Não existe arte sem dor

De Wiki Canção Nova
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Padre Fábio de Melo
Artista bom é artista sofrido. É interessante a gente perceber que há uma conexão tão direta entre o processo criativo com aquilo que a gente sofre. Arthur Schopenhauer que é um dos filósofos mais ateus que a história já teve intuiu de maneira belíssima que “o sofrimento é a fonte da criatividade”. Mas também a gente intui pela própria pratica que o sofrimento quando não administrado do jeito certo acaba sendo uma fonte de destruição pra nós.

Se você tem aquela sensação de que você perdeu e que o momento do sofrimento é somente um momento de perda, quem só enxerga o lado da perda nunca vai descobrir a arte no que está perdendo. Porque arte é um jeito diferente de olhar para as coisas. Artista não é só aquele que compõe uma música, que escreve um texto ou que faz uma obra de arte. A arte é muito mais um jeito de enxergar o mundo do que necessariamente uma obra que se faz. Mesmo porque você encontra artistas que nunca fizeram uma obra de arte se não viver. E ai você descobre como é interessante que no processo da dor e do sofrimento você encontra criatividade. As vezes somos colocados em alguns limites que nós temos que mostrar o que temos de pior.

Deus às vezes nos dá a oportunidade de escrever o que a gente precisa aprender. Às vezes você está com aquela pretensão de ensinar as coisas a alguém, quando na verdade quem precisava saber daquilo tudo é você.

Quantas vezes a gente passa pelo processo de perder tudo o tempo todo, mas em algum lugar isso fica registrado dentro de nós. Porque a experiência da ressurreição é essa, nada morre totalmente e as vezes Deus nos dá a oportunidade do empenho, da construção, do amor, do sofrimento, mas não é aquela obra que ele quer é muito mais do um processo material de você ter algo em mãos. Se Deus nos concede a graça de alguma forma isso vai sendo recuperado dentro de nós.

Às vezes nós temos razão para jogar tudo fora perder a paz. Não faça isso, comece de novo. Se a gente começa a enxergar a perda como definitiva, como algo que a gente não recupera mais, o sofrimento se torna infértil e a gente nunca vai conseguir fazer arte deste sofrimento. Pelo contrário, a gente faz desastre. É preciso interpretar o momento que a gente vive com sabedoria, sabedoria do Evangelho. Nós acreditamos no Evangelho pra nos mover neste momento, é pra nos colocar de pé no momento em que a gente não tem força. O Evangelho não pode ser uma força teórica a mover a nossa inteligência, a nossa inteligência tem que mover a nossa prática, você tem que descobrir entre aquilo que você acredita de Jesus, com aquilo que você vive em suas pequenas derrotas você tem que descobrir nisso uma conexão. Aí então você fará arte.

Se você se mete a colocar os seus olhos somente naquilo que você enxerga, você se desespera. O sofrimento, a decepção, derrota são matérias primas de nossa arte, de nossa reinterpretação da vida. Não são muitas as oportunidades que a gente tem de passar por isso, mas no momento que a gente passa se a gente não segura com as duas mãos a gente perde a oportunidade de viver a sabedoria. A arte nos atinge neste momento, é no momento que tudo dá errado e nós precisamos reconstruir. É preciso pegar a peça e trabalhá-lha de novo.

As vezes nós vamos pra vida assim com medo de que tudo de errado, mas não importa se der a gente começa tudo de novo. A arte nasce dentro do artista assim, na capacidade de ultrapassar as pontes, de buscar o que está do outro lado. O artista quando interpreta de fato a sua missão ele é naturalmente cristão. Porque o cristianismo é isso, a arte de constantes recomeços. Nunca estamos prontos, nunca chegamos ao lugar definitivo. É sempre experiência de passagem.

(Trecho da música Contrários) “Que o verso tem reverso; Que o direito tem avesso; Que o de graça tem seu preço; Que a vida tem contrários; E a saudade é um lugar; Que só chega quem amou; E que o ódio é uma forma tão estranha de amar; Que o perto tem distâncias; Que esquerdo tem direito; Que a resposta tem pergunta; E o problema solução; E que o amor começa aqui; No contrário que há em mim; E a sombra só existe quando brilha alguma luz.”

Como é difícil viver nas sombras dessa luz, é muito difícil a gente viver nas sombras destes acontecimentos. Quando alguma coisa nos contraria, a gente esbarra nesta experiência do limite. Ou você se torna amigo do limite e o encara de forma positiva ou vai acabar tornando o limite maior ainda, que é o limite de não continuar.

Você não pode querer ser de aço se você é de flor. Você não pode querer modificar aquilo que você é, não há como modificar a sua essência. Mas existe um jeito de se colocar diante daquilo que você é e daquilo que é a sua constituição humana de maneira favorável ao seu limite. Não é o limite que administra você é você que administra ele. O artista não para na obra, ela nunca é definitiva. Ela nunca está pronta.

A nossa verdade costuma morar nos rascunhos, a nossa verdade costuma morar naquilo que a gente não quer mostrar, naquelas coisas que a gente não está tão fortalecido pra tocar, para tornar evidente. Por isso que o bom artista é aquele que consegue colocar na obra, uma infinidade de possibilidades de rascunho que estão sustentando a obra.

Existe algumas pessoas que são capazes de gerar palavras dentro de nós. Elas geram reflexões dentro de nós a medida que o poder de arte nos impacta. Jesus foi sedutor como foi, por causa da sua capacidade de gerar dentro das pessoas que Ele encontrava palavras, reflexões.

Tem que ser muito artista pra mostrar a dor sem desespero. Tem que ser muito artista para extrair arte no momento da dor. E as vezes a gente não consegue. Cada vez mais nós escondemos o que somos, cada vez mais queremos criar personagens. Nós somos sensíveis e você precisa admitir isso. Porque se você nega o sofrimento que te ataca ele nunca vai virar arte dentro de você.

Faça arte a partir do sofrimento, essa é a mensagem. Quando você descobre uma coisa que te faz sofrer e você percebe que ela não precisa fazer sofrer tanto assim, isso se torna arte. É um jeito de você ver o avesso das coisas, de ver sempre um lado bom das coisas.

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