A natureza mesma da alma humana

A morte é a dissolução do ser vivo. Ora a alma não pode dissolver-se por si, porque não é composta de partes, mas é simples, como todo espírito é simples ou isento de composição. Por isto a alma humana, uma vez criada, subsiste para sempre, mesmo fora do corpo (do qual ela não depende para existir). Só poderia deixar de existir se Deus, que a criou, a quisesse aniquilar; todavia julga-se que Deus não aniquila nenhuma de suas criaturas (embora o possa), pois isto seria uma espécie de contradição; além disto, seria algo de injusto, porque tornaria impossível a aplicação das sanções merecidas pelo ser humano nesta vida.

Concluímos, pois, que a alma humana é naturalmente imortal e não deixa de usufruir desta sua prerrogativa, pois Deus não subtrai às criaturas o que lhes outorgou como atributos próprios.

O desejo natural

Todo homem deseja existir sem limites de duração. Esse desejo se deriva da própria natureza do homem; não depende de alguma forma de cultura. Ora tal desejo não pode ser frustrado ou vão; se o fosse, a natureza seria contraditória e absurda. Mais: ela suporia o Absurdo na sua origem, pois teria sido feita para a vida, e a vida sem fim, mas não teria a capacidade de usufruir da imortalidade. Por conseguinte, a alma humana há de ser imortal, a fim de poder fruir da plenitude de vida à qual ela naturalmente aspira.

Dir-se-á, porém: se tal argumento é válido para a alma, há de ser válido também para o homem todo (composto de corpo e alma), pois o ser humano como tal deseja viver sempre.

Em resposta, observemos: o desejo de imortalidade do homem (ou do composto de corpo e alma), embora seja natural, não é senão uma aspiração ineficaz, pois o composto humano tende naturalmente a desgastar-se; os órgãos corpóreos vão-se tornando ineptos para a vida, até estarem totalmente deteriorados. Nesse momento a alma se separa do corpo. Ao contrário, o desejo de imortalidade da alma humana pode ser eficaz, pois a alma humana, não sendo composta, não se dissolve.

Sabemos, porém, pela fé que o Senhor Deus quis conceder ao homem a ressurreição física, atendendo assim ao desejo natural de imortalidade do composto humano.

A sanção da justiça

Todos nós aspiramos ardentemente à justiça. Contudo a justiça na vida presente é precária. Freqüentemente as pessoas retas são prejudicadas por praticarem o bem, ao passo que os iníquos são materialmente beneficiados pela perversão.

Ora, se a alma humana não fosse apta a sobreviver após a existência presente a fim de receber a sanção de seus atos, a justiça ficaria definitivamente conculcada no caso de muitos homens. A história da humanidade terminaria com o triunfo (ao menos parcial) da injustiça e da desordem sobre a justiça e o bem. Ora tais conseqüências suporiam um mundo absurdo e, na origem desse mundo, um princípio de contradição e absurdo, conseqüências estas que não condizem com a ordem e a harmonia que se verificam em geral no universo. Daí afirmamos que a alma humana é por si imortal e, por conseguinte, apta a receber na vida póstuma a justa sanção, que muitas vezes na vida presente lhe é negada.

O que acaba de ser dito, pode ser ilustrado pela verificação de certos fenômenos ocorrentes na natureza. Esta parece excluir a frustração e o absurdo. Com efeito, se tenho olhos, é porque existem sons e melodias; se tenho pulmões, existe o ar que lhes corresponde; se tenho fome e sede, existem alimentos de que preciso; se a agulha magnética se agita dentro da bússola, existe um pólo Norte (invisível, sim, mas muito real) que a atrai. Analogamente, se verifico em mim a sede espontânea e natural de certos valores ou mesmo do Infinito, posso estar certo de que tais valores e o Bem Infinito existem no Além, em correspondência a tais aspirações.

Assim se confirma a tese de que a alma humana é por si imortal.

A origem da alma humana

Proporemos a solução lógica e correta, à qual se seguirá, à guisa de Apêndice ilustrativo, uma breve resenha de teorias não aceitáveis.

O Criacionismo

A questão da origem da alma humana se resolve sem dificuldade, desde que se leve em conta a sua natureza espiritual. Com efeito; se o modo de agir revela o modo de ser (ou a índole própria) de determinada criatura, o modo de ser, por sua vez, revela o modo de começar ou de originar-se dessa criatura. Há uma correspondência entre agir, ser e vir-a-ser:

A primeira manifestação de uma criatura é o seu modo de agir. Observando-o, percebemos o seu modo de ser; e, observando o modo de ser, deduzimos o modo de vir-a-ser dessa criatura.

Conseqüentemente, se o agir e o ser da alma humana ultrapassam o concreto material ou transcendem a matéria, a origem da mesma há de ser também imaterial. Com outras palavras: a alma humana não vem da matéria nem por evolução nem por geração, mas diretamente por um ato criador de Deus. – O Senhor cria e infunde cada alma humana no momento em que se dá a fecundação do óvulo pelo espermatozóide; o embrião recém-fecundado já possui virtualmente a organização típica do corpo humano; basta que cresça para que revele as características do organismo humano; daí dizer-se que já é animado pelo princípio vital (alma) próprio do corpo humano. Está hoje em dia superada a tese da animação gradativa, segundo a qual o embrião teria primeiramente uma alma meramente vegetativa; depois, uma alma sensitiva, e por último a alma intelectiva, tipicamente humana e espiritual. Não há razão para admitir tal hipótese, visto que o embrião humano já é plenamente humano desde que existe o ovo fecundado; uma só alma – intelectiva e espiritual – preenche as funções vegetativas, sensitivas e intelectivas. – A propósito veja-se o artigo do Prof. Jérôme Lejeune, publicado em PR 305/1987, pp. 457-461, no qual o autor, após longa pesquisa, afirma a existência de autêntico ser humano desde a fecundação do óvulo pelo espermatozóide.

Teorias não aceitáveis

a) O emanatismo ensina que a alma humana é centelha da Divindade apoucada ou amesquinhada na matéria; entraria no embrião por emanação a partir da Divindade. Tal é a posição de correntes panteístas antigas, medievais e modernas. – Não se sustenta, pois supõe que a Divindade se possa repartir, distribuindo-se pelos corpos dos seres humanos. A Divindade não tem partes, pois isto significaria ser extensa e corpórea – predicados que não competem a Deus.

b) O traducianismo¹ ou generacionismo corporal admite que a alma de cada genitor possa emitir uma semente vital; a respectiva fecundação daria origem à alma da prole. – Tal teoria é falha por atribuir à alma espiritual sementes vitais corpóreas, das quais se originaria outra alma espiritual. Espírito e corpo são realidades radicalmente diferentes, de modo que não há transição de uma para outra. O espírito é precisamente o ser incorpóreo, inextenso e imaterial, dotado de inteligência e vontade.

c) O traducianismo ou generacionismo espiritual afirma que, por ocasião da fecundação, a alma da prole se deriva das almas dos genitores como a chama se deriva da chama, sem semente corpórea. Santo Agostinho (+ 430) era propenso a admitir tal teoria. - Também esta é falha, pois supõe que a alma humana se possa repartir – o que contradiz à natureza espiritual da alma humana; o espírito não tem extensão nem partes.

S. Agostinho era favorável a tal tese, pois lhe parecia explicar bem a transmissão do pecado original. – Ora a propósito deve-se dizer que o pecado original na criança não consiste em alguma mancha herdada dos pais, mas, sim, na ausência da graça santificante e dos demais dons que os primeiros pais receberam e deviam ter guardado para os transmitir aos seus descendentes. Essa ausência é compatível com a realidade de uma alma espiritual diretamente criada por Deus, com tudo o que naturalmente a integra; a graça santificante e os dons paradisíacos foram gratuitamente dados por Deus aos primeiros pais; não pertencem à essência da alma humana.

Resta, pois, a doutrina criacionista como genuína maneira de explicar a origem da alma humana.

Fonte: Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 343 – Ano 1990 – Pág. 545.

Ferramentas pessoais
Espaços nominais
Variantes
Ações
Navegação
Ferramentas