Mudanças entre as edições de "A Bíblia"

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('''Atos At - Atos dos Apóstolos''')
(Gl Epístola aos Gálatas)
 
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=='''Básico sobre a Bíblia'''==
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==Básico sobre a Bíblia==
  
  
==='''COMO SÃO FEITAS AS CITAÇÕES BÍBLICAS?'''===  
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===COMO SÃO FEITAS AS CITAÇÕES BÍBLICAS?===  
  
 
Por exemplo, quando quisermos citar a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, basta escrever '''1Ts.'''
 
Por exemplo, quando quisermos citar a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, basta escrever '''1Ts.'''
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==='''ANTIGO TESTAMENTO'''===
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===ANTIGO TESTAMENTO===
  
===='''Pentateuco'''====
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====Pentateuco====
*Gn Livro da Gênese
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*Ex Livro do Êxodo  
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=====Gn. - Livro do Gêneses=====
*Lv Livro do Levítico  
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*Nm Livro dos Números  
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=====Êx. - Livro do Êxodo=====
*Dt Livro do Deuteronômio  
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=====Lv. - Livro do Levítico=====
===='''Históricos'''====
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*Js Livro de Josué  
+
=====Nm. - Livro dos Números=====
*Jz Livro dos Juízes  
+
 
*Rt Livro de Rute  
+
=====Dt. - Livro do Deuteronômio=====
*1Sm 1º Livro de Samuel  
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*2Sm 2º Livro de Samuel  
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====Históricos====
*1Rs 1º Livro dos Reis  
+
 
*2Rs 2º Livro dos Reis  
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=====Js. - Livro de Josué=====
*1Cr 1º Livro das Crônicas  
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*2Cr 2º Livro das Crônicas  
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=====Jz. - Livro dos Juízes=====
*Esd Livro de Esdras  
+
=====Rt. - Livro de Rute=====
*Ne Livro de Neemias  
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=====1Sm. - 1º Livro de Samuel=====
*Tb Livro de Tobias  
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=====2Sm. - 2º Livro de Samuel=====
*Jud Livro de Judite  
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=====1Rs. - 1º Livro dos Reis=====
*Est Livro de Ester  
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=====2Rs. - 2º Livro dos Reis=====
*1Mc 1º Livro dos Macabeus  
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=====1Cr. - 1º Livro das Crônicas=====
*2Mc 2º Livro dos Macabeus
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=====2Cr. - 2º Livro das Crônicas=====
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=====Esd. - Livro de Esdras=====
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=====Ne. - Livro de Neemias=====
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=====Tb. - Livro de Tobias=====
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=====Jud. - Livro de Judite=====
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=====Est. - Livro de Ester=====
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=====1Mc. - 1º Livro dos Macabeus=====
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=====2Mc. - 2º Livro dos Macabeus=====
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====Sapienciais====
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=====Jó - Livro de Jó=====
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=====Sl. - Livro dos Salmos=====
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=====Pr. - Livro dos Provérbios=====
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=====Ecle. - Livro do Eclesiastes=====
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=====Ct. - Cântico dos Cânticos=====
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=====Sb. - Livro da Sabedoria=====
  
===='''Sapienciais'''====
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=====Eclo. - Livro do Eclesiástico=====
*Jó Livro de Jó
 
*Sl Livro dos Salmos
 
*Pr Livro dos Provérbios
 
*Ecl Livro do Eclesiastes
 
*Ct Cântico dos Cânticos
 
*Sb Livro da Sabedoria
 
*Eclo Livro do Eclesiástico
 
  
 
===='''Proféticos'''====
 
===='''Proféticos'''====
*Is Livro de Isaías
 
*Jr Livro de Jeremias
 
*Lm Livro das Lamentações
 
*Br Livro de Baruc
 
*Ez Livro de Ezequiel
 
*Dn Livro de Daniel
 
*Os Livro de Oséias
 
*Jl Livro de Joel
 
*Am Livro de Amós
 
*Ab Livro de Abdias
 
*Jn Livro de Jonas
 
*Mq Livro de Miquéias
 
*Na Livro de Naum
 
*Hab Livro de Habacuc
 
*Sf Livro de Sofonias
 
*Ag Livro de Ageu
 
*Zc Livro de Zacarias
 
*Ml Livro de Malaquias
 
  
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=====Is. - Livro de Isaías=====
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=====Jr. - Livro de Jeremias=====
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=====Lm. - Livro das Lamentações=====
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=====Br. - Livro de Baruc=====
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=====Ez. - Livro de Ezequiel=====
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=====Dn. - Livro de Daniel=====
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=====Os. - Livro de Oséias=====
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=====Jl. - Livro de Joel=====
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=====Am. - Livro de Amós=====
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=====Ab. - Livro de Abdias=====
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=====Jn. - Livro de Jonas=====
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=====Mq. - Livro de Miquéias=====
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=====Na. - Livro de Naum=====
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=====Hab. - Livro de Habacuc=====
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=====Sf. - Livro de Sofonias=====
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=====Ag. - Livro de Ageu=====
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=====Zc. - Livro de Zacarias=====
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=====Ml. - Livro de Malaquias=====
  
 
==='''NOVO TESTAMENTO'''===
 
==='''NOVO TESTAMENTO'''===
  
===='''Evangelhos'''====
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====Evangelhos====
*Mt Evangelho segundo Mateus  
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*Mc Evangelho segundo Marcos
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=====Mt. - Evangelho segundo Mateus=====
*Lc Evangelho segundo Lucas
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*Jo Evangelho segundo João
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Capítulo 1
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1. Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
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2. Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacó. Jacó gerou Judá e seus irmãos.
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3. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Farés gerou Esron. Esron gerou Arão.
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4. Arão gerou Aminadab. Aminadab gerou Naasson. Naasson gerou Salmon.
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5. Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi.
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6. O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias.
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7. Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa.
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8. Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão. Jorão gerou Ozias.
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9. Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias.
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10. Ezequias gerou Manassés. Manassés gerou Amon. Amon gerou Josias.
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11. Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no cativeiro de Babilônia.
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12. E, depois do cativeiro de Babilônia, Jeconias gerou Salatiel. Salatiel gerou Zorobabel.
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13. Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliacim. Eliacim gerou Azor.
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14. Azor gerou Sadoc. Sadoc gerou Aquim. Aquim gerou Eliud.
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15. Eliud gerou Eleazar. Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó.
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16. Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo.
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17. Portanto, as gerações, desde Abraão até Davi, são quatorze. Desde Davi até o cativeiro de Babilônia, quatorze gerações. E, depois do cativeiro até Cristo, quatorze gerações. Nascimento de Jesus
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18. Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo.
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19. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente.
 +
20. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo.
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21. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados.
 +
22. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta:
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23. Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco.
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24. Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa.
 +
25. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus.
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===='''Atos At - Atos dos Apóstolos'''====
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Capítulo 2
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1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.
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2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.
 +
3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.
 +
4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.
 +
5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:
 +
6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).
 +
7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.
 +
8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.
 +
9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.
 +
10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.
 +
11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
 +
12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.
 +
13. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.
 +
14. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.
 +
15. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).
 +
16. Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.
 +
17. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:
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18. Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!
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19. Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse:
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20. Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.
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21. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel.
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22. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galiléia
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23. e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno.
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Capítulo 3
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1. Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia.
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2. Dizia ele: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos céus.
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3. Este é aquele de quem falou o profeta Isaías, quando disse: Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Is 40,3).
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4. João usava uma vestimenta de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
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5. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele.
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6. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão.
 +
7. Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura?
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8. Dai, pois, frutos de verdadeira penitência.
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9. Não digais dentro de vós: Nós temos a Abraão por pai! Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão.
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10. O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo.
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11. Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.
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12. Tem na mão a pá, limpará sua eira e recolherá o trigo ao celeiro. As palhas, porém, queimá-las-á num fogo inextinguível.
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13. Da Galiléia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele.
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14. João recusava-se: Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim!
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15. Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa. Então João cedeu.
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16. Depois que Jesus foi batizado, saiu logo da água. Eis que os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus.
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17. E do céu baixou uma voz: Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição.
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Capítulo 4
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1. Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio.
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2. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome.
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3. O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.
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4. Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3).
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5. O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe:
 +
6. Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s).
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7. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16).
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8. O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe:
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9. Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares.
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10. Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Dt 6,13).
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11. Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo.
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12. Quando, pois, Jesus ouviu que João fora preso, retirou-se para a Galiléia.
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13. Deixando a cidade de Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, à margem do lago, nos confins de Zabulon e Neftali,
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14. para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías:
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15. A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar, a terra além do Jordão, a Galiléia dos gentios,
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16. este povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz; e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte (Is 9,1).
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17. Desde então, Jesus começou a pregar: Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo.
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18. Caminhando ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
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19. E disse-lhes: Vinde após mim e vos farei pescadores de homens.
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20. Na mesma hora abandonaram suas redes e o seguiram.
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21. Passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam com seu pai Zebedeu consertando as redes. Chamou-os,
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22. e eles abandonaram a barca e seu pai e o seguiram.
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23. Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
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24. Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E ele curava a todos.
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25. Grandes multidões acompanharam-no da Galiléia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e dos países do outro lado do Jordão.
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Capítulo 5
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1. Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele.
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2. Então abriu a boca e lhes ensinava, dizendo:
 +
3. Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!
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4. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!
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5. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!
 +
6. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
 +
7. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
 +
8. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!
 +
9. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!
 +
10. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!
 +
11. Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim.
 +
12. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
 +
13. Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens.
 +
14. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha
 +
15. nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa.
 +
16. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.
 +
17. Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição.
 +
18. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.
 +
19. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus.
 +
20. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus.
 +
21. Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal.
 +
22. Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena.
 +
23. Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,
 +
24. deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta.
 +
25. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão.
 +
26. Em verdade te digo: dali não sairás antes de teres pago o último centavo.
 +
27. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.
 +
28. Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração.
 +
29. Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena.
 +
30. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena.
 +
31. Foi também dito: Todo aquele que rejeitar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio.
 +
32. Eu, porém, vos digo: todo aquele que rejeita sua mulher, a faz tornar-se adúltera, a não ser que se trate de matrimônio falso; e todo aquele que desposa uma mulher rejeitada comete um adultério.
 +
33. Ouvistes ainda o que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás para com o Senhor os teus juramentos.
 +
34. Eu, porém, vos digo: não jureis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
 +
35. nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei.
 +
36. Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes fazer um cabelo tornar-se branco ou negro.
 +
37. Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno.
 +
38. Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente.
 +
39. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
 +
40. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
 +
41. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
 +
42. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
 +
43. Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.
 +
44. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.
 +
45. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.
 +
46. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?
 +
47. Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
 +
48. Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.
 +
 
 +
 +
Capítulo 6
 +
 
 +
1. Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.
 +
2. Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
 +
3. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
 +
4. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.
 +
5. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
 +
6. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.
 +
7. Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras.
 +
8. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.
 +
9. Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome;
 +
10. venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
 +
11. O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
 +
12. perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam;
 +
13. e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.
 +
14. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará.
 +
15. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.
 +
16. Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
 +
17. Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto.
 +
18. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.
 +
19. Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam.
 +
20. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam.
 +
21. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.
 +
22. O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado.
 +
23. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!
 +
24. Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.
 +
25. Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes?
 +
26. Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
 +
27. Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
 +
28. E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam.
 +
29. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.
 +
30. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
 +
31. Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
 +
32. São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.
 +
33. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
 +
34. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.
 +
 
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Capítulo 7
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 +
1. Não julgueis, e não sereis julgados.
 +
2. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos.
 +
3. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?
 +
4. Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu?
 +
5. Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.
 +
6. Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem.
 +
7. Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto.
 +
8. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á.
 +
9. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão?
 +
10. E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente?
 +
11. Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.
 +
12. Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas.
 +
13. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram.
 +
14. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram.
 +
15. Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.
 +
16. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos?
 +
17. Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos.
 +
18. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos.
 +
19. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo.
 +
20. Pelos seus frutos os conhecereis.
 +
21. Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.
 +
22. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?
 +
23. E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!
 +
24. Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha.
 +
25. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha.
 +
26. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia.
 +
27. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína.
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28. Quando Jesus terminou o discurso, a multidão ficou impressionada com a sua doutrina.
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29. Com efeito, ele a ensinava como quem tinha autoridade e não como os seus escribas.
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Capítulo 8
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1. Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão o seguiu.
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2. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante dele, dizendo: Senhor, se queres, podes curar-me.
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3. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu quero, sê curado. No mesmo instante, a lepra desapareceu.
 +
4. Jesus então lhe disse: Vê que não o digas a ninguém. Vai, porém, mostrar-te ao sacerdote e oferece o dom prescrito por Moisés em testemunho de tua cura.
 +
5. Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica:
 +
6. Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito.
 +
7. Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei.
 +
8. Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.
 +
9. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz...
 +
10. Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel.
 +
11. Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó,
 +
12. enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.
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13. Depois, dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado.
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14. Foi então Jesus à casa de Pedro, cuja sogra estava de cama, com febre.
 +
15. Tomou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela levantou-se e pôs-se a servi-los.
 +
16. Pela tarde, apresentaram-lhe muitos possessos de demônios. Com uma palavra expulsou ele os espíritos e curou todos os enfermos.
 +
17. Assim se cumpriu a predição do profeta Isaías: Tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males (Is 53,4).
 +
18. Certo dia, vendo-se no meio de grande multidão, ordenou Jesus que o levassem para a outra margem do lago.
 +
19. Nisto aproximou-se dele um escriba e lhe disse: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.
 +
20. Respondeu Jesus: As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.
 +
21. Outra vez um dos seus discípulos lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai.
 +
22. Jesus, porém, lhe respondeu: Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos.
 +
23. Subiu ele a uma barca com seus discípulos.
 +
24. De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia.
 +
25. Os discípulos achegaram-se a ele e o acordaram, dizendo: Senhor, salva-nos, nós perecemos!
 +
26. E Jesus perguntou: Por que este medo, gente de pouca fé? Então, levantando-se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria.
 +
27. Admirados, diziam: Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?
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28. No outro lado do lago, na terra dos gadarenos, dois possessos de demônios saíram de um cemitério e vieram-lhe ao encontro. Eram tão furiosos que pessoa alguma ousava passar por ali.
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29. Eis que se puseram a gritar: Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?
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30. Havia, não longe dali, uma grande manada de porcos que pastava.
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31. Os demônios imploraram a Jesus: Se nos expulsas, envia-nos para aquela manada de porcos.
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32. Ide, disse-lhes. Eles saíram e entraram nos porcos. Nesse instante toda a manada se precipitou pelo declive escarpado para o lago, e morreu nas águas.
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33. Os guardas fugiram e foram contar na cidade o que se tinha passado e o sucedido com os endemoninhados.
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34. Então a população saiu ao encontro de Jesus. Quando o viu, suplicou-lhe que deixasse aquela região.
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Capítulo 9
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1. Jesus tomou de novo a barca, passou o lago e veio para a sua cidade.
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2. Eis que lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: "Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados."
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3. Ouvindo isto, alguns escribas murmuraram entre si: "Este homem blasfema."
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4. Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: "Por que pensais mal em vossos corações?
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5. Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou: Levanta-te e anda?
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6. Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados: Levanta-te - disse ele ao paralítico -, toma a tua maca e volta para tua casa."
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7. Levantou-se aquele homem e foi para sua casa.
 +
8. Vendo isto, a multidão encheu-se de medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens.
 +
9. Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe: Segue-me. O homem levantou-se e o seguiu.
 +
10. Como Jesus estivesse à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos.
 +
11. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos: "Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?"
 +
12. Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes: "Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes.
 +
13. Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores."
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14. Então os discípulos de João, dirigindo-se a ele, perguntaram: "Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?"
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15. Jesus respondeu: Podem os amigos do esposo afligir-se enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o esposo. Então eles jejuarão.
 +
16. Ninguém põe um remendo de pano novo numa veste velha, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgão ficaria pior.
 +
17. Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam.
 +
18. Falava ele ainda, quando se apresentou um chefe da sinagoga. Prostrou-se diante dele e lhe disse: Senhor, minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe-lhe as mãos e ela viverá.
 +
19. Jesus levantou-se e o foi seguindo com seus discípulos.
 +
20. Ora, uma mulher atormentada por um fluxo de sangue, havia doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe a orla do manto.
 +
21. Dizia consigo: Se eu somente tocar na sua vestimenta, serei curada.
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22. Jesus virou-se, viu-a e disse-lhe: Tem confiança, minha filha, tua fé te salvou. E a mulher ficou curada instantaneamente.
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23. Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus os tocadores de flauta e uma multidão alvoroçada. Disse-lhes:
 +
24. Retirai-vos, porque a menina não está morta; ela dorme. Eles, porém, zombavam dele.
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25. Tendo saído a multidão, ele entrou, tomou a menina pela mão e ela levantou-se.
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26. Esta notícia espalhou-se por toda a região.
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27. Partindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando: Filho de Davi, tem piedade de nós!
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28. Jesus entrou numa casa e os cegos aproximaram-se dele. Disse-lhes: Credes que eu posso fazer isso? Sim, Senhor, responderam eles.
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29. Então ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: Seja-vos feito segundo vossa fé.
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30. No mesmo instante, os seus olhos se abriram. Recomendou-lhes Jesus em tom severo: Vede que ninguém o saiba.
 +
31. Mas apenas haviam saído, espalharam a sua fama por toda a região.
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32. Logo que se foram, apresentaram-lhe um mudo, possuído do demônio.
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33. O demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: Jamais se viu algo semelhante em Israel.
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34. Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios.
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35. Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade.
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6. Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor.
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37. Disse, então, aos seus discípulos: A messe é grande, mas os operários são poucos.
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38. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para sua messe.
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Capítulo 10
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1. Jesus reuniu seus doze discípulos. Conferiu-lhes o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo mal e toda enfermidade.
 +
2. Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão.
 +
3. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu.
 +
4. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
 +
5. Estes são os Doze que Jesus enviou em missão, após lhes ter dado as seguintes instruções: Não ireis ao meio dos gentios nem entrareis em Samaria;
 +
6. ide antes às ovelhas que se perderam da casa de Israel.
 +
7. Por onde andardes, anunciai que o Reino dos céus está próximo.
 +
8. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!
 +
9. Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos,
 +
10. nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento.
 +
11. Nas cidades ou aldeias onde entrardes, informai-vos se há alguém ali digno de vos receber; ficai ali até a vossa partida.
 +
12. Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa.
 +
13. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós.
 +
14. Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés.
 +
15. Em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade.
 +
16. Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas.
 +
17. Cuidai-vos dos homens. Eles vos levarão aos seus tribunais e açoitar-vos-ão com varas nas suas sinagogas.
 +
18. Sereis por minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos.
 +
19. Quando fordes presos, não vos preocupeis nem pela maneira com que haveis de falar, nem pelo que haveis de dizer: naquele momento ser-vos-á inspirado o que haveis de dizer.
 +
20. Porque não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de vosso Pai que falará em vós.
 +
21. O irmão entregará seu irmão à morte. O pai, seu filho. Os filhos levantar-se-ão contra seus pais e os matarão.
 +
22. Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo.
 +
23. Se vos perseguirem numa cidade, fugi para uma outra. Em verdade vos digo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem.
 +
24. O discípulo não é mais que o mestre, o servidor não é mais que o patrão.
 +
25. Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre, e ao servidor como seu patrão. Se chamaram de Beelzebul ao pai de família, quanto mais o farão às pessoas de sua casa!
 +
26. Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber.
 +
27. O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados.
 +
28. Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena.
 +
29. Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai.
 +
30. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados.
 +
31. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós.
 +
32. Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus.
 +
33. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
 +
34. Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.
 +
35. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra,
 +
36. e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa.
 +
37. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim.
 +
38. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.
 +
39. Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la-á.
 +
40. Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele que me enviou.
 +
41. Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo.
 +
42. Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa.
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Capítulo 11
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1. Após ter dado instruções aos seus doze discípulos, Jesus partiu para ensinar e pregar nas cidades daquela região.
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2. Tendo João, em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-lhe dizer pelos seus discípulos:
 +
3. Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?
 +
4. Respondeu-lhes Jesus: Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes:
 +
5. os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres...
 +
6. Bem-aventurado aquele para quem eu não for ocasião de queda!
 +
7. Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?
 +
8. Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis.
 +
9. Então por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos eu, mais que um profeta.
 +
10. É dele que está escrito: Eis que eu envio meu mensageiro diante de ti para te preparar o caminho (Ml 3,1).
 +
11. Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.
 +
12. Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam.
 +
13. Porque os profetas e a lei tiveram a palavra até João.
 +
14. E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar.
 +
15. Quem tem ouvidos, ouça.
 +
16. A quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos sentados nas praças que gritam aos seus companheiros:
 +
17. Tocamos a flauta e não dançais, cantamos uma lamentação e não chorais.
 +
18. João veio; ele não bebia e não comia, e disseram: Ele está possesso de um demônio.
 +
19. O Filho do Homem vem, come e bebe, e dizem: É um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos devassos. Mas a sabedoria foi justificada por seus filhos.
 +
20. Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de seus milagres, por terem recusado arrepender-se:
 +
21. Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza.
 +
22. Por isso vos digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós!
 +
23. E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia.
 +
24. Por isso te digo: no dia do juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!
 +
25. Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos.
 +
26. Sim, Pai, eu te bendigo, porque assim foi do teu agrado.
 +
27. Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo.
 +
28. Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei.
 +
29. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas.
 +
30. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve.
 +
 
 +
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Capítulo 12
 +
 
 +
1. Atravessava Jesus os campos de trigo num dia de sábado. Seus discípulos, tendo fome, começaram a arrancar as espigas para comê-las.
 +
2. Vendo isto, os fariseus disseram-lhe: Eis que teus discípulos fazem o que é proibido no dia de sábado.
 +
3. Jesus respondeu-lhes: Não lestes o que fez Davi num dia em que teve fome, ele e seus companheiros,
 +
4. como entrou na casa de Deus e comeu os pães da proposição? Ora, nem a ele nem àqueles que o acompanhavam era permitido comer esses pães reservados só aos sacerdotes.
 +
5. Não lestes na lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no templo o descanso do sábado e não se tornam culpados?
 +
6. Ora, eu vos declaro que aqui está quem é maior que o templo.
 +
7. Se compreendêsseis o sentido destas palavras: Quero a misericórdia e não o sacrifício... não condenaríeis os inocentes.
 +
8. Porque o Filho do Homem é senhor também do sábado.
 +
9. Partindo dali, Jesus entrou na sinagoga.
 +
10. Encontrava-se lá um homem que tinha a mão seca. Alguém perguntou a Jesus: É permitido curar no dia de sábado? Isto para poder acusá-lo.
 +
11. Jesus respondeu-lhe: Há alguém entre vós que, tendo uma única ovelha e se esta cair num poço no dia de sábado, não a irá procurar e retirar?
 +
12. Não vale o homem muito mais que uma ovelha? É permitido, pois, fazer o bem no dia de sábado.
 +
13. Disse, então, àquele homem: Estende a mão. Ele a estendeu e ela tornou-se sã como a outra.
 +
14. Os fariseus saíram dali e deliberaram sobre os meios de o matar.
 +
15. Jesus soube disso e afastou-se daquele lugar. Uma grande multidão o seguiu, e ele curou todos os seus doentes.
 +
16. Proibia-lhes formalmente falar disso,
 +
17. para que se cumprisse o anunciado pelo profeta Isaías:
 +
18. Eis o meu servo a quem escolhi, meu bem-amado em quem minha alma pôs toda sua a afeição. Farei repousar sobre ele o meu Espírito e ele anunciará a justiça aos pagãos.
 +
19. Ele não disputará, não elevará sua voz; ninguém ouvirá sua voz nas praças públicas.
 +
20. Não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que faça triunfar a justiça.
 +
21. Em seu nome as nações pagãs porão sua esperança (Is 42,1-4).
 +
22. Apresentaram-lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus o curou de tal modo, que este falava e via.
 +
23. A multidão, admirada, dizia: Não será este o filho de Davi?
 +
24. Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: É por Beelzebul, chefe dos demônios, que ele os expulsa.
 +
25. Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir.
 +
26. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino?
 +
27. E se eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes.
 +
28. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus.
 +
29. Como pode alguém penetrar na casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem ter primeiro amarrado este homem forte? Só então pode roubar sua casa.
 +
30. Quem não está comigo está contra mim; e quem não ajunta comigo, espalha.
 +
31. Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada.
 +
32. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro.
 +
33. Ou dizeis que a árvore é boa e seu fruto bom, ou dizeis que é má e seu fruto, mau; porque é pelo fruto que se conhece a árvore.
 +
34. Raça de víboras, maus como sois, como podeis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda do coração.
 +
35. O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro.
 +
36. Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido.
 +
37. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado.
 +
38. Então alguns escribas e fariseus tomaram a palavra: Mestre, quiséramos ver-te fazer um milagre.
 +
39. Respondeu-lhes Jesus: Esta geração adúltera e perversa pede um sinal, mas não lhe será dado outro sinal do que aquele do profeta Jonas:
 +
40. do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra.
 +
41. No dia do juízo, os ninivitas se levantarão com esta raça e a condenarão, porque fizeram penitência à voz de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas.
 +
42. No dia do juízo, a rainha do Sul se levantará com esta raça e a condenará, porque veio das extremidades da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está quem é mais do que Salomão.
 +
43. Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso que não acha.
 +
44. Diz ele, então: Voltarei para a casa donde saí. E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada.
 +
45. Vai, então, buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e se estabelecem aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. Tal será a sorte desta geração perversa.
 +
46. Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar.
 +
47. Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te.
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48. Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?
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49. E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui minha mãe e meus irmãos.
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50. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
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Capítulo 13
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1. Naquele dia, saiu Jesus e sentou-se à beira do lago.
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2. Acercou-se dele, porém, uma tal multidão, que precisou entrar numa barca. Nela se assentou, enquanto a multidão ficava à margem.
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3. E seus discursos foram uma série de parábolas.
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4. Disse ele: Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram.
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5. Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda.
 +
6. Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes.
 +
7. Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram.
 +
8. Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um.
 +
9. Aquele que tem ouvidos, ouça.
 +
10. Os discípulos aproximaram-se dele, então, para dizer-lhe: Por que lhes falas em parábolas?
 +
11. Respondeu Jesus: Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não.
 +
12. Ao que tem, se lhe dará e terá em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem.
 +
13. Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam.
 +
14. Assim se cumpre para eles o que foi dito pelo profeta Isaías: Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis,
 +
15. porque o coração deste povo se endureceu: taparam os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Is 6,9s).
 +
16. Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem!
 +
17. Eu vos declaro, em verdade: muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram.
 +
18. Ouvi, pois, o sentido da parábola do semeador:
 +
19. quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração. Este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho.
 +
20. O solo pedregoso em que ela caiu é aquele que acolhe com alegria a palavra ouvida,
 +
21. mas não tem raízes, é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo encontra uma ocasião de queda.
 +
22. O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa.
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23. A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um.
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24. Jesus propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo.
 +
25. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu.
 +
26. O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio.
 +
27. Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: - Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio?
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28. Disse-lhes ele: - Foi um inimigo que fez isto! Replicaram-lhe: - Queres que vamos e o arranquemos?
 +
29. - Não, disse ele; arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo.
 +
30. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro.
 +
31. Em seguida, propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo.
 +
32. É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos.
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33. Disse-lhes, por fim, esta outra parábola. O Reino dos céus é comparado ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa.
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34. Tudo isto disse Jesus à multidão em forma de parábola. De outro modo não lhe falava,
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35. para que se cumprisse a profecia: Abrirei a boca para ensinar em parábolas; revelarei coisas ocultas desde a criação (Sl 77,2).
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36. Então despediu a multidão. Em seguida, entrou de novo na casa e seus discípulos agruparam-se ao redor dele para perguntar-lhe: Explica-nos a parábola do joio no campo.
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37. Jesus respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem.
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38. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno.
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39. O inimigo, que o semeia, é o demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos.
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40. E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo.
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41. O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal
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42. e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.
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43. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça.
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44. O Reino dos céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo.
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45. O Reino dos céus é ainda semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.
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46. Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.
 +
47. O Reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie.
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48. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta.
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49. Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos
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50. e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes.
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51. Compreendestes tudo isto? Sim, Senhor, responderam eles.
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52. Por isso, todo escriba instruído nas coisas do Reino dos céus é comparado a um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.
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53. Após ter exposto as parábolas, Jesus partiu.
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54. Foi para a sua cidade e ensinava na sinagoga, de modo que todos diziam admirados: Donde lhe vem esta sabedoria e esta força miraculosa?
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55. Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?
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56. E suas irmãs, não vivem todas entre nós? Donde lhe vem, pois, tudo isso?
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57. E não sabiam o que dizer dele. Disse-lhes, porém, Jesus: É só em sua pátria e em sua família que um profeta é menosprezado.
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58. E, por causa da falta de confiança deles, operou ali poucos milagres.
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Capítulo 14
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1. Por aquela mesma época, o tetrarca Herodes ouviu falar de Jesus.
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2. E disse aos seus cortesãos: É João Batista que ressuscitou. É por isso que ele faz tantos milagres.
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3. Com efeito, Herodes havia mandado prender e acorrentar João, e o tinha mandado meter na prisão por causa de Herodíades, esposa de seu irmão Filipe.
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4. João lhe tinha dito: Não te é permitido tomá-la por mulher!
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5. De boa mente o mandaria matar; temia, porém, o povo que considerava João um profeta.
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6. Mas, na festa de aniversário de nascimento de Herodes, a filha de Herodíades dançou no meio dos convidados e agradou a Herodes.
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7. Por isso, ele prometeu com juramento dar-lhe tudo o que lhe pedisse.
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8. Por instigação de sua mãe, ela respondeu: Dá-me aqui, neste prato, a cabeça de João Batista.
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9. O rei entristeceu-se, mas como havia jurado diante dos convidados, ordenou que lha dessem;
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10. e mandou decapitar João na sua prisão.
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11. A cabeça foi trazida num prato e dada à moça, que a entregou à sua mãe.
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12. Vieram, então, os discípulos de João transladar seu corpo, e o enterraram. Depois foram dar a notícia a Jesus.
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13. A essa notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé.
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14. Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes.
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15. Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia.
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16. Jesus, porém, respondeu: Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer.
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17. Mas, disseram eles, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes. _
 +
18. Trazei-mos, disse-lhes ele.
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19. Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo.
 +
20. Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios.
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21. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças.
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22. Logo depois, Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes dele para a outra margem, enquanto ele despedia a multidão.
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23. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite,
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estava lá sozinho.
 +
24. Entretanto, já a boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário.
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25. Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles, caminhando sobre o mar.
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26. Quando os discípulos o perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: É um fantasma! disseram eles, soltando gritos de terror.
 +
27. Mas Jesus logo lhes disse: Tranqüilizai-vos, sou eu. Não tenhais medo!
 +
28. Pedro tomou a palavra e falou: Senhor, se és tu, manda-me ir sobre as águas até junto de ti!
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29. Ele disse-lhe: Vem! Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus.
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30. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
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31. No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
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32. Apenas tinham subido para a barca, o vento cessou.
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33. Então aqueles que estavam na barca prostraram-se diante dele e disseram: Tu és verdadeiramente o Filho de Deus.
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34. E, tendo atravessado, chegaram a Genesaré.
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35. As pessoas do lugar o reconheceram e mandaram anunciar por todos os arredores. Apresentaram-lhe, então, todos os doentes,
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36. rogando-lhe que ao menos deixasse tocar na orla de sua veste. E, todos aqueles que nele tocaram, foram curados.
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Capítulo 15
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1. Alguns fariseus e escribas de Jerusalém vieram um dia ter com Jesus e lhe disseram:
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2. Por que transgridem teus discípulos a tradição dos antigos? Nem mesmo lavam as mãos antes de comer.
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3. Jesus respondeu-lhes: E vós, por que violais os preceitos de Deus, por causa de vossa tradição?
 +
4. Deus disse: Honra teu pai e tua mãe; aquele que amaldiçoar seu pai ou sua mãe será castigado de morte (Ex 20,12; 21,17).
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5. Mas vós dizeis: Aquele que disser a seu pai ou a sua mãe: aquilo com que eu vos poderia assistir, já ofereci a Deus,
 +
6. esse já não é obrigado a socorrer de outro modo a seus pais. Assim, por causa de vossa tradição, anulais a palavra de Deus.
 +
7. Hipócritas! É bem de vós que fala o profeta Isaías:
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8. Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim.
 +
9. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens (Is 29,13).
 +
10. Depois, reuniu os assistentes e disse-lhes:
 +
11. Ouvi e compreendei. Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. Eis o que mancha o homem.
 +
12. Então se aproximaram dele seus discípulos e disseram-lhe: Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram?
 +
13. Jesus respondeu: Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz.
 +
14. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala.
 +
15. Tomando então a palavra, Pedro disse: Explica-nos esta parábola.
 +
16. Jesus respondeu: Sois também vós de tão pouca compreensão?
 +
17. Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e depois é lançado num lugar secreto?
 +
18. Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem.
 +
19. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias.
 +
20. Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem.
 +
21. Jesus partiu dali e retirou-se para os arredores de Tiro e Sidônia.
 +
22. E eis que uma cananéia, originária daquela terra, gritava: Senhor, filho
 +
de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio.
 +
23. Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Seus discípulos vieram a ele e lhe disseram com insistência: Despede-a, ela nos persegue com seus gritos.
 +
24. Jesus respondeu-lhes: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
 +
25. Mas aquela mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: Senhor, ajuda-me!
 +
26. Jesus respondeu-lhe: Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos. _
 +
27. Certamente, Senhor, replicou-lhe ela; mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...
 +
28. Disse-lhe, então, Jesus: Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas. E na mesma hora sua filha ficou curada.
 +
29. Jesus saiu daquela região e voltou para perto do mar da Galiléia. Subiu a uma colina e sentou-se ali.
 +
30. Então numerosa multidão aproximou-se dele, trazendo consigo mudos, cegos, coxos, aleijados e muitos outros enfermos. Puseram-nos aos seus pés e ele os curou,
 +
31. de sorte que o povo estava admirado ante o espetáculo dos mudos que falavam, daqueles aleijados curados, de coxos que andavam, dos cegos que viam; e glorificavam ao Deus de Israel.
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32. Jesus, porém, reuniu os seus discípulos e disse-lhes: Tenho piedade esta multidão: eis que há três dias está perto de mim e não tem nada para comer. Não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho.
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33. Disseram-lhe os discípulos: De que maneira procuraremos neste lugar deserto pão bastante para saciar tal multidão?
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34. Pergunta-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Sete, e alguns peixinhos, responderam eles.
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35. Mandou, então, a multidão assentar-se no chão,
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36. tomou os sete pães e os peixes e abençoou-os. Depois os partiu e os deu aos discípulos, que os distribuíram à multidão.
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37. Todos comeram e ficaram saciados, e, dos pedaços que restaram, encheram sete cestos.
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38. Ora, os que se alimentaram foram quatro mil homens, sem contar as mulheres e as crianças.
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39. Jesus então despediu o povo, subiu para a barca e retornou à região de Magadã.
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Capítulo 16
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1. Os fariseus e os saduceus achegaram-se a Jesus para submetê-lo à prova e pediram-lhe que lhes mostrasse um milagre do céu.
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2. Ele lhes respondeu: Quando vem a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado.
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3. E de manhã: Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um vermelho sombrio.
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4. Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? Essa raça perversa e adúltera pede um milagre! Mas não lhe será dado outro sinal senão o de Jonas! Depois, deixando-os, partiu.
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5. Ora, passando para a outra margem do lago, os discípulos haviam esquecido de levar pão.
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6. Jesus disse-lhes: Guardai-vos com cuidado do fermento dos fariseus e dos saduceus.
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7. Eles pensavam: É que não trouxemos pão...
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8. Jesus, penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes: Homens de pouca fé! Por que julgais que vos falei por não terdes pão?
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9. Ainda não compreendeis? Nem vos lembrais dos cinco pães e dos cinco mil homens, e de quantos cestos recolhestes?
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10. Nem dos sete pães para os quatro mil homens e de quantos cestos enchestes?
 +
11. Por que não compreendeis que não é do pão que eu vos falava, quando vos disse: Guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus?
 +
12. Então entenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus.
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13. Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?
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14. Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.
 +
15. Disse-lhes Jesus: E vós quem dizeis que eu sou?
 +
16. Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!
 +
17. Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus.
 +
18. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
 +
19. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
 +
20. Depois, ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Cristo.
 +
21. Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia.
 +
22. Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá!
 +
23. Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!
 +
24. Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.
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25. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á.
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26. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?...
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27. Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras.
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28. Em verdade vos declaro: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de seu Reino.
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Capítulo 17
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1. Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.
 +
2. Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.
 +
3. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele.
 +
4. Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias. Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda minha afeição; ouvi-o.
 +
6. Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo.
 +
7. Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: Levantai-vos e não temais.
 +
8. Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus.
 +
9. E, quando desciam, Jesus lhes fez esta proibição: Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.
 +
10. Em seguida, os discípulos o interrogaram: Por que dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro?
 +
11. Jesus respondeu-lhes: Elias, de fato, deve voltar e restabelecer todas as coisas.
 +
12. Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do Homem.
 +
13. Os discípulos compreenderam, então, que ele lhes falava de João Batista.
 +
14. E, quando eles se reuniram ao povo, um homem aproximou-se deles e prostrou-se diante de Jesus,
 +
15. dizendo: Senhor, tem piedade de meu filho, porque é lunático e sofre muito: ora cai no fogo, ora na água...
 +
16. Já o apresentei a teus discípulos, mas eles não o puderam curar.
 +
17. Respondeu Jesus: Raça incrédula e perversa, até quando estarei convosco? Até quando hei de aturar-vos? Trazei-mo.
 +
18. Jesus ameaçou o demônio e este saiu do menino, que ficou curado na mesma hora.
 +
19. Então os discípulos lhe perguntaram em particular: Por que não pudemos nós expulsar este demônio?
 +
20. Jesus respondeu-lhes: Por causa de vossa falta de fé. Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível. Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum.
 +
21. Enquanto caminhava pela Galiléia, Jesus lhes disse: O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos homens.
 +
22. Matá-lo-ão, mas ao terceiro dia ressuscitará. E eles ficaram profundamente aflitos.
 +
23. Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e lhe perguntaram: Teu mestre não paga a didracma?
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24. Paga sim, respondeu Pedro. Mas quando chegaram à casa, Jesus preveniu-o, dizendo: Que te parece, Simão? Os reis da terra, de quem recebem os tributos ou os impostos? De seus filhos ou dos estrangeiros?
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25. Pedro respondeu: Dos estrangeiros. Jesus replicou: Os filhos, então, estão isentos.
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26. Mas não convém escandalizá-los. Vai ao mar, lança o anzol, e ao primeiro peixe que pegares abrirás a boca e encontrarás um estatere. Toma-o e dá-o por mim e por ti.
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Capítulo 18
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1. Neste momento os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: Quem é o maior no Reino dos céus?
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2. Jesus chamou uma criancinha, colocou-a no meio deles e disse:
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3. Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus.
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4. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos céus.
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5. E o que recebe em meu nome a um menino como este, é a mim que recebe.
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6. Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar.
 +
7. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!
 +
8. Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno.
 +
9. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena.
 +
10. Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus.
 +
11. [Porque o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido.]
 +
12. Que vos parece? Um homem possui cem ovelhas: uma delas se desgarra. Não deixa ele as noventa e nove na montanha, para ir buscar aquela que se desgarrou?
 +
13. E se a encontra, sente mais júbilo do que pelas noventa e nove que não se desgarraram.
 +
14. Assim é a vontade de vosso Pai celeste, que não se perca um só destes pequeninos.
 +
15. Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão.
 +
16. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas.
 +
17. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano.
 +
18. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu.
 +
19. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus.
 +
20. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.
 +
21. Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?
 +
22. Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
 +
23. Por isso, o Reino dos céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos.
 +
24. Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.
 +
25. Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens para pagar a dívida.
 +
26. Este servo, então, prostrou-se por terra diante dele e suplicava-lhe: Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!
 +
27. Cheio de compaixão, o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida.
 +
28. Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: Paga o que me deves!
 +
29. O outro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: Dá-me um prazo e eu te pagarei!
 +
30. Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida.
 +
31. Vendo isto, os outros servos, profundamente tristes, vieram contar a seu senhor o que se tinha passado.
 +
32. Então o senhor o chamou e lhe disse: Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste.
 +
33. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti?
 +
34. E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida.
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35. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo seu coração.
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Capítulo 19
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1. Após esses discursos, Jesus deixou a Galiléia e veio para a Judéia, além do Jordão.
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2. Uma grande multidão o seguiu e ele curou seus doentes.
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3. Os fariseus vieram perguntar-lhe para pô-lo à prova: É permitido a um homem rejeitar sua mulher por um motivo qualquer?
 +
4. Respondeu-lhes Jesus: Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse:
 +
5. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?
 +
6. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu.
 +
7. Disseram-lhe eles: Por que, então, Moisés ordenou dar um documento de divórcio à mulher, ao rejeitá-la?
 +
8. Jesus respondeu-lhes: É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim.
 +
9. Ora, eu vos declaro que todo aquele que rejeita sua mulher, exceto no caso de matrimônio falso, e desposa uma outra, comete adultério. E aquele que desposa uma mulher rejeitada, comete também adultério.
 +
10. Seus discípulos disseram-lhe: Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!
 +
11. Respondeu ele: Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem foi dado.
 +
12. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.
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13. Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam.
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14. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham.
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15. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.
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16. Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus:
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17. Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos.
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18. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho,
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19. honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo.
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20. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda?
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21. Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!
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22. Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens.
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23. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus!
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24. Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.
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25. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se?
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26. Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível.
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27. Pedro então, tomando a palavra, disse-lhe: Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós?
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28. Respondeu Jesus: Em verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.
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29. E todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.
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30. Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros.
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Capítulo 20
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1. Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha.
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2. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha.
 +
3. Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada.
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4. Disse-lhes ele: - Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário.
 +
5. Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo.
 +
6. Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: - Por que estais todo o dia sem fazer nada?
 +
7. Eles responderam: - É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: - Ide vós também para minha vinha.
 +
8. Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: - Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros.
 +
9. Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário.
 +
10. Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário.
 +
11. Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo:
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12. - Os últimos só trabalharam uma hora... e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor.
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13. O senhor, porém, observou a um deles: - Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário?
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14. Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti.
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15. Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?
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16. Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. [ Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.]
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17. Subindo para Jerusalém, durante o caminho, Jesus tomou à parte os Doze e disse-lhes:
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18. Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte.
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19. E o entregarão aos pagãos para ser exposto às suas zombarias, açoitado e crucificado; mas ao terceiro dia ressuscitará.
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20. Nisso aproximou-se a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica.
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21. Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda.
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22. Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Sim, disseram-lhe.
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23. De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, ao sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou.
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24. Os dez outros, que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos.
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25. Jesus, porém, os chamou e lhes disse: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade.
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26. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo.
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27. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.
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28. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão.
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29. Ao sair de Jericó, uma grande multidão o seguiu.
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30. Dois cegos, sentados à beira do caminho, ouvindo dizer que Jesus passava, começaram a gritar: Senhor, filho de Davi, tem piedade de nós!
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31. A multidão, porém, os repreendia para que se calassem. Mas eles gritavam ainda mais forte: Senhor, filho de Davi, tem piedade de nós!
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32. Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: Que quereis que eu vos faça?
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33. Senhor, que nossos olhos se abram!
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34. Jesus, cheio de compaixão, tocou-lhes os olhos. Instantaneamente recobraram a vista e puseram-se a segui-lo.
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Capítulo 21
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1. Aproximavam-se de Jerusalém. Quando chegaram a Betfagé, perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos,
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2. dizendo-lhes: Ide à aldeia que está defronte. Encontrareis logo uma jumenta amarrada e com ela seu jumentinho. Desamarrai-os e trazei-mos.
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3. Se alguém vos disser qualquer coisa, respondei-lhe que o Senhor necessita deles e que ele sem demora os devolverá.
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4. Assim, neste acontecimento, cumpria-se o oráculo do profeta:
 +
5. Dizei à filha de Sião: Eis que teu rei vem a ti, cheio de doçura, montado numa jumenta, num jumentinho, filho da que leva o jugo (Zc 9,9).
 +
6. Os discípulos foram e executaram a ordem de Jesus.
 +
7. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, cobriram-nos com seus mantos e fizeram-no montar.
 +
8. Então a multidão estendia os mantos pelo caminho, cortava ramos de árvores e espalhava-os pela estrada.
 +
9. E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!
 +
10. Quando ele entrou em Jerusalém, alvoroçou-se toda a cidade, perguntando: Quem é este?
 +
11. A multidão respondia: É Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia.
 +
12. Jesus entrou no templo e expulsou dali todos aqueles que se entregavam ao comércio. Derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos negociantes de pombas,
 +
13. e disse-lhes: Está escrito: Minha casa é uma casa de oração (Is 56,7), mas vós fizestes dela um covil de ladrões (Jr 7,11)!
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14. Os cegos e os coxos vieram a ele no templo e ele os curou,
 +
15. com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a seus milagres e ouviam os meninos gritar no templo: Hosana ao filho de Davi!
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16. Disseram-lhe eles: Ouves o que dizem eles? Perfeitamente, respondeu-lhes Jesus. Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor (Sl 8,3)?
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17. Depois os deixou e saiu da cidade para hospedar-se em Betânia.
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18. De manhã, voltando à cidade, teve fome.
 +
19. Vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela, mas só achou nela folhas; e disse-lhe: Jamais nasça fruto de ti!
 +
20. E imediatamente a figueira secou. À vista disto, os discípulos ficaram estupefatos e disseram: Como ficou seca num instante a figueira?!
 +
21. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos declaro que, se tiverdes fé e não hesitardes, não só fareis o que foi feito a esta figueira, mas ainda se disserdes a esta montanha: Levanta-te daí e atira-te ao mar, isso se fará...
 +
22. Tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o alcançareis.
 +
23. Dirigiu-se Jesus ao templo. E, enquanto ensinava, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se e perguntaram-lhe: Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade?
 +
24. Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço.
 +
25. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens? Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos: Do céu, ele nos dirá: Por que não crestes nele?
 +
26. E se dissermos: Dos homens, é de temer-se a multidão, porque todo o mundo considera João como profeta.
 +
27. Responderam a Jesus: Não sabemos. Pois eu tampouco vos digo, retorquiu Jesus, com que direito faço estas coisas.
 +
28. Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: - Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha.
 +
29. Respondeu ele: - Não quero. Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi.
 +
30. Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: - Sim, pai! Mas não foi.
 +
31. Qual dos dois fez a vontade do pai? O primeiro, responderam-lhe. E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus!
 +
32. João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele.
 +
33. Ouvi outra parábola: havia um pai de família que plantou uma vinha. Cercou-a com uma sebe, cavou um lagar e edificou uma torre. E, tendo-a arrendado a lavradores, deixou o país.
 +
34. Vindo o tempo da colheita, enviou seus servos aos lavradores para recolher o produto de sua vinha.
 +
35. Mas os lavradores agarraram os servos, feriram um, mataram outro e apedrejaram o terceiro.
 +
36. Enviou outros servos em maior número que os primeiros, e fizeram-lhes o mesmo.
 +
37. Enfim, enviou seu próprio filho, dizendo: Hão de respeitar meu filho.
 +
38. Os lavradores, porém, vendo o filho, disseram uns aos outros: Eis o herdeiro! Matemo-lo e teremos a sua herança!
 +
39. Lançaram-lhe as mãos, conduziram-no para fora da vinha e o assassinaram.
 +
40. Pois bem: quando voltar o senhor da vinha, que fará ele àqueles lavradores?
 +
41. Responderam-lhe: Mandará matar sem piedade aqueles miseráveis e arrendará sua vinha a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo.
 +
42. Jesus acrescentou: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)?
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43. Por isso vos digo: ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele.
 +
44. [Aquele que tropeçar nesta pedra, far-se-á em pedaços; e aquele sobre quem ela cair será esmagado.]
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45. Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava.
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46. E procuravam prendê-lo; mas temeram o povo, que o tinha por um profeta.
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Capítulo 22
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1. Jesus tornou a falar-lhes por meio de parábolas:
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2. O Reino dos céus é comparado a um rei que celebrava as bodas do seu filho.
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3. Enviou seus servos para chamar os convidados, mas eles não quiseram vir.
 +
4. Enviou outros ainda, dizendo-lhes: Dizei aos convidados que já está preparado o meu banquete; meus bois e meus animais cevados estão mortos, tudo está preparado. Vinde às bodas!
 +
5. Mas, sem se importarem com aquele convite, foram-se, um a seu campo e outro para seu negócio.
 +
6. Outros lançaram mãos de seus servos, insultaram-nos e os mataram.
 +
7. O rei soube e indignou-se em extremo. Enviou suas tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade.
 +
8. Disse depois a seus servos: O festim está pronto, mas os convidados não foram dignos.
 +
9. Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quantos achardes.
 +
10. Espalharam-se eles pelos caminhos e reuniram todos quantos acharam, maus e bons, de modo que a sala do banquete ficou repleta de convidados.
 +
11. O rei entrou para vê-los e viu ali um homem que não trazia a veste nupcial.
 +
12. Perguntou-lhe: Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial? O homem não proferiu palavra alguma.
 +
13. Disse então o rei aos servos: Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.
 +
14. Porque muitos são os chamados, e poucos os escolhidos.
 +
15. Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras.
 +
16. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens.
 +
17. Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?
 +
18. Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas?
 +
19. Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário.
 +
20. Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição?
 +
21. De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
 +
22. Esta resposta encheu-os de admiração e, deixando-o, retiraram-se.
 +
23. Naquele mesmo dia, os saduceus, que negavam a ressurreição, interrogaram-no:
 +
24. Mestre, Moisés disse: Se um homem morrer sem filhos, seu irmão case-se com a sua viúva e dê-lhe assim uma posteridade (Dt 25,5).
 +
25. Ora, havia entre nós sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu. Como não tinha filhos, deixou sua mulher ao seu irmão.
 +
26. O mesmo sucedeu ao segundo, depois ao terceiro, até o sétimo.
 +
27. Por sua vez, depois deles todos, morreu também a mulher.
 +
28. Na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, uma vez que todos a tiveram?
 +
29. Respondeu-lhes Jesus: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus.
 +
30. Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu.
 +
31. Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus vos disse:
 +
32. Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Ex 3,6)? Ora, ele não é Deus dos mortos, mas Deus dos vivos.
 +
33. E, ouvindo esta doutrina, as turbas se enchiam de grande admiração.
 +
34. Sabendo os fariseus que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se
 +
35. e um deles, doutor da lei, fez-lhe esta pergunta para pô-lo à prova:
 +
36. Mestre, qual é o maior mandamento da lei?
 +
37. Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito (Dt 6,5).
 +
38. Este é o maior e o primeiro mandamento.
 +
39. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).
 +
40. Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas.
 +
41. Como os fariseus se agrupassem, Jesus interrogou-os:
 +
42. Que pensais vós de Cristo? De quem é filho? Responderam: De Davi!
 +
43. Como então, prosseguiu Jesus, Davi, falando sob inspiração do Espírito, chama-o Senhor, dizendo:
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44. O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos por escabelo dos teus pés (Sl 109,1)?
 +
45. Se, pois, Davi o chama Senhor, como é ele seu filho?
 +
46. Ninguém pôde responder-lhe nada. E, depois daquele dia, ninguém mais ousou interrogá-lo.
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Capítulo 23
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 +
1. Dirigindo-se, então, Jesus à multidão e aos seus discípulos,disse:
 +
2. Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés.
 +
3. Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem.
 +
4. Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo.
 +
5. Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos.
 +
6. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas.
 +
7. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens.
 +
8. Mas vós não vos façais chamar rabi, porque um só é o vosso preceptor, e vós sois todos irmãos.
 +
9. E a ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus.
 +
10. Nem vos façais chamar de mestres, porque só tendes um Mestre, o Cristo.
 +
11. O maior dentre vós será vosso servo.
 +
12. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado.
 +
13. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o Reino dos céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar.
 +
14. [Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor.]
 +
15. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos.
 +
16. Ai de vós, guias cegos! Vós dizeis: Se alguém jura pelo templo, isto não é nada; mas se jura pelo tesouro do templo, é obrigado pelo seu juramento.
 +
17. Insensatos, cegos! Qual é o maior: o ouro ou o templo que santifica o ouro?
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18. E dizeis ainda: Se alguém jura pelo altar, não é nada; mas se jura pela oferta que está sobre ele, é obrigado.
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19. Cegos! Qual é o maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?
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20. Aquele que jura pelo altar, jura ao mesmo tempo por tudo o que está sobre ele.
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21. Aquele que jura pelo templo, jura ao mesmo tempo por aquele que nele habita.
 +
22. E aquele que jura pelo céu, jura ao mesmo tempo pelo trono de Deus, e por aquele que nele está sentado.
 +
23. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante.
 +
24. Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo.
 +
25. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais por fora o copo e o prato e por dentro estais cheios de roubo e de intemperança.
 +
26. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo.
 +
27. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão.
 +
28. Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.
 +
29. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Edificais sepulcros aos profetas, adornais os monumentos dos justos
 +
30. e dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos manchado nossas mãos como eles no sangue dos profetas...
 +
31. Testemunhais assim contra vós mesmos que sois de fato os filhos dos assassinos dos profetas.
 +
32. Acabai, pois, de encher a medida de vossos pais!
 +
33. Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?
 +
34. Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. Persegui-los-eis de cidade em cidade,
 +
35. para que caia sobre vós todos o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar.
 +
36. Em verdade vos digo: todos esses crimes pesam sobre esta raça.
 +
37. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!
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38. Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta.
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39. Porque eu vos digo: já não me vereis de hoje em diante, até que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor.
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Capítulo 24
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1. Ao sair do templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-no apreciar as construções.
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2. Jesus, porém, respondeu-lhes: Vedes todos estes edifícios? Em verdade vos declaro: não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído.
 +
3. Indo ele assentar-se no monte das Oliveiras, achegaram-se os discípulos e, estando a sós com ele, perguntaram-lhe: Quando acontecerá isto? E qual será o sinal de tua volta e do fim do mundo?
 +
4. Respondeu-lhes Jesus: Cuidai que ninguém vos seduza.
 +
5. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo. E seduzirão a muitos.
 +
6. Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerra. Atenção: que isso não vos perturbe, porque é preciso que isso aconteça. Mas ainda não será o fim.
 +
7. Levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome, peste e grandes desgraças em diversos lugares.
 +
8. Tudo isto será apenas o início das dores.
 +
9. Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por minha causa objeto de ódio para todas as nações.
 +
10. Muitos sucumbirão, trair-se-ão mutuamente e mutuamente se odiarão.
 +
11. Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos.
 +
12. E, ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos esfriará.
 +
13. Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo.
 +
14. Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim.
 +
15. Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel (9,27) - o leitor entenda bem -
 +
16. então os habitantes da Judéia fujam para as montanhas.
 +
17. Aquele que está no terraço da casa não desça para tomar o que está em sua casa.
 +
18. E aquele que está no campo não volte para buscar suas vestimentas.
 +
19. Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias!
 +
20. Rogai para que vossa fuga não seja no inverno, nem em dia de sábado;
 +
21. porque então a tribulação será tão grande como nunca foi vista, desde o começo do mundo até o presente, nem jamais será.
 +
22. Se aqueles dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia; mas por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados.
 +
23. Então se alguém vos disser: Eis, aqui está o Cristo! Ou: Ei-lo acolá!, não creiais.
 +
24. Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos.
 +
25. Eis que estais prevenidos.
 +
26. Se, pois, vos disserem: Vinde, ele está no deserto, não saiais. Ou: Lá está ele em casa, não o creiais.
 +
27. Porque, como o relâmpago parte do oriente e ilumina até o ocidente, assim será a volta do Filho do Homem.
 +
28. Onde houver um cadáver, aí se ajuntarão os abutres.
 +
29. Logo após estes dias de tribulação, o sol escurecerá, a lua não terá claridade, cairão do céu as estrelas e as potências dos céus serão abaladas.
 +
30. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade.
 +
31. Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas, e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra.
 +
32. Compreendei isto pela comparação da figueira: quando seus ramos estão tenros e crescem as folhas, pressentis que o verão está próximo.
 +
33. Do mesmo modo, quando virdes tudo isto, sabei que o Filho do Homem está próximo, à porta.
 +
34. Em verdade vos declaro: não passará esta geração antes que tudo isto aconteça.
 +
35. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.
 +
36. Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem mesmo os anjos do céu, mas somente o Pai.
 +
37. Assim como foi nos tempos de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do Homem.
 +
38. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca.
 +
39. E os homens de nada sabiam, até o momento em que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim será também na volta do Filho do Homem.
 +
40. Dois homens estarão no campo: um será tomado, o outro será deixado.
 +
41. Duas mulheres estarão moendo no mesmo moinho: uma será tomada a outra será deixada.
 +
42. Vigiai, pois, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor.
 +
43. Sabei que se o pai de família soubesse em que hora da noite viria o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa.
 +
44. Por isso, estai também vós preparados porque o Filho do Homem virá numa hora em que menos pensardes.
 +
45. Quem é, pois, o servo fiel e prudente que o Senhor constituiu sobre os de sua família, para dar-lhes o alimento no momento oportuno?
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46. Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, na sua volta, encontrar procedendo assim!
 +
47. Em verdade vos digo: ele o estabelecerá sobre todos os seus bens.
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48. Mas, se é um mau servo que imagina consigo:
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49. - Meu senhor tarda a vir, e se põe a bater em seus companheiros e a comer e a beber com os ébrios,
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50. o senhor desse servo virá no dia em que ele não o espera e na hora em que ele não sabe,
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51. e o despedirá e o mandará ao destino dos hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes.
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Capítulo 25
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1. Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens, que saíram com suas lâmpadas ao encontro do esposo.
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2. Cinco dentre elas eram tolas e cinco, prudentes.
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3. Tomando suas lâmpadas, as tolas não levaram óleo consigo.
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4. As prudentes, todavia, levaram de reserva vasos de óleo junto com as lâmpadas.
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5. Tardando o esposo, cochilaram todas e adormeceram.
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6. No meio da noite, porém, ouviu-se um clamor: Eis o esposo, ide-lhe ao encontro.
 +
7. E as virgens levantaram-se todas e prepararam suas lâmpadas.
 +
8. As tolas disseram às prudentes: Dai-nos de vosso óleo, porque nossas lâmpadas se estão apagando.
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9. As prudentes responderam: Não temos o suficiente para nós e para vós; é preferível irdes aos vendedores, a fim de o comprardes para vós.
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10. Ora, enquanto foram comprar, veio o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para a sala das bodas e foi fechada a porta.
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11. Mais tarde, chegaram também as outras e diziam: Senhor, senhor, abre-nos!
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12. Mas ele respondeu: Em verdade vos digo: não vos conheço!
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13. Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora.
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14. Será também como um homem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens.
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15. A um deu cinco talentos; a outro, dois; e a outro, um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu.
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16. Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco.
 +
17. Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois.
 +
18. Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor.
 +
19. Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas.
 +
20. O que recebeu cinco talentos, aproximou-se e apresentou outros cinco: - Senhor, disse-lhe, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei.'
 +
21. Disse-lhe seu senhor: - Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor.
 +
22. O que recebeu dois talentos, adiantou-se também e disse: - Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei.
 +
23. Disse-lhe seu senhor: - Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor.
 +
24. Veio, por fim, o que recebeu só um talento: - Senhor, disse-lhe, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste.
 +
25. Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence.
 +
26. Respondeu-lhe seu senhor: - Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei.
 +
27. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu.
 +
28. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez.
 +
29. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter.
 +
30. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.
 +
31. Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso.
 +
32. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.
 +
33. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
 +
34. Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo,
 +
35. porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes;
 +
36. nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.
 +
37. Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber?
 +
38. Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos?
 +
39. Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?
 +
40. Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.
 +
41. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos.
 +
42. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;
 +
43. era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes.
 +
44. Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?
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45. E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.
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46. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.
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Capítulo 26
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1. Quando Jesus acabou todos esses discursos, disse a seus discípulos:
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2. Sabeis que daqui a dois dias será a Páscoa, e o Filho do Homem será traído para ser crucificado.
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3. Então os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no pátio do sumo sacerdote, chamado Caifás,
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4. e deliberaram sobre os meios de prender Jesus por astúcia e de o matar.
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5. E diziam: Sobretudo, não seja durante a festa. Poderá haver um tumulto entre o povo.
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6. Encontrava-se Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso.
 +
7. Estando à mesa, aproximou-se dele uma mulher com um vaso de alabastro, cheio de perfume muito caro, e derramou-o na sua cabeça.
 +
8. Vendo isto, os discípulos disseram indignados: Para que este desperdício?
 +
9. Poder-se-ia vender este perfume por um bom preço e dar o dinheiro aos pobres.
 +
10. Jesus ouviu-os e disse-lhes: Por que molestais esta mulher? É uma ação boa o que ela me fez.
 +
11. Pobres vós tereis sempre convosco. A mim, porém, nem sempre me tereis.
 +
12. Derramando esse perfume em meu corpo, ela o fez em vista da minha sepultura.
 +
13. Em verdade eu vos digo: em toda parte onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, será contado em sua memória o que ela fez.
 +
14. Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes:
 +
15. Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei. Ajustaram com ele trinta moedas de prata.
 +
16. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus.
 +
17. No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: Onde queres que preparemos a ceia pascal?
 +
18. Respondeu-lhes Jesus: Ide à cidade, à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre manda dizer-te: Meu tempo está próximo. É em tua casa que celebrarei a Páscoa com meus discípulos.
 +
19. Os discípulos fizeram o que Jesus tinha ordenado e prepararam a Páscoa.
 +
20. Ao declinar da tarde, pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos.
 +
21. Durante a ceia, disse: Em verdade vos digo: um de vós me há de trair.
 +
22. Com profunda aflição, cada um começou a perguntar: Sou eu, Senhor?
 +
23. Respondeu ele: Aquele que pôs comigo a mão no prato, esse me trairá.
 +
24. O Filho do Homem vai, como dele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!
 +
25. Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: Mestre, serei eu? Sim, disse Jesus.
 +
26. Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo.
 +
27. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos,
 +
28. porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.
 +
29. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai.
 +
30. Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o monte das Oliveiras.
 +
31. Disse-lhes então Jesus: Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas (Zc 13,7).
 +
32. Mas, depois da minha Ressurreição, eu vos precederei na Galiléia.
 +
33. Pedro interveio: Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.
 +
34. Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo: nesta noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me negarás.
 +
35. Respondeu-lhe Pedro: Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei! E todos os outros discípulos diziam-lhe o mesmo.
 +
36. Retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar.
 +
37. E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se.
 +
38. Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo.
 +
39. Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres.
 +
40. Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: Então não pudestes vigiar uma hora comigo...
 +
41. Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.
 +
42. Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!
 +
43. Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados.
 +
44. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
 +
45. Voltou então para os seus discípulos e disse-lhes: Dormi agora e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores...
 +
46. Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui.
 +
47. Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e cacetes, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
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48. O traidor combinara com eles este sinal: Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o!
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49. Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: Salve, Mestre. E beijou-o.
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50. Disse-lhe Jesus: É, então, para isso que vens aqui? Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mão em Jesus para prendê-lo.
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51. Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha.
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52. Jesus, no entanto, lhe disse: Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão.
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53. Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?
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54. Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é preciso que seja assim?
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55. Depois, voltando-se para a turba, falou: Saístes armados de espadas e
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porretes para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes.
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56. Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. Então os discípulos o abandonaram e fugiram.
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57. Os que haviam prendido Jesus levaram-no à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo.
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58. Pedro seguia-o de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo.
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59. Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de o levarem à morte.
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60. Mas não o conseguiram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas.
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61. Por fim, apresentaram-se duas testemunhas, que disseram: Este homem disse: Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias.
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62. Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti?
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63. Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?
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64. Jesus respondeu: Sim. Além disso, eu vos declaro que vereis doravante o Filho do Homem sentar-se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu.
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65. A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando: Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia!
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66. Qual o vosso parecer? Eles responderam: Merece a morte!
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67. Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos e deram-lhe tapas,
 +
68. dizendo: Adivinha, ó Cristo: quem te bateu?
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69. Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo: Também tu estavas com Jesus, o Galileu.
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70. Mas ele negou publicamente, nestes termos: Não sei o que dizes.
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71. Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam: Este homem também estava com Jesus de Nazaré.
 +
72. Pedro, pela segunda vez, negou com juramento: Eu nem conheço tal homem.
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73. Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram: Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer.
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74. Pedro então começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E, neste momento, cantou o galo.
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75. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes. E saindo, chorou amargamente.
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Capítulo 27
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1. Chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se em conselho para entregar Jesus à morte.
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2. Ligaram-no e o levaram ao governador Pilatos.
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3. Judas, o traidor, vendo-o então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata,
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4. dizendo-lhes: Pequei, entregando o sangue de um justo. Responderam-lhe: Que nos importa? Isto é lá contigo!
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5. Ele jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se.
 +
6. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram: Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de sangue.
 +
7. Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros.
 +
8. Esta é a razão por que aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue.
 +
9. Assim se cumpriu a profecia do profeta Jeremias: Eles receberam trinta moedas de prata, preço daquele cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel;
 +
10. e deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito.
 +
11. Jesus compareceu diante do governador, que o interrogou: És o rei dos judeus? Sim, respondeu-lhe Jesus.
 +
12. Ele, porém, nada respondia às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos.
 +
13. Perguntou-lhe Pilatos: Não ouves todos os testemunhos que levantam contra ti?
 +
14. Mas, para grande admiração do governador, não quis responder a nenhuma acusação.
 +
15. Era costume que o governador soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa.
 +
16. Ora, havia naquela ocasião um prisioneiro famoso, chamado Barrabás.
 +
17. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido: Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo?
 +
18. (Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja.)
 +
19. Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher lhe mandou dizer: Nada faças a esse justo. Fui hoje atormentada por um sonho que lhe diz respeito.
 +
20. Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus.
 +
21. O governador tomou então a palavra: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam: Barrabás!
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22. Pilatos perguntou: Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo? Todos responderam: Seja crucificado!
 +
23. O governador tornou a perguntar: Mas que mal fez ele? E gritavam ainda mais forte: Seja crucificado!
 +
24. Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse: Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco!
 +
25. E todo o povo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!
 +
26. Libertou então Barrabás, mandou açoitar Jesus e lho entregou para ser crucificado.
 +
27. Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-no com todo o pelotão.
 +
28. Arrancaram-lhe as vestes e colocaram-lhe um manto escarlate.
 +
29. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante dele, diziam com escárnio: Salve, rei dos judeus!
 +
30. Cuspiam-lhe no rosto e, tomando da vara, davam-lhe golpes na cabeça.
 +
31. Depois de escarnecerem dele, tiraram-lhe o manto e entregaram-lhe as vestes. Em seguida, levaram-no para o crucificar.
 +
32. Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a cruz de Jesus.
 +
33. Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio.
 +
34. Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber.
 +
35. Depois de o haverem crucificado, dividiram suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte (Sl 21,19).
 +
36. Sentaram-se e montaram guarda.
 +
37. Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: Este é Jesus, o rei dos judeus.
 +
38. Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda.
 +
39. Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam:
 +
40. Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!
 +
41. Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele:
 +
42. Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!
 +
43. Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus!
 +
44. E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam.
 +
45. Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas.
 +
46. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
 +
47. A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias.
 +
48. Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse.
 +
49. Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.
 +
50. Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.
 +
51. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas.
 +
52. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram.
 +
53. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
 +
54. O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!
 +
55. Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir.
 +
56. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
 +
57. À tardinha, um homem rico de Arimatéia, chamado José, que era também discípulo de Jesus,
 +
58. foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o.
 +
59. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco
 +
60. e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora.
 +
61. Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo.
 +
62. No dia seguinte - isto é, o dia seguinte ao da Preparação -, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se todos juntos à casa de Pilatos.
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63. E disseram-lhe: Senhor, nós nos lembramos de que aquele impostor disse, enquanto vivia: Depois de três dias ressuscitarei.
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64. Ordena, pois, que seu sepulcro seja guardado até o terceiro dia. Os seus
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discípulos poderiam vir roubar o corpo e dizer ao povo: Ressuscitou dos mortos. E esta última impostura seria pior que a primeira.
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65. Respondeu Pilatos: Tendes uma guarda. Ide e guardai-o como o entendeis.
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66. Foram, pois, e asseguraram o sepulcro, selando a pedra e colocando guardas.
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Capítulo 28
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1. Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo.
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2. E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela.
 +
3. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve.
 +
4. Vendo isto, os guardas pensaram que morreriam de pavor.
 +
5. Mas o anjo disse às mulheres: Não temais! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado.
 +
6. Não está aqui: ressuscitou como disse. Vinde e vede o lugar em que ele repousou.
 +
7. Ide depressa e dizei aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos. Ele vos precede na Galiléia. Lá o haveis de rever, eu vo-lo disse.
 +
8. Elas se afastaram prontamente do túmulo com certo receio, mas ao mesmo tempo com alegria, e correram a dar a boa nova aos discípulos.
 +
9. Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: Salve! Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés.
 +
10. Disse-lhes Jesus: Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galiléia, pois é lá que eles me verão.
 +
11. Enquanto elas voltavam, alguns homens da guarda já estavam na cidade para anunciar o acontecimento aos príncipes dos sacerdotes.
 +
12. Reuniram-se estes em conselho com os anciãos. Deram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenando-lhes:
 +
13. Vós direis que seus discípulos vieram retirá-lo à noite, enquanto dormíeis.
 +
14. Se o governador vier a sabê-lo, nós o acalmaremos e vos tiraremos de dificuldades.
 +
15. Os soldados receberam o dinheiro e seguiram suas instruções. E esta versão é ainda hoje espalhada entre os judeus.
 +
16. Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado.
 +
17. Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda.
 +
18. Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.
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19. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
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20. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.
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=====Mc. - Evangelho segundo Marcos=====
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Capítulo 1
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1. Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías:
 +
2. Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho.
 +
3. Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Mal 3,1; Is 40,3).
 +
4. João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.
 +
5. E saíam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
 +
6. João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
 +
7. Ele pôs-se a proclamar: "Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.
 +
8. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo."
 +
9. Ora, naqueles dias veio Jesus de Nazaré, da Galiléia, e foi batizado por João no Jordão.
 +
10. No momento em que Jesus saía da água, João viu os céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre ele.
 +
11. E ouviu-se dos céus uma voz: "Tu és o meu Filho muito amado; em ti ponho minha afeição."
 +
12. E logo o Espírito o impeliu para o deserto.
 +
13. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam.
 +
14. Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia:
 +
15. "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho."
 +
16. Passando ao longo do mar da Galiléia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
 +
17. Jesus disse-lhes: "Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens."
 +
18. Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no.
 +
19. Uns poucos passos mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo.
 +
20. Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e o seguiram.
 +
21. Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar.
 +
22. Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.
 +
23. Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo, que gritou:
 +
24. "Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!
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25. Mas Jesus intimou-o, dizendo: "Cala-te, sai deste homem!"
 +
26. O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu.
 +
27. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: "Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!"
 +
28. A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galiléia.
 +
29. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André.
 +
30. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela.
 +
31. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.
 +
32. À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio.
 +
33. Toda a cidade estava reunida diante da porta.
 +
34. Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.
 +
35. De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração.
 +
36. Simão e os seus companheiros saíram a procurá-lo.
 +
37. Encontraram-no e disseram-lhe: "Todos te procuram."
 +
38. E ele respondeu-lhes: "Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois, para isso é que vim."
 +
39. Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios.
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40. Aproximou-se dele um leproso, suplicando-lhe de joelhos: "Se queres, podes limpar-me."
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41. Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: "Eu quero, sê curado."
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42. E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado.
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43. Jesus o despediu imediatamente com esta severa admoestação:
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44. "Vê que não o digas a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta, pela tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés para lhe servir de testemunho."
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45. Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade. Conservava-se fora, nos lugares despovoados; e de toda parte vinham ter com ele.
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Capítulo 2
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1. Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum e souberam que ele estava em casa.
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2. Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E ele os instruía.
 +
3. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens.
 +
4. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico.
 +
5. Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: "Filho, perdoados te são os pecados."
 +
6. Ora, estavam ali sentados alguns escribas, que diziam uns aos outros:
 +
7. "Como pode este homem falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?"
 +
8. Mas Jesus, penetrando logo com seu espírito tios seus íntimos pensamentos, disse-lhes: "Por que pensais isto nos vossos corações?
 +
9. Que é mais fácil dizer ao paralítico: Os pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda?
 +
10. Ora, para que conheçais o poder concedido ao Filho dó homem sobre a terra (disse ao paralítico),
 +
11. eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para casa."
 +
12. No mesmo instante, ele se levantou e, tomando o. leito, foi-se embora à vista de todos. A, multidão inteira encheu-se de profunda admiração e puseram-se a louvar a Deus, dizendo: "Nunca vimos coisa semelhante."
 +
13. Jesus saiu de novo para perto do mar e toda a multidão foi ter com ele, e ele os ensinava.
 +
14. Quando ia passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto da arrecadação e disse-lhe: "Segue-me." E Levi, levantando-se, seguiu-o.
 +
15. Em seguida, pôs-se à mesa na sua casa e muitos cobradores de impostos e pecadores tomaram lugar com ele e seus discípulos; com efeito, eram numerosos os que o seguiam.
 +
16. Os escribas, do partido dos fariseus,. vendo-o comer com as pessoas de má vida e publicamos, diziam aos seus discípulos: "Ele come com os publicamos e com gente de má vida? "
 +
17. Ouvindo-os, Jesus replicou: "Os sãos não precisam de médico, mas os enfermos; não vim chamar os justos, mas os pecadores."
 +
18. Ora, os discípulos de João e os fariseus jejuavam. Por isso, foram-lhe perguntar: "Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam?"
 +
19. Jesus respondeu-lhes: "Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é -possível jejuar.
 +
20. Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.
 +
21. "Ninguém prega retalho de pano novo em roupa velha; do contrário, o remendo arranca novo pedaço da veste usada e torna-se pior o rasgão.
 +
22. E ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho os arrebentará e perder-se-á juntamente com os odres mas para vinho novo, odres novos."
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23. Num dia de sábado, o Senhor caminhava pelos campos e seus discípulos, andando, começaram a colher espigas.
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24. Os fariseus observaram-lhe: "Vede! Por que fazem eles no sábado o que não é permitido?" Jesus respondeu-lhes:
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25. "Nunca lestes o que fez Davi, quando se achou em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros?
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26. Ele entrou na casa de Deus, sendo Abiatar príncipe dos sacerdotes, e comeu os pães da proposição, dos quais só aos sacerdotes era permitido comer, e os deu aos seus companheiros."
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27. E dizia-lhes: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado;
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28. e, para dizer tudo, o Filho do homem é senhor também do sábado."
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Capítulo 3
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1. Noutra vez, entrou ele na sinagoga e achava-se ali um homem que tinha a mão seca.
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2. Ora, estavam-no observando se o curaria no dia de sábado, para o acusarem.
 +
3. Ele diz ao homem da mão seca: "Vem para o meio."
 +
4. Então lhes pergunta: "É permitido fazer o bem ou o mal no sábado? Salvar uma vida ou matar?" Mas eles se calavam.
 +
5. Então, relanceando um olhar indignado sobre eles, e contristado com a dureza de seus corações, diz ao homem: "Estende tua mão!" Ele estendeu-a e a mão foi curada.
 +
6. Saindo os fariseus dali, deliberaram logo com os herodianos como o haviam de perder.
 +
7. Jesus retirou-se com os seus discípulos para o mar, e seguia-o uma grande multidão, vinda da Galiléia.
 +
8. E da Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, do além-Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidônia veio a ele uma grande multidão, ao ouvir o que ele fazia.
 +
9. Ele ordenou a seus discípulos que lhe aprontassem uma barca, para que a multidão não o comprimisse.
 +
10. Curou a muitos, de modo que todos os que padeciam de algum mal se arrojavam a ele para o tocar.
 +
11. Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: Tu és o Filho de Deus!
 +
12. Ele os proibia severamente que o dessem a conhecer.
 +
13. Depois, subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram a ele.
 +
14. Designou doze dentre eles para ficar em sua companhia.
 +
15. Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios.
 +
16. Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro;
 +
17. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão.
 +
18. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador;
 +
19. e Judas Iscariotes, que o entregou.
 +
20. Dirigiram-se em seguida a uma casa. Aí afluiu de novo tanta gente, que nem podiam tomar alimento.
 +
21. Quando os seus o souberam, saíram para o reter; pois diziam: "Ele está fora de si."
 +
22. Também os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam: "Ele está possuído de Beelzebul: é pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios."
 +
23. Mas, havendo-os convocado, dizia-lhes em parábolas: "Como pode Satanás expulsar a Satanás?
 +
24. Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar.
 +
25. E se uma casa está dividida contra si mesma, tal casa não pode permanecer.
 +
26. E se Satanás se levanta contra si mesmo, está dividido e não poderá continuar, mas desaparecerá.
 +
27. Ninguém pode entrar na casa do homem forte e roubar-lhe os bens, se antes não o prender; e então saqueará sua casa.
 +
28. "Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias;
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29. mas todo o que tiver blasfemado contra o Espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno."
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30. Jesus falava assim porque tinham dito: "Ele tem um espírito imundo."
 +
31. Chegaram sua mãe e seus irmãos e, estando do lado de fora, mandaram chamá-lo.
 +
32. Ora, a multidão estava sentada ao redor dele; e disseram-lhe: "Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram."
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33. Ele respondeu-lhes: "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?"
 +
34. E, correndo o olhar sobre a multidão, que estava sentada ao redor dele, disse: "Eis aqui minha mãe e meus irmãos.
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35. Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe."
 +
 
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Capítulo 4
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1. Jesus pôs-se novamente a ensinar, à beira do mar, e aglomerou-se junto dele tão grande multidão, que ele teve de entrar numa barca, no mar, e toda a multidão ficou em terra na praia.
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2. E ensinava-lhes muitas coisas em parábolas. Dizia-lhes na sua doutrina:
 +
3. Ouvi: Saiu o semeador a semear.
 +
4. Enquanto lançava a semente, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram.
 +
5. Outra parte caiu no pedregulho, onde não havia muita terra; o grão germinou logo, porque a terra não era profunda;
 +
6. mas, assim que o sol despontou, queimou-se e, como não tivesse raiz, secou.
 +
7. Outra parte caiu entre os espinhos; estes cresceram, sufocaram-na e o grão não deu fruto.
 +
8. Outra caiu em terra boa e deu fruto, cresceu e desenvolveu-se; um grão rendeu trinta, outro sessenta e outro cem.
 +
9. E dizia: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
 +
10. Quando se acharam a sós, os que o cercavam e os Doze indagaram dele o sentido da parábola.
 +
11. Ele disse-lhes: A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas.
 +
12. Desse modo, eles olham sem ver, escutam sem compreender, sem que se convertam e lhes seja perdoado.
 +
13. E acrescentou: Não entendeis essa parábola? Como entendereis então todas as outras?
 +
14. O semeador semeia a palavra.
 +
15. Alguns se encontram à beira do caminho, onde ela é semeada; apenas a ouvem, vem Satanás tirar a palavra neles semeada.
 +
16. Outros recebem a semente em lugares pedregosos; quando a ouvem, recebem-na com alegria;
 +
17. mas não têm raiz em si, são inconstantes, e assim que se levanta uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, eles tropeçam.
 +
18. Outros ainda recebem a semente entre os espinhos; ouvem a palavra,
 +
19. mas as preocupações mundanas, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e a tornam infrutífera.
 +
20. Aqueles que recebem a semente em terra boa escutam a palavra, acolhem-na e dão fruto, trinta, sessenta e cem por um.
 +
21. Dizia-lhes ainda: Traz-se porventura a candeia para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta no candeeiro?
 +
22. Porque nada há oculto que não deva ser descoberto, nada secreto que não deva ser publicado.
 +
23. Se alguém tem ouvidos para ouvir, que ouça.
 +
24. Ele prosseguiu: Atendei ao que ouvis: com a medida com que medirdes, vos medirão a vós, e ainda se vos acrescentará.
 +
25. Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que tem.
 +
26. Dizia também: O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra.
 +
27. Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.
 +
28. Pois a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga.
 +
29. Quando o fruto amadurece, ele mete-lhe a foice, porque é chegada a colheita.
 +
30. Dizia ele: A quem compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos?
 +
31. É como o grão de mostarda que, quando é semeado, é a menor de todas as sementes.
 +
32. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra.
 +
33. Era por meio de numerosas parábolas desse gênero que ele lhes anunciava a palavra, conforme eram capazes de compreender.
 +
34. E não lhes falava, a não ser em parábolas; a sós, porém, explicava tudo a seus discípulos.
 +
35. À tarde daquele dia, disse-lhes: Passemos para o outro lado.
 +
36. Deixando o povo, levaram-no consigo na barca, assim como ele estava. Outras embarcações o escoltavam.
 +
37. Nisto surgiu uma grande tormenta e lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água.
 +
38. Jesus achava-se na popa, dormindo sobre um travesseiro. Eles acordaram-no e disseram-lhe: Mestre, não te importa que pereçamos?
 +
39. E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança.
 +
40. Ele disse-lhes: Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?
 +
41. Eles ficaram penetrados de grande temor e cochichavam entre si: Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?
 +
 
 +
 +
Capítulo 5
 +
 
 +
1. Passaram à outra margem do lago, ao território dos gerasenos.
 +
2. Assim que saíram da barca, um homem possesso do espírito imundo saiu do cemitério
 +
3. onde tinha seu refúgio e veio-lhe ao encontro. Não podiam atá-lo nem com cadeia, mesmo nos sepulcros,
 +
4. pois tinha sido ligado muitas vezes com grilhões e cadeias, mas os despedaçara e ninguém o podia subjugar.
 +
5. Sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras.
 +
6. Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, gritando em alta voz:
 +
7. Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?Conjuro-te por Deus, que não me atormentes.
 +
8. É que Jesus lhe dizia: Espírito imundo, sai deste homem!
 +
9. Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu-lhe: Legião é o meu nome, porque somos muitos.
 +
10. E pediam-lhe com instância que não os lançasse fora daquela região.
 +
11. Ora, uma grande manada de porcos andava pastando ali junto do monte.
 +
12. E os espíritos suplicavam-lhe: Manda-nos para os porcos, para entrarmos neles.
 +
13. Jesus lhos permitiu. Então os espíritos imundos, tendo saído, entraram nos porcos; e a manada, de uns dois mil, precipitou-se no mar, afogando-se.
 +
14. Fugiram os pastores e narraram o fato na cidade e pelos arredores. Então saíram a ver o que tinha acontecido.
 +
15. Aproximaram-se de Jesus e viram o possesso assentado, coberto com seu manto e calmo, ele que tinha sido possuído pela Legião. E o pânico apoderou-se deles.
 +
16. As testemunhas do fato contaram-lhes como havia acontecido isso ao endemoninhado, e o caso dos porcos.
 +
17. Começaram então a rogar-lhe que se retirasse da sua região.
 +
18. Quando ele subia para a barca, veio o que tinha sido possesso e pediu-lhe permissão de acompanhá-lo.
 +
19. Jesus não o admitiu, mas disse-lhe: Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, e como se compadeceu de ti.
 +
20. Foi-se ele e começou a publicar, na Decápole, tudo o que Jesus lhe havia feito. E todos se admiravam.
 +
21. Tendo Jesus navegado outra vez para a margem oposta, de novo afluiu a ele uma grande multidão. Ele se achava à beira do mar, quando
 +
22. um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, se apresentou e, à sua vista, lançou-se-lhe aos pés,
 +
23. rogando-lhe com insistência: Minha filhinha está nas últimas. Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve e viva.
 +
24. Jesus foi com ele e grande multidão o seguia, comprimindo-o.
 +
25. Ora, havia ali uma mulher que já por doze anos padecia de um fluxo de sangue.
 +
26. Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo o que possuía, sem achar nenhum alívio; pelo contrário, piorava cada vez mais.
 +
27. Tendo ela ouvido falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou-lhe no manto.
 +
28. Dizia ela consigo: Se tocar, ainda que seja na orla do seu manto, estarei curada.
 +
29. Ora, no mesmo instante se lhe estancou a fonte de sangue, e ela teve a sensação de estar curada.
 +
30. Jesus percebeu imediatamente que saíra dele uma força e, voltando-se para o povo, perguntou: Quem tocou minhas vestes?
 +
31. Responderam-lhe os seus discípulos: Vês que a multidão te comprime e perguntas: Quem me tocou?
 +
32. E ele olhava em derredor para ver quem o fizera.
 +
33. Ora, a mulher, atemorizada e trêmula, sabendo o que nela se tinha passado, veio lançar-se-lhe aos pés e contou-lhe toda a verdade.
 +
34. Mas ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal.
 +
35. Enquanto ainda falava, chegou alguém da casa do chefe da sinagoga, anunciando: Tua filha morreu. Para que ainda incomodas o Mestre?
 +
36. Ouvindo Jesus a notícia que era transmitida, dirigiu-se ao chefe da sinagoga: Não temas; crê somente.
 +
37. E não permitiu que ninguém o acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.
 +
38. Ao chegar à casa do chefe da sinagoga, viu o alvoroço e os que estavam chorando e fazendo grandes lamentações.
 +
39. Ele entrou e disse-lhes: Por que todo esse barulho e esses choros? A menina não morreu. Ela está dormindo.
 +
40. Mas riam-se dele. Contudo, tendo mandado sair todos, tomou o pai e a mãe da menina e os que levava consigo, e entrou onde a menina estava deitada.
 +
41. Segurou a mão da menina e disse-lhe: Talita cumi, que quer dizer: Menina, ordeno-te, levanta-te!
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42. E imediatamente a menina se levantou e se pôs a caminhar (pois contava doze anos). Eles ficaram assombrados.
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43. Ordenou-lhes severamente que ninguém o soubesse, e mandou que lhe dessem de comer.Jesus de Nazaré
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Capítulo 6
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1. Depois, ele partiu dali e foi para a sua pátria, seguido de seus discípulos. 2 Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos o ouviam e, tomados de admiração, diziam: Donde lhe vem isso? Que sabedoria é essa que lhe foi dada, e como se operam por suas mãos tão grandes milagres?
 +
3. Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos a seu respeito.
 +
4. Mas Jesus disse-lhes: Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa.
 +
5. Não pôde fazer ali milagre algum. Curou apenas alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.
 +
6. Admirava-se ele da desconfiança deles. E ensinando, percorria as aldeias circunvizinhas.
 +
7. Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois; e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos.
 +
8. Ordenou-lhes que não levassem coisa alguma para o caminho, senão somente um bordão; nem pão, nem mochila, nem dinheiro no cinto;
 +
9. como calçado, unicamente sandálias, e que se não revestissem de duas túnicas.
 +
10. E disse-lhes: Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela, até vos retirardes dali.
 +
11. Se em algum lugar não vos receberem nem vos escutarem, saí dali e sacudi o pó dos vossos pés em testemunho contra ele.
 +
12. Eles partiram e pregaram a penitência.
 +
13. Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam.
 +
14. O rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tornara célebre. Dizia-se: João Batista ressurgiu dos mortos e por isso o poder de fazer milagres opera nele.
 +
15. Uns afirmavam: É Elias! Diziam outros: É um profeta como qualquer outro.
 +
16. Ouvindo isto, Herodes repetia: É João, a quem mandei decapitar. Ele ressuscitou!
 +
17. Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado.
 +
18. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão.
 +
19. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém.
 +
20. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia.
 +
21. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia.
 +
22. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
 +
23. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino.
 +
24. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista.
 +
25. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista.
 +
26. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar.
 +
27. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere,
 +
28. trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe.
 +
29. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro.
 +
30. Os apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-lhe tudo o que haviam feito e ensinado.
 +
31. Ele disse-lhes: Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que iam e vinham e nem tinham tempo para comer.
 +
32. Partiram na barca para um lugar solitário, à parte.
 +
33. Mas viram-nos partir. Por isso, muitos deles perceberam para onde iam, e de todas as cidades acorreram a pé para o lugar aonde se dirigiam, e chegaram primeiro que eles.
 +
34. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.
 +
35. A hora já estava bem avançada quando se achegaram a ele os seus discípulos e disseram: Este lugar é deserto, e já é tarde.
 +
36. Despede-os, para irem aos sítios e aldeias vizinhas a comprar algum alimento.
 +
37. Mas ele respondeu-lhes: Dai-lhes vós mesmos de comer. Replicaram-lhe: Iremos comprar duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?
 +
38. Ele perguntou-lhes: Quantos pães tendes? Ide ver. Depois de se terem informado, disseram: Cinco, e dois peixes.
 +
39. Ordenou-lhes que mandassem todos sentar-se, em grupos, na relva verde.
 +
40. E assentaram-se em grupos de cem e de cinqüenta.
 +
41. Então tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e os deu a seus discípulos, para que lhos distribuíssem, e repartiu entre todos os dois peixes.
 +
42. Todos comeram e ficaram fartos.
 +
43. Recolheram do que sobrou doze cestos cheios de pedaços, e os restos dos peixes.
 +
44. Foram cinco mil os homens que haviam comido daqueles pães.
 +
45. Imediatamente ele obrigou os seus discípulos a subirem para a barca, para que chegassem antes dele à outra margem, em frente de Betsaida, enquanto ele mesmo despedia o povo.
 +
46. E despedido que foi o povo, retirou-se ao monte para orar.
 +
47. À noite, achava-se a barca no meio do lago e ele, a sós, em terra.
 +
48. Vendo-os se fatigarem em remar, sendo-lhes o vento contrário, foi ter com eles pela quarta vigília da noite, andando por cima do mar, e fez como se fosse passar ao lado deles.
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49. À vista de Jesus, caminhando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma e gritaram;
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50. pois todos o viram e se assustaram. Mas ele logo lhes falou: Tranqüilizai-vos, sou eu; não vos assusteis!
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51. E subiu para a barca, junto deles, e o vento cessou. Todos se achavam tomados de um extremo pavor,
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52. pois ainda não tinham compreendido o caso dos pães; os seus corações estavam insensíveis.
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53. Navegaram para o outro lado e chegaram à região de Genesaré, onde aportaram.
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54. Assim que saíram da barca, o povo o reconheceu.
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55. Percorrendo toda aquela região, começaram a levar, em leitos, os que padeciam de algum mal, para o lugar onde ouviam dizer que ele se encontrava.
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56. Onde quer que ele entrasse, fosse nas aldeias ou nos povoados, ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de suas vestes. E todos os que tocavam em Jesus ficavam sãos.
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Capítulo 7
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1. Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham sereunido em torno dele.
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2. E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
 +
3. (Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos;
 +
4. e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal.)
 +
5. Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?
 +
6. Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
 +
7. Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (29,13).
 +
8. Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens.
 +
9. E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição.
 +
10. Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e: Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto.
 +
11. Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Qualquer coisa que de minha parte te pudesse ser útil é corban, isto é, oferta,
 +
12. e já não lhe deixais fazer coisa alguma a favor de seu pai ou de sua mãe,
 +
13. anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes.
 +
14. Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: Ouvi-me todos, e entendei.
 +
15. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
 +
16. [bom entendedor meia palavra basta.]
 +
17. Quando deixou o povo e entrou em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe acerca da parábola.
 +
18. Respondeu-lhes: Sois também vós assim ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro,
 +
19. porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos. E acrescentava:
 +
20. Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
 +
21. Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos,
 +
22. adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez.
 +
23. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem.
 +
24. Em seguida, deixando aquele lugar, foi para a terra de Tiro e de Sidônia. E tendo entrado numa casa, não quis que ninguém o soubesse. Mas não pôde ficar oculto,
 +
25. pois uma mulher, cuja filha possuía um espírito imundo, logo que soube que ele estava ali, entrou e caiu a seus pés.
 +
26. (Essa mulher era pagã, de origem siro-fenícia.) Ora, ela suplicava-lhe que expelisse de sua filha o demônio.
 +
27. Disse-lhe Jesus: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não fica bem tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães.
 +
28. Mas ela respondeu: É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos.
 +
29. Jesus respondeu-lhe: Por causa desta palavra, vai-te, que saiu o demônio de tua filha.
 +
30. Voltou ela para casa e achou a menina deitada na cama. O demônio havia saído.
 +
31. Ele deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi por Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole.
 +
32. Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse a mão.
 +
33. Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva.
 +
34. E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta!, que quer dizer abre-te!
 +
35. No mesmo instante os ouvidos se lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente.
 +
36. Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais lhes proibia, tanto mais o publicavam.
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37. E tanto mais se admiravam, dizendo: Ele fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos!
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Capítulo 8
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1. Naqueles dias, como fosse novamente numerosa a multidão, enão tivessem o que comer, Jesus convocou os discípulos e lhes disse:
 +
2. Tenho compaixão deste povo. Já há três dias perseveram comigo e não têm o que comer.
 +
3. Se os despedir em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho; e alguns deles vieram de longe!
 +
4. Seus discípulos responderam-lhe: Como poderá alguém fartá-los de pão aqui no deserto?
 +
5. Mas ele perguntou-lhes: Quantos pães tendes? Sete, responderam.
 +
6. Mandou então que o povo se assentasse no chão. Tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e entregou-os a seus discípulos, para que os distribuíssem e eles os distribuíram ao povo.
 +
7. Tinham também alguns peixinhos. Ele os abençoou e mandou também distribuí-los.
 +
8. Comeram e ficaram fartos, e dos pedaços que sobraram levantaram sete cestos.
 +
9. Ora, os que comeram eram cerca de quatro mil pessoas. Em seguida, Jesus os despediu.
 +
10. E embarcando depois com seus discípulos, foi para o território de Dalmanuta.
 +
11. Vieram os fariseus e puseram-se a disputar com ele e pediram-lhe um sinal do céu, para pô-lo à prova.
 +
12. Jesus, porém, suspirando no seu coração, disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo: jamais lhe será dado um sinal.
 +
13. Deixou-os e seguiu de barca para a outra margem.
 +
14. Aconteceu que eles haviam esquecido de levar pães consigo. Na barca havia um único pão.
 +
15. Jesus advertiu-os: Abri os olhos e acautelai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes!
 +
16. E eles comentavam entre si que era por não terem pão.
 +
17. Jesus percebeu-o e disse-lhes: Por que discutis por não terdes pão? Ainda não tendes refletido nem compreendido? Tendes, pois, o coração insensível?
 +
18. Tendo olhos, não vedes? E tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais mais?
 +
19. Ao partir eu os cinco pães entre os cinco mil, quantos cestos recolhestes
 +
cheios de pedaços? Responderam-lhe: Doze.
 +
20. E quando eu parti os sete pães entre os quatro mil homens, quantos cestos de pedaços levantastes? Sete, responderam-lhe.
 +
21. Jesus disse-lhes: Como é que ainda não entendeis?...
 +
22. Chegando eles a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e suplicaram-lhe que o tocasse.
 +
23. Jesus tomou o cego pela mão e levou-o para fora da aldeia. Pôs-lhe saliva nos olhos e, impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa?
 +
24. O cego levantou os olhos e respondeu: Vejo os homens como árvores que andam.
 +
25. Em seguida, Jesus lhe impôs as mãos nos olhos e ele começou a ver e ficou curado, de modo que via distintamente de longe.
 +
26. E mandou-o para casa, dizendo-lhe: Não entres nem mesmo na aldeia.
 +
27. Jesus saiu com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe, e pelo caminho perguntou-lhes: Quem dizem os homens que eu sou?
 +
28. Responderam-lhe os discípulos: João Batista; outros, Elias; outros, um dos profetas.
 +
29. Então perguntou-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Pedro: Tu és o Cristo.
 +
30. E ordenou-lhes severamente que a ninguém dissessem nada a respeito dele.
 +
31. E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muito, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse depois de três dias.
 +
32. E falava-lhes abertamente dessas coisas. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo.
 +
33. Mas, voltando-se ele, olhou para os seus discípulos e repreendeu a Pedro: Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens.
 +
34. Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.
 +
35. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á.
 +
36. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?
 +
37. Ou que dará o homem em troca da sua vida?
 +
38. Porque, se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os seus santos anjos.
 +
 
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Capítulo 9
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 +
1. E dizia-lhes: Em verdade vos digo: dos que aqui se acham, alguns há que não experimentarão a morte, enquanto não virem chegar o Reino de Deus com poder.
 +
2. Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E
 +
3. transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas.
 +
4. Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus.
 +
5. Pedro tomou a palavra: Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.
 +
6. Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados.
 +
7. Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o.
 +
8. E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles.
 +
9. Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos.
 +
10. E guardaram esta recomendação consigo, perguntando entre si o que significaria: Ser ressuscitado dentre os mortos.
 +
11. Depois lhe perguntaram: Por que dizem os fariseus e os escribas que primeiro deve voltar Elias?
 +
12. Respondeu-lhes: Elias deve voltar primeiro e restabelecer tudo em ordem. Como então está escrito acerca do Filho do homem que deve padecer muito e ser desprezado?
 +
13. Mas digo-vos que também Elias já voltou e fizeram-lhe sofrer tudo quanto quiseram, como está escrito dele.
 +
14. Depois, aproximando-se dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão, e os escribas a discutir com eles.
 +
15. Todo aquele povo, vendo de surpresa Jesus, acorreu a ele para saudá-lo.
 +
16. Ele lhes perguntou: Que estais discutindo com eles?
 +
17. Respondeu um homem dentre a multidão: Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo.
 +
18. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam.
 +
19. Respondeu-lhes Jesus: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei de aturar? Trazei-mo cá!
 +
20. Eles lho trouxeram. Assim que o menino avistou Jesus, o espírito o agitou fortemente. Caiu por terra e revolvia-se espumando.
 +
21. Jesus perguntou ao pai: Há quanto tempo lhe acontece isto? Desde a infância, respondeu-lhe.
 +
22. E o tem lançado muitas vezes ao fogo e à água, para o matar. Se tu, porém, podes alguma coisa, ajuda-nos, compadece-te de nós!
 +
23. Disse-lhe Jesus: Se podes alguma coisa!... Tudo é possível ao que crê.
 +
24. Imediatamente exclamou o pai do menino: Creio! Vem em socorro à minha falta de fé!
 +
25. Vendo Jesus que o povo afluía, intimou o espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai deste menino e não tornes a entrar nele.
 +
26. E, gritando e maltratando-o extremamente, saiu. O menino ficou como morto, de modo que muitos diziam: Morreu...
 +
27. Jesus, porém, tomando-o pela mão, ergueu-o e ele levantou-se.
 +
28. Depois de entrar em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe em particular: Por que não pudemos nós expeli-lo?
 +
29. Ele disse-lhes: Esta espécie de demônios não se pode expulsar senão pela oração.
 +
30. Tendo partido dali, atravessaram a Galiléia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse.
 +
31. E ensinava os seus discípulos: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão; e ressuscitará três dias depois de sua morte.
 +
32. Mas não entendiam estas palavras; e tinham medo de lho perguntar.
 +
33. Em seguida, voltaram para Cafarnaum. Quando já estava em casa, Jesus perguntou-lhes: De que faláveis pelo caminho?
 +
34. Mas eles calaram-se, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior.
 +
35. Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.
 +
36. E tomando um menino, colocou-o no meio deles; abraçou-o e disse-lhes:
 +
37. Todo o que recebe um destes meninos em meu nome, a mim é que recebe; e todo o que recebe a mim, não me recebe, mas aquele que me enviou.
 +
38. João disse-lhe: Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em teu nome, e lho proibimos.
 +
39. Jesus, porém, disse-lhe: Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em meu nome e em seguida possa falar mal de mim.
 +
40. Pois quem não é contra nós, é a nosso favor.
 +
41. E quem vos der de beber um copo de água porque sois de Cristo, digo-vos em verdade: não perderá a sua recompensa.
 +
42. Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!
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43. Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível
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44. [onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga].
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45. Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na vida eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível
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46. [onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga].
 +
47. Se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos no Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo,
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48. onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga.
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49. Porque todo homem será salgado pelo fogo.
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50. O sal é uma boa coisa; mas se ele se tornar insípido, com que lhe restituireis o sabor? Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros.
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Capítulo 10
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1. Saindo dali, ele foi para a região da Judéia, além do Jordão. As multidões voltaram a segui-lo pelo caminho e de novo ele pôs-se a ensiná-las, como era seu costume.
 +
2. Chegaram os fariseus e perguntaram-lhe, para o pôr à prova, se era permitido ao homem repudiar sua mulher.
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3. Ele respondeu-lhes: "Que vos ordenou Moisés?"
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4. Eles responderam: "Moisés permitiu escrever carta de divórcio e despedir a mulher."
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5. Continuou Jesus: "Foi devido à dureza do vosso coração que ele vos deu essa lei;
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6. mas, no princípio da criação, Deus os fez homem e mulher.
 +
7. Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher;
 +
8. e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne.
 +
9. Não separe, pois, o homem o que Deus uniu."
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10. Em casa, os discípulos fizeram-lhe perguntas sobre o mesmo assunto.
 +
11. E ele disse-lhes: "Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira.
 +
12. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério."
 +
13. Apresentaram-lhe então crianças para que as tocasse; mas os discípulos repreendiam os que as apresentavam.
 +
14. Vendo-o, Jesus indignou-se e disse-lhes: "Deixai vir a mim os pequequinos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham.
 +
15. Em verdade vos digo: todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará."
 +
16. Em seguida, ele as abraçou e as abençoou, impondo-lhes as mãos.
 +
17. Tendo ele saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: "Bom Mestre, que farei para alcançara vida eterna?"
 +
18. Jesus disse-lhe: "Por que me chamas bom? Só Deus é bom.
 +
19. Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe."
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20. Ele respondeu-lhe: "Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade."
 +
21. Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: "Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.
 +
22. Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens.
 +
23. E, olhando Jesus em derredor, disse a seus discípulos: "Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os ricos!"
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24. Os discípulos ficaram assombrados com suas palavras. Mas Jesus replicou: "Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas!
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25. É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus."
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26. Eles ainda mais se admiravam, dizendo a si próprios: "Quem pode então salvar-se?"
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27. Olhando Jesus para eles, disse: "Aos homens isto é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível.
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28. Pedro começou a dizer-lhe: "Eis que deixamos tudo e te seguimos."
 +
29. Respondeu-lhe Jesus. "Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho
 +
30. que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna.
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31. Muitos dos primeiros serão os últimos, e dos últimos serão os primeiros."
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32. Estavam a caminho de Jerusalém e Jesus ia adiante deles. Estavam perturbados e o seguiam com medo. E tomando novamente a si os Doze, começou a predizer-lhes as coisas que lhe haviam de acontecer:
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33. "Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas; condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios.
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34. Escarnecerão dele, cuspirão nele, açoitá-lo-ão, e hão de matá-lo; mas ao terceiro dia ele ressurgirá.
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35. Aproximaram-se de; Jesus Tiago e João, filhos de Zebedeu, e disseram-lhe: "Mestre, queremos que nos concedas tudo o que te pedirmos."
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36. "Que quereis que vos faça?"
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37. "Concede-nos que nos sentemos na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda."
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38. "Não sabeis o que pedis, retorquiu Jesus. Podeis vós beber o cálice que eu vou beber, ou ser batizados no batismo em que eu vou ser batizado?"
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39. "Podemos", asseguraram eles. Jesus prosseguiu: "Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados no batismo em que eu devo ser batizado.
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40. Mas, quanto ao assentardes à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim: o lugar compete àqueles a quem está destinado."
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41. Ouvindo isto, os outros dez começaram a indignar-se contra Tiago e João.
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42. Jesus chamou-os e deu-lhes esta lição: "Sabeis que os que são considerados chefes das nações dominam sobre elas e os seus intendentes exercem poder sobre elas.
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43. Entre vós, porém, não será assim: todo o que quiser tornar-se grande entre vós, seja o vosso servo;
 +
44. e todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos.
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45. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos."
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46. Chegaram a Jericó. Ao sair dali Jesus, seus discípulos e numerosa multidão, estava sentado à beira do caminho, mendigando, Bartimeu, que era cego, filho de Timeu.
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47. Sabendo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: "Jesus, filho de Davi, em compaixão de mim!"
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48. Muitos o repreendiam, para que se calasse, mas ele gritava ainda mais alto: "Filho de Davi, tem compaixão de mim!"
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49. Jesus parou e disse: "Chamai-o" Chamaram o cego, dizendo-lhe: "Coragem! Levanta-te, ele te chama."
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50. Lançando fora a capa, o cego ergueu-se dum salto e foi ter com ele.
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51. Jesus, tomando a palavra, perguntou-lhe: "Que queres que te faça? Rabôni, respondeu-lhe o cego, que eu veja!
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52. Jesus disse-lhe: Vai, a tua fé te salvou." No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho.
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Capítulo 11
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1. Jesus e seus discípulos aproximavam-se de Jerusalém e chegaram aos arredores de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras. Desse lugar Jesus enviou dois dos seus discípulos,
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2. dizendo-lhes: "Ide à aldeia que está defronte de vós e, logo ao entrardes nela, achareis preso um jumentinho, em que não montou ainda homem algum; desprendei-o e trazei-mo.
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3. E se alguém vos perguntar: Que fazeis?, dizei: O Senhor precisa dele, mas daqui a pouco o devolverá."
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4. Indo eles, acharam o jumentinho atado fora, diante duma porta, na curva do caminho. Iam-no desprendendo,
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5. quando alguns dos que ali estavam perguntaram: "Ei, que estais fazendo? Por que soltais o jumentinho?"
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6. Responderam como Jesus lhes havia ordenado; e deixaram-no levar.
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7. Conduziram a Jesus o jumentinho, cobriram-no com seus mantos, e Jesus montou nele.
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8. Muitos estendiam seus mantos no caminho; outros cortavam ramos das árvores e espalhavam-nos, pelo chão.
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9. Tanto os que precediam como os que iam atrás clamavam: "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!
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10. O Bendito o Rei?.que vai começar, o reino de Davi, nosso pai! Hosana no mais alto dos céus!"
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11. Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Aí lançou-os olhos para tudo o que o cercava. Depois, como já fosse tarde, voltou para Betânia com os Doze.
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12. No outro dia, ao saírem de Betãnia, Jesus teve fome.
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l3 Avistou de longe uma figueira coberta de folhas e foi ver se encontrava nela algum fruto. Aproximou-se da árvore, mas só encontrou folhas pois não era tempo de figos.
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14. E disse à figueira: "Jamais alguém coma fruto de ti!" E os discípulos ouviram esta maldição.
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15. Chegaram a Jerusalém e Jesus entrou no templo. E começou a expulsar os que no templo vendiam e compravam; derrubou as mesas dos trocadores de moedas e as cadeiras dos que vendiam pombas.
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16. Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo templo.
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17. E ensinava-lhes nestes termos: "`Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações (Is 56,7)? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões (Jr 7,11).
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18. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas ouviram-no e procuravam um modo de o matar. Temiam-no, porque todo o povo se admirava da sua doutrina.
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19. Quando já era tarde, saíram da cidade.
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20. No dia seguinte pela manhã, ao passarem junto da figueira, viram que ela secara até a raiz.
 +
21. Pedro lembrou-se do que se tinha passado na véspera e disse a Jesus: "`Olha, Mestre, como secou a figueira que amaldiçoaste!"
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22. Respondeu-lhes Jesus: "Tende fé em Deus.
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23. Em verdade vos declaro: todo o que disser a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, se não duvidar no seu coração, mas acreditar que sucederá tudo o que disser, obterá esse milagre.
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24. Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado.
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25. E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os vossos pecados. [
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26. Mas se não perdoardes, tampouco vosso Pai que está nos céus vos perdoará os vossos pecados.]"
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27. Jesus e seus discípulos voltaram outra vez a Jerusalém. E andando Jesus pelo templo, acercaram-se dele os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos,
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28. e perguntaram-lhe: "Com que direito fazes isto? Quem te deu autoridade para fazer essas coisas?"
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29. Jesus respondeu-lhes: "Também eu vos farei uma pergunta; respondei-ma, e dir-vos-ei com que direito faço essas coisas.
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30. O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me."
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31. E discorriam lá consigo: "Se dissermos: Do céu, ele dirá: Por que razão, pois, não crestes nele?
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32. Se, ao contrário, dissermos: Dos homens, tememos o povo." Com efeito, tinham medo do povo, porque todos julgavam ser João deveras um profeta.
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33. Responderam a Jesus: "Não o sabemos." "E eu tampouco vos direi, disse Jesus, com que direito faço estas coisas."
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Capítulo 12
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1. E começou a falar-lhes em parábolas. Um homem plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, edificou uma torre, arrendou-a a vinhateiros e ausentou-se daquela terra.
 +
2. A seu tempo enviou aos vinhateiros um servo, para receber deles uma parte do produto da vinha.
 +
3. Ora, eles prenderam-no, feriram-no e reenviaram-no de mãos vazias.
 +
4. Enviou-lhes de novo outro servo; também este feriram na cabeça e o cobriram de afrontas.
 +
5. O senhor enviou-lhes ainda um terceiro, mas o mataram. E enviou outros mais, dos quais feriram uns e mataram outros.
 +
6. Restava-lhe ainda seu filho único, a quem muito amava. Enviou-o também por último a ir ter com eles, dizendo: Terão respeito a meu filho!...
 +
7. Os vinhateiros, porém, disseram uns aos outros: Este é o herdeiro! Vinde, matemo-lo e será nossa a herança!
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8. Agarrando-o, mataram-no e lançaram-no fora da vinha.
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9. Que fará, pois, o senhor da vinha? Virá e exterminará os vinhateiros e dará a vinha a outro.
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10. Nunca lestes estas palavras da Escritura: A pedra que os construtores
 +
rejeitaram veio a tornar-se pedra angular.
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11. Isto é obra do Senhor, e ela é admirável aos nossos olhos (Sal 117,22s)?
 +
12. Procuravam prendê-lo, mas temiam o povo; porque tinham entendido que a respeito deles dissera esta parábola. E deixando-o, retiraram-se.
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13. Enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra.
 +
14. Aproximaram-se dele e disseram-lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo?
 +
15. Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário.
 +
16. Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe.
 +
17. Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele.
 +
18. Ora, vieram ter com ele os saduceus, que afirmam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe:
 +
19. Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despo-se a viúva e suscite posteridade a seu irmão.
 +
20. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência.
 +
21. Então o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro.
 +
22. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher.
 +
23. Na ressurreição, a quem destes pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher.
 +
24. Jesus respondeu-lhes: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus.
 +
25. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus.
 +
26. Mas quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Êx 3, 6)?
 +
27. Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados.
 +
28. Achegou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, vendo que lhes respondera bem, indagou dele: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
 +
29. Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor;
 +
30. amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças.
 +
31. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes não existe.
 +
32. Disse-lhe o escriba: Perfeitamente, Mestre, disseste bem que Deus é um só e que não há outro além dele.
 +
33. E amá-lo de todo o coração, de todo o pensamento, de toda a alma e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios.
 +
34. Vendo Jesus que ele falara sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do Reino de Deus. E já ninguém ousava fazer-lhe perguntas.
 +
35. Continuava Jesus a ensinar no templo e propôs esta questão: Como dizem os escribas que Cristo é o filho de Davi?
 +
36. Pois o mesmo Davi diz, inspirado pelo Espírito Santo: Disse o Senhor a meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos sob os teus pés (Sal 109,1).
 +
37. Ora, se o próprio Davi o chama Senhor, como então é ele seu filho? E a grande multidão ouvia-o com satisfação.
 +
38. Ele lhes dizia em sua doutrina: Guardai-vos dos escribas que gostam
 +
de andar com roupas compridas, de ser cumprimentados nas praças públicas
 +
39. e de sentar-se nas primeiras cadeiras nas sinagogas e nos primeiros lugares nos banquetes.
 +
40. Eles devoram os bens das viúvas e dão aparência de longas orações. Estes terão um juízo mais rigoroso.
 +
41. Jesus sentou-se defronte do cofre de esmola e observava como o povo deitava dinheiro nele; muitos ricos depositavam grandes quantias.
 +
42. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de
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apenas um quadrante.
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43. E ele chamou os seus discípulos e disse-lhes: Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou mais do que todos os que lançaram no cofre,
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44. porque todos deitaram do que tinham em abundância; esta, porém, pôs, da sua indigência, tudo o que tinha para o seu sustento.
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Capítulo 13
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1. Saindo Jesus do templo, disse-lhe um dos seus discípulos:Mestre, olha que pedras e que construções!
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2. Jesus replicou-lhe: Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.
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3. E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do templo, perguntaram-lhe à parte Pedro, Tiago, João e André:
 +
4. Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso se vai realizar?
 +
5. Jesus pôs-se então a dizer-lhes: Cuidai que ninguém vos engane.
 +
6. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu. E seduzirão a muitos.
 +
7. Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerra, não temais; porque é necessário que estas coisas aconteçam, mas não será ainda o fim.
 +
8. Levantar-se-ão nação contra nação e reino contra reino; e haverá terremotos em diversos lugares, e fome. Isto será o princípio das dores.
 +
9. Cuidai de vós mesmos; sereis arrastados diante dos tribunais e açoitados nas sinagogas, e comparecereis diante dos governadores e reis por minha causa, para dar testemunho de mim diante deles.
 +
10. Mas primeiro é necessário que o Evangelho seja pregado a todas as nações.
 +
11. Quando vos levarem para vos entregar, não premediteis no que haveis de dizer, mas dizei o que vos for inspirado naquela hora; porque não sois vós que falais, mas sim o Espírito Santo.
 +
12. O irmão entregará à morte o irmão, e o pai, o filho; e os filhos insurgir-se-ão contra os pais e dar-lhes-ão a morte.
 +
13. E sereis odiados de todos por causa de meu nome. Mas o que perseverar até o fim será salvo.
 +
14. Quando virdes a abominação da desolação no lugar onde não deve estar o leitor entenda , então os que estiverem na Judéia fujam para os montes;
 +
15. o que estiver sobre o terraço não desça nem entre em casa para dela levar alguma coisa;
 +
16. e o que se achar no campo não volte a buscar o seu manto.
 +
17. Ai das mulheres que naqueles dias estiverem grávidas e amamentando!
 +
18. Rogai para que isto não aconteça no inverno!
 +
19. Porque naqueles dias haverá tribulações tais, como não as houve desde o princípio do mundo que Deus criou até agora, nem haverá jamais.
 +
20. Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria; mas ele os abreviou em atenção aos eleitos que escolheu.
 +
21. E se então alguém vos disser: Eis, aqui está o Cristo; ou: Ei-lo acolá, não creiais.
 +
22. Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão sinais e portentos para seduzir, se possível for, até os escolhidos.
 +
23. Ficai de sobreaviso. Eis que vos preveni de tudo.
 +
24. Naqueles dias, depois dessa tribulação, o sol se escurecerá, a lua não dará o seu resplendor;
 +
25. cairão os astros do céu e as forças que estão no céu serão abaladas.
 +
26. Então verão o Filho do homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória.
 +
27. Ele enviará os anjos, e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até a extremidade do céu.
 +
28. Compreendei por uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos vão ficando tenros e brotam as folhas, sabeis que está perto o verão.
 +
29. Assim também quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está próximo, às portas.
 +
30. Em verdade vos digo: não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
 +
31. Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.
 +
32. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.
 +
33. Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo.
 +
34. Será como um homem que, partindo em viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie.
 +
35. Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã,
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36. para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo.
 +
37. O que vos digo, digo a todos: vigiai!
 +
 
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Capítulo 14
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1. Ora, dali a dois dias seria a festa da Páscoa e dos (pães) Ázimos; e os sumos sacerdotes e os escribas buscavam algum meio de prender Jesus à traição para matá-lo.
 +
2. Mas não durante a festa, diziam eles, para não haver talvez algum tumulto entre o povo.
 +
3. Jesus se achava em Betânia, em casa de Simão, o leproso. Quando ele se pôs à mesa, entrou uma mulher trazendo um vaso de alabastro cheio de um perfume de nardo puro, de grande preço, e, quebrando o vaso, derramou-lho sobre a cabeça.
 +
4. Alguns, porém, ficaram indignados e disseram entre si: Por que este desperdício de bálsamo?
 +
5. Poder-se-ia tê-lo vendido por mais de trezentos denários, e os dar aos pobres. E irritavam-se contra ela.
 +
6. Mas Jesus disse-lhes: Deixai-a. Por que a molestais? Ela me fez uma boa obra.
 +
7. Vós sempre tendes convosco os pobres e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; mas a mim não me tendes sempre.
 +
8. Ela fez o que pode: embalsamou-me antecipadamente o corpo para a sepultura.
 +
9. Em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez.
 +
10. Judas Iscariotes, um dos Doze, foi avistar-se com os sumos sacerdotes para lhes entregar Jesus.
 +
11. A esta notícia, eles alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele buscava ocasião oportuna para o entregar.
 +
12. No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava a Páscoa, perguntaram-lhe os discípulos: Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?
 +
13. Ele enviou dois dos seus discípulos, dizendo: Ide à cidade, e sair-vos-á ao encontro um homem, carregando um cântaro de água.
 +
14. Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: O Mestre pergunta: Onde está a sala em que devo comer a Páscoa com os meus discípulos?
 +
15. E ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, mobiliada e pronta. Fazei ali os preparativos.
 +
16. Partiram os discípulos para a cidade e acharam tudo como Jesus lhes havia dito, e prepararam a Páscoa.
 +
17. Chegando a tarde, dirigiu-se ele para lá com os Doze.
 +
18. E enquanto estavam sentados à mesa e comiam, Jesus disse: Em verdade vos digo: um de vós que come comigo me há de entregar.
 +
19. Começaram a entristecer-se e a perguntar-lhe, um após outro: Porventura sou eu?
 +
20. Respondeu-lhes ele: É um dos Doze, que se serve comigo do mesmo prato.
 +
21. O Filho do homem vai, segundo o que dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem for traído! Melhor lhe seria que nunca tivesse nascido...
 +
22. Durante a refeição, Jesus tomou o pão e, depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo.
 +
23. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e apresentou-lho, e todos dele beberam.
 +
24. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos.
 +
25. Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus.
 +
26. Terminado o canto dos Salmos, saíram para o monte das Oliveiras.
 +
27. E Jesus disse-lhes: Vós todos vos escandalizareis, pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas (Zac 13,7).
 +
28. Mas depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galiléia.
 +
29. Entretanto, Pedro lhe respondeu: Ainda que todos se escandalizem de
 +
ti, eu, porém, nunca!
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30. Jesus disse-lhe: Em verdade te digo: hoje, nesta mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me terás negado.
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31. Mas Pedro repetia com maior ardor: Ainda que seja preciso morrer contigo, não te renegarei.E todos disseram o mesmo.
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32. Foram em seguida para o lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto vou orar.
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33. Levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a ter pavor e a angustiar-se.
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34. Disse-lhes: A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai.
 +
35. Adiantando-se alguns passos, prostrou-se com a face por terra e orava que, se fosse possível, passasse dele aquela hora.
 +
36. Aba! (Pai!), suplicava ele. Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres.
 +
37. Em seguida, foi ter com seus discípulos e achou-os dormindo. Disse a Pedro: Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora!
 +
38. Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.
 +
39. Afastou-se outra vez e orou, dizendo as mesmas palavras.
 +
40. Voltando, achou-os de novo dormindo, porque seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe responder.
 +
41. Voltando pela terceira vez, disse-lhes: Dormi e descansai. Basta! Veio a hora! O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores.
 +
42. Levantai-vos e vamos! Aproxima-se o que me há de entregar.
 +
43. Ainda falava, quando chegou Judas Iscariotes, um dos Doze, e com ele um bando armado de espadas e cacetes, enviado pelos sumos sacerdotes, escribas e anciãos.
 +
44. Ora, o traidor tinha-lhes dado o seguinte sinal: Aquele a quem eu beijar é ele. Prendei-o e levai-o com cuidado.
 +
45. Assim que ele se aproximou de Jesus, disse: Rabi!, e o beijou.
 +
46. Lançaram-lhe as mãos e o prenderam.
 +
47. Um dos circunstantes tirou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e decepou-lhe a orelha.
 +
48. Mas Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Como a um bandido, saístes com espadas e cacetes para prender-me!
 +
49. Entretanto, todos os dias estava convosco, ensinando no templo, e não me prendestes. Mas isso acontece para que se cumpram as Escrituras.
 +
50. Então todos o abandonaram e fugiram.
 +
51. Seguia-o um jovem coberto somente de um pano de linho; e prenderam-no.
 +
52. Mas, lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes despido.
 +
53. Conduziram Jesus à casa do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os sacerdotes, escribas e anciãos.
 +
54. Pedro o foi seguindo de longe até dentro do pátio. Sentou-se junto do fogo com os servos e aquecia-se.
 +
55. Os sumos sacerdotes e todo o conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para o condenar à morte, mas não o achavam.
 +
56. Muitos diziam falsos testemunhos contra ele, mas seus depoimentos não concordavam.
 +
57. Levantaram-se, então, alguns e deram esse falso testemunho contra ele:
 +
58. Ouvimo-lo dizer: Eu destruirei este templo, feito por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, que não será feito por mãos de homens.
 +
59. Mas nem neste ponto eram coerentes os seus testemunhos.
 +
60. O sumo sacerdote levantou-se no meio da assembléia e perguntou a Jesus: Não respondes nada? O que é isto que dizem contra ti?
 +
61. Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?
 +
62. Jesus respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu.
 +
63. O sumo sacerdote rasgou então as suas vestes. Para que desejamos ainda testemunhas?!, exclamou ele.
 +
64. Ouvistes a blasfêmia! Que vos parece? E unanimemente o julgaram merecedor da morte.
 +
65. Alguns começaram a cuspir nele, a tapar-lhe o rosto, a dar-lhe socos e a dizer-lhe: Adivinha! Os servos igualmente davam-lhe bofetadas.
 +
66. Estando Pedro embaixo, no pátio, veio uma das criadas do sumo sacerdote.
 +
67. Ela fixou os olhos em Pedro, que se aquecia, e disse: Também tu estavas com Jesus de Nazaré.
 +
68. Ele negou: Não sei, nem compreendo o que dizes. E saiu para a entrada do pátio; e o galo cantou.
 +
69. A criada, que o vira, começou a dizer aos circunstantes: Este faz parte do grupo deles.
 +
70. Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que ali estavam diziam de novo a Pedro: Certamente tu és daqueles, pois és galileu.
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71. Então ele começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais.
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72. E imediatamente cantou o galo pela segunda vez. Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: Antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás. E, lembrando-se disso, rompeu em soluços.
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Capítulo 15
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1. Logo pela manhã se reuniram os sumos sacerdotes com os anciãos, os escribas e com todo o conselho. E tendo amarrado Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos.
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2. Este lhe perguntou: És tu o rei dos judeus? Ele lhe respondeu: Sim.
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3. Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas.
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4. Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam!
 +
5. Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado.
 +
6. Ora, costumava ele soltar-lhes em cada festa qualquer dos presos que pedissem.
 +
7. Havia na prisão um, chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio.
 +
8. O povo que tinha subido começou a pedir-lhe aquilo que sempre lhes costumava conceder.
 +
9. Pilatos respondeu-lhes: Quereis que vos solte o rei dos judeus?
 +
10. (Porque sabia que os sumos sacerdotes o haviam entregue por inveja.)
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11. Mas os pontífices instigaram o povo para que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás.
 +
12. Pilatos falou-lhes outra vez: E que quereis que eu faça daquele a quem chamais o rei dos judeus?
 +
13. Eles tornaram a gritar: Crucifica-o!
 +
14. Pilatos replicou: Mas que mal fez ele? Eles clamavam mais ainda: Crucifica-o!
 +
15. Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado.
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16. Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte.
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17. Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça.
 +
18. E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus!
 +
19. Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo.
 +
20. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar.
 +
21. Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz.
 +
22. Conduziram Jesus ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do crânio.
 +
23. Deram-lhe de beber vinho misturado com mirra, mas ele não o aceitou.
 +
24. Depois de o terem crucificado, repartiram as suas vestes, tirando a sorte sobre elas, para ver o que tocaria a cada um.
 +
25. Era a hora terceira quando o crucificaram.
 +
26. A inscrição que motivava a sua condenação dizia: O rei dos judeus.
 +
27. Crucificaram com ele dois bandidos: um à sua direita e outro à esquerda.
 +
28. [Cumpriu-se assim a passagem da Escritura que diz: Ele foi contado entre os malfeitores (Is 53,12).]
 +
29. Os que iam passando injuriavam-no e abanavam a cabeça, dizendo: Olá! Tu que destróis o templo e o reedificas em três dias,
 +
30. salva-te a ti mesmo! Desce da cruz!
 +
31. Desta maneira, escarneciam dele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar!
 +
32. Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos! Também os que haviam sido crucificados com ele o insultavam.
 +
33. Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas por toda a terra.
 +
34. E à hora nona Jesus bradou em alta voz: Elói, Elói, lammá sabactáni?, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
 +
35. Ouvindo isto, alguns dos circunstantes diziam: Ele chama por Elias!
 +
36. Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma vara, deu-lho para beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo.
 +
37. Jesus deu um grande brado e expirou.
 +
38. O véu do templo rasgou-se então de alto a baixo em duas partes.
 +
39. O centurião que estava diante de Jesus, ao ver que ele tinha expirado assim, disse: Este homem era realmente o Filho de Deus.
 +
40. Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé,
 +
41. que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galiléia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém.
 +
42. Quando já era tarde - era a Preparação, isto é‚ é a véspera do sábado -,
 +
43. veio José de Arimatéia, ilustre membro do conselho, que também esperava o Reino de Deus; ele foi resoluto à presença de Pilatos e pediu o corpo de Jesus.
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44. Pilatos admirou-se de que ele tivesse morrido tão depressa. E, chamando o centurião, perguntou se já havia muito tempo que Jesus tinha morrido.
 +
45. Obtida a resposta afirmativa do centurião, mandou dar-lhe o corpo.
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46. Depois de ter comprado um pano de linho, José tirou-o da cruz, envolveu-o no pano e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, rolando uma pedra para fechar a entrada.
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47. Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam.
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Capítulo 16
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1. Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus.
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2. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o sol havia despontado.
 +
3. E diziam entre si: Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?
 +
4. Levantando os olhos, elas viram removida a pedra, que era muito grande.
 +
5. Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se.
 +
6. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram.
 +
7. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis como vos disse.
 +
8. Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo.
 +
9. Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios.
 +
10. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos.
 +
11. Quando souberam que Jesus vivia e que ela o tinha visto, não quiseram acreditar.
 +
12. Mais tarde, ele apareceu sob outra forma a dois entre eles que iam para o campo.
 +
13. Eles foram anunciá-lo aos demais. Mas estes tampouco acreditaram.
 +
14. Por fim apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem nos que o tinham visto ressuscitado.
 +
15. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.
 +
16. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.
 +
17. Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas,
 +
18. manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados.
 +
19. Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus.
 +
20. Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.
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=====Lc. - Evangelho segundo Lucas=====
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Capítulo 1
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1. Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós,
 +
2. como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da palavra.
 +
3. Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo,
 +
4. para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido.
 +
5. Nos tempos de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias; sua mulher, descendente de Aarão, chamava-se Isabel.
 +
6. Ambos eram justos diante de Deus e observavam irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor.
 +
7. Mas não tinham filho, porque Isabel era estéril e ambos de idade avançada.
 +
8. Ora, exercendo Zacarias diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem da sua classe,
 +
9. coube-lhe por sorte, segundo o costume em uso entre os sacerdotes, entrar no santuário do Senhor e aí oferecer o perfume.
 +
10. Todo o povo estava de fora, à hora da oferenda do perfume.
 +
11. Apareceu-lhe então um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do perfume.
 +
12. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado, e o temor assaltou-o.
 +
13. Mas o anjo disse-lhe: Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João.
 +
14. Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos se alegrarão com o seu nascimento;
 +
15. porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo;
 +
16. ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus,
 +
17. e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto.
 +
18. Zacarias perguntou ao anjo: Donde terei certeza disto? Pois sou velho e minha mulher é de idade avançada.
 +
19. O anjo respondeu-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta feliz nova.
 +
20. Eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas acontecerem, visto que não deste crédito às minhas palavras, que se hão de cumprir a seu tempo.
 +
21. No entanto, o povo estava esperando Zacarias; e admirava-se de ele se demorar tanto tempo no santuário.
 +
22. Ao sair, não lhes podia falar, e compreenderam que tivera no santuário uma visão. Ele lhes explicava isto por acenos; e permaneceu mudo.
 +
23. Decorridos os dias do seu ministério, retirou-se para sua casa.
 +
24. Algum tempo depois Isabel, sua mulher, concebeu; e por cinco meses se ocultava, dizendo:
 +
25. Eis a graça que o Senhor me fez, quando lançou os olhos sobre mim para tirar o meu opróbrio dentre os homens.
 +
26. No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,
 +
27. a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.
 +
28. Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.
 +
29. Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação.
 +
30. O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.
 +
31. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
 +
32. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó,
 +
33. e o seu reino não terá fim.
 +
34. Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?
 +
35. Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.
 +
36. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril,
 +
37. porque a Deus nenhuma coisa é impossível.
 +
38. Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.
 +
39. Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá.
 +
40. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
 +
41. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
 +
42. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.
 +
43. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?
 +
44. Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio.
 +
45. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!
 +
46. E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,
 +
47. meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,
 +
48. porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,
 +
49. porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.
 +
50. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.
 +
51. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.
 +
52. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.
 +
53. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.
 +
54. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,
 +
55. conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.
 +
56. Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa.
 +
57. Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho.
 +
58. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia, e congratulavam-se com ela.
 +
59. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias.
 +
60. Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João.
 +
61. Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome.
 +
62. E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse.
 +
63. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados.
 +
64. E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus.
 +
65. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia.
 +
66. Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele.
 +
67. Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou, nestes termos:
 +
68. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo,
 +
69. e suscitou-nos um poderoso Salvador, na casa de Davi, seu servo
 +
70. (como havia anunciado, desde os primeiros tempos, mediante os seus santos profetas),
 +
71. para nos livrar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam.
 +
72. Assim exerce a sua misericórdia com nossos pais, e se recorda de sua santa aliança,
 +
73. segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão: de nos conceder que, sem temor,
 +
74. libertados de mãos inimigas, possamos servi-lo
 +
75. em santidade e justiça, em sua presença, todos os dias da nossa vida.
 +
76. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho,
 +
77. para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados.
 +
78. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente,
 +
79. que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz.
 +
80. O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.
 +
 
 +
 +
Capítulo 2
 +
 
 +
1. Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra.
 +
2. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria.
 +
3. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
 +
4. Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi,
 +
5. para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida.
 +
6. Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
 +
7. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.
 +
8. Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
 +
9. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
 +
10. O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo:
 +
11. hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor.
 +
12. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
 +
13. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
 +
14. Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência (divina).
 +
15. Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou.
 +
16. Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.
 +
17. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.
 +
18. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.
 +
19. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
 +
20. Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito.
 +
21. Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.
 +
22. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor,
 +
23. conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2);
 +
24. e para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.
 +
25. Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele.
 +
26. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor.
 +
27. Impelido pelo Espírito Santo, foi ao templo. E tendo os pais apresentado o menino Jesus, para cumprirem a respeito dele os preceitos da lei,
 +
28. tomou-o em seus braços e louvou a Deus nestes termos:
 +
29. Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra.
 +
30. Porque os meus olhos viram a vossa salvação
 +
31. que preparastes diante de todos os povos,
 +
32. como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel.
 +
33. Seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que dele se diziam.
 +
34. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições,
 +
35. a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma.
 +
36. Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de idade avançada.
 +
37. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações.
 +
38. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação.
 +
39. Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré.
 +
40. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele.
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41. Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa.
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42. Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.
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43. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem.
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44. Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos.
 +
45. Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele.
 +
46. Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.
 +
47. Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas.
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48. Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.
 +
49. Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?
 +
50. Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera.
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51. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração.
 +
52. E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens.
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Capítulo 3
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1. No ano décimo quinto do reinado do imperador Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca da Abilina,
 +
2. sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias.
 +
3. Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados,
 +
4. como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías (40,3ss.): Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
 +
5. Todo vale será aterrado, e todo monte e outeiro serão arrasados; tornar-se-á direito o que estiver torto, e os caminhos escabrosos serão aplainados.
 +
6. Todo homem verá a salvação de Deus.
 +
7. Dizia, pois, ao povo que vinha para ser batizado por ele: Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira iminente?
 +
8. Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa e não comeceis a dizer: Temos Abraão por pai. Pois vos digo: Deus tem poder para destas pedras suscitar filhos a Abraão.
 +
9. O machado já está posto à raiz das árvores. E toda árvore que não der fruto bom será cortada e lançada ao fogo.
 +
10. Perguntava-lhe a multidão: Que devemos fazer?
 +
11. Ele respondia: Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo.
 +
12. Também publicanos vieram para ser batizados, e perguntaram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
 +
13. Ele lhes respondeu: Não exijais mais do que vos foi ordenado.
 +
14. Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: E nós, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo.
 +
15. Ora, como o povo estivesse na expectativa, e como todos perguntassem em seus corações se talvez João fosse o Cristo,
 +
16. ele tomou a palavra, dizendo a todos: Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
 +
17. Ele tem a pá na mão e limpará a sua eira, e recolherá o trigo ao seu celeiro, mas queimará as palhas num fogo inextinguível.
 +
18. É assim que ele anunciava ao povo a boa nova, e dirigia-lhe ainda muitas outras exortações.
 +
19. Mas Herodes, o tetrarca, repreendido por ele por causa de Herodíades, mulher de seu irmão, e por causa de todos os crimes que praticara,
 +
20. acrescentou a todos eles também este: encerrou João no cárcere.
 +
21. Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando ele a orar, o céu se abriu
 +
22. e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição.
 +
23. Quando Jesus começou o seu ministério, tinha cerca de trinta anos, e era tido por filho de José, filho de Heli, filho de Matat,
 +
24. filho de Levi, filho de Melqui, filho de Jané, filho de José,
 +
25. filho de Matatias, filho de Amós, filho de Naum, filho de Hesli, filho de Nagé,
 +
26. filho de Maat, filho de Matatias, filho de Semei, filho de José, filho de Judá,
 +
27. filho de Joanã, filho de Resa, filho de Zorobabel, filho de Salatiel, filho de Neri,
 +
28. filho de Melqui, filho de Adi, filho de Cosã, filho de Elmadão, filho de Her,
 +
29. filho de Jesus, filho de Eliezer, filho de Jorim, filho de Matat, filho de Levi,
 +
30. filho de Simeão, filho de Judá, filho de José, filho de Jonão, filho de Eliacim,
 +
31. filho de Meléia, filho de Mena, filho de Matata, filho de Natã, filho de Davi,
 +
32. filho de Jessé, filho de Obed, filho de Booz, filho de Salmon, filho de Naason,
 +
33. filho de Aminadab, filho de Arão, filho de Esron, filho de Farés, filho de Judá,
 +
34. filho de Jacó, filho de Isaac, filho de Abraão, filho de Taré, filho de Nacor,
 +
35. filho de Sarug, filho de Ragau, filho de Faleg, filho de Eber, filho de Salé,
 +
36. filho de Cainã, filho de Arfaxad, filho de Sem, filho de Noé, filho de Lamec,
 +
37. filho de Matusalém, filho de Henoc, filho de Jared, filho de Malaleel, filho de Cainã,
 +
38. filho de Henós, filho de Set, filho de Adão, filho de Deus.
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Capítulo 4
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1. Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto,
 +
2. onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome.
 +
3. Disse-lhe então o demônio: Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão.
 +
4. Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus (Dt 8,3).
 +
5. O demônio levou-o em seguida a um alto monte e mostrou-lhe num só momento todos os reinos da terra,
 +
6. e disse-lhe: Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero.
 +
7. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu.
 +
8. Jesus disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a ele só servirás (Dt 6,13).
 +
9. O demônio levou-o ainda a Jerusalém, ao ponto mais alto do templo, e disse-lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo;
 +
10. porque está escrito: Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem.
 +
11. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra (Sl 90,11s.).
 +
12. Jesus disse: Foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16).
 +
13. Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião.
 +
14. Jesus então, cheio da força do Espírito, voltou para a Galiléia. E a sua fama divulgou-se por toda a região.
 +
15. Ele ensinava nas sinagogas e era aclamado por todos.
 +
16. Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.
 +
17. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (61,1s.):
 +
18. O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração,
 +
19. para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.
 +
20. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
 +
21. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir.
 +
22. Todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca, e diziam: Não é este o filho de José?
 +
23. Então lhes disse: Sem dúvida me citareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-o também aqui na tua pátria.
 +
24. E acrescentou: Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua pátria.
 +
25. Em verdade vos digo: muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra;
 +
26. mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia.
 +
27. Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu; mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.
 +
28. A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga.
 +
29. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo.
 +
30. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se.
 +
31. Desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia, e ali ensinava-os aos sábados.
 +
32. Maravilharam-se da sua doutrina, porque ele ensinava com autoridade.
 +
33. Estava na sinagoga um homem que tinha um demônio imundo, e exclamou em alta voz:
 +
34. Deixa-nos! Que temos nós contigo, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem és: o Santo de Deus!
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35. Mas Jesus replicou severamente: Cala-te e sai deste homem. O demônio lançou-o por terra no meio de todos e saiu dele, sem lhe fazer mal algum.
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36. Todos ficaram cheios de pavor e falavam uns com os outros: Que significa isso? Manda com poder e autoridade aos espíritos imundos, e eles saem?
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37. E corria a sua fama por todos os lugares da circunvizinhança.
 +
38. Saindo Jesus da sinagoga, entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta; e pediram-lhe por ela.
 +
39. Inclinando-se sobre ela, ordenou ele à febre, e a febre deixou-a. Ela levantou-se imediatamente e pôs-se a servi-los.
 +
40. Depois do pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias lhos traziam. Impondo-lhes a mão, os sarava.
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41. De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: Tu és o Filho de Deus. Mas ele repreendia-os severamente, não lhes permitindo falar, porque sabiam que ele era o Cristo.
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42. Ao amanhecer, ele saiu e retirou-se para um lugar afastado. As multidões o procuravam e foram até onde ele estava e queriam detê-lo, para que não as deixasse.
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43. Mas ele disse-lhes: É necessário que eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão.
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44. E andava pregando nas sinagogas da Galiléia.
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Capítulo 5
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1. Estando Jesus um dia à margem do lago de Genesaré, o povo se comprimia em redor dele para ouvir a palavra de Deus.
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2. Vendo duas barcas estacionadas à beira do lago, - pois os pescadores haviam descido delas para consertar as redes -,
 +
3. subiu a uma das barcas que era de Simão e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra; e sentado, ensinava da barca o povo.
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4. Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.
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5. Simão respondeu-lhe: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa de tua palavra, lançarei a rede.
 +
6. Feito isto, apanharam peixes em tanta quantidade, que a rede se lhes rompia.
 +
7. Acenaram aos companheiros, que estavam na outra barca, para que viessem ajudar. Eles vieram e encheram ambas as barcas, de modo que quase iam ao fundo.
 +
8. Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.
 +
9. É que tanto ele como seus companheiros estavam assombrados por causa da pesca que haviam feito.
 +
10. O mesmo acontecera a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus companheiros. Então Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens.
 +
11. E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram.
 +
12. Estando ele numa cidade, apareceu um homem cheio de lepra. Vendo Jesus, lançou-se com o rosto por terra e lhe suplicou: Senhor, se queres, podes limpar-me.
 +
13. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu quero; sê purificado! No mesmo instante desapareceu dele a lepra.
 +
14. Ordenou-lhe Jesus que o não contasse a ninguém, dizendo-lhe, porém: Vai e mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua purificação o que Moisés prescreveu, para lhes servir de testemunho.
 +
15. Entretanto, espalhava-se mais e mais a sua fama e concorriam grandes multidões para o ouvir e ser curadas das suas enfermidades.
 +
16. Mas ele costumava retirar-se a lugares solitários para orar.
 +
17. Um dia estava ele ensinando. Ao seu derredor estavam sentados fariseus e doutores da lei, vindos de todas as localidades da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor fazia-o realizar várias curas.
 +
18. Apareceram algumas pessoas trazendo num leito um homem paralítico; e procuravam introduzi-lo na casa e pô-lo diante dele.
 +
19. Mas não achando por onde o introduzir, por causa da multidão, subiram ao telhado e por entre as telhas o arriaram com o leito ao meio da assembléia, diante de Jesus.
 +
20. Vendo a fé que tinham, disse Jesus: Meu amigo, os teus pecados te são perdoados.
 +
21. Então os escribas e os fariseus começaram a pensar e a dizer consigo mesmos: Quem é este homem que profere blasfêmias? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus?
 +
22. Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, replicou-lhes: Que pensais nos vossos corações?
 +
23. Que é mais fácil dizer: Perdoados te são os pecados; ou dizer: Levanta-te e anda?
 +
24. Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar pecados (disse ele ao paralítico), eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.
 +
25. No mesmo instante, levantou-se ele à vista deles, tomou o leito e partiu para casa, glorificando a Deus.
 +
26. Todos ficaram transportados de entusiasmo e glorificavam a Deus; e tomados de temor, diziam: Hoje vimos coisas maravilhosas.
 +
27. Depois disso, ele saiu e viu sentado ao balcão um coletor de impostos, por nome Levi, e disse-lhe: Segue-me.
 +
28. Deixando ele tudo, levantou-se e o seguiu.
 +
29. Levi deu-lhe um grande banquete em sua casa; vários desses fiscais e outras pessoas estavam sentados à mesa com eles.
 +
30. Os fariseus e os seus escribas puseram-se a criticar e a perguntar aos discípulos: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pessoas de má vida?
 +
31. Respondeu-lhes Jesus: Não são os homens de boa saúde que necessitam de médico, mas sim os enfermos.
 +
32. Não vim chamar à conversão os justos, mas sim os pecadores.
 +
33. Eles então lhe disseram: Os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam com freqüência e fazem longas orações, mas os teus comem e bebem...
 +
34. Jesus respondeu-lhes: Porventura podeis vós obrigar a jejuar os amigos do esposo, enquanto o esposo está com eles?
 +
35. Virão dias em que o esposo lhes será tirado; então jejuarão.
 +
36. Propôs-lhes também esta comparação: Ninguém rasga um pedaço de roupa nova para remendar uma roupa velha, porque assim estragaria uma roupa nova. Além disso, o remendo novo não assentaria bem na roupa velha.
 +
37. Também ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho novo arrebentará os odres e entornar-se-á, e perder-se-ão os odres;
 +
38. mas o vinho novo deve-se pôr em odres novos, e assim ambos se conservam.
 +
39. Demais, ninguém que bebeu do vinho velho quer já do novo, porque diz: O vinho velho é melhor.
 +
 
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Capítulo 6
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1. Em dia de sábado, Jesus atravessava umas plantações; seus discípulos iam colhendo espigas (de trigo), as debulhavam na mão e comiam.
 +
2. Alguns dos fariseus lhes diziam: Por que fazeis o que não é permitido no sábado?
 +
3. Jesus respondeu: Acaso não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os seus companheiros;
 +
4. como entrou na casa de Deus e tomou os pães da proposição e deles comeu e deu de comer aos seus companheiros, se bem que só aos sacerdotes era permitido comê-los?
 +
5. E ajuntou: O Filho do Homem é senhor também do sábado.
 +
6. Em outro dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e ensinava. Achava-se ali um homem que tinha a mão direita seca.
 +
7. Ora, os escribas e os fariseus observavam Jesus para ver se ele curaria no dia de sábado. Eles teriam então pretexto para acusá-lo.
 +
8. Mas Jesus conhecia os pensamentos deles e disse ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te e põe-te em pé, aqui no meio. Ele se levantou e ficou em pé.
 +
9. Disse-lhes Jesus: Pergunto-vos se no sábado é permitido fazer o bem ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer.
 +
10. E relanceando os olhos sobre todos, disse ao homem: Estende tua mão. Ele a estendeu, e foi-lhe restabelecida a mão.
 +
11. Mas eles encheram-se de furor e indagavam uns aos outros o que fariam a Jesus.
 +
12. Naqueles dias, Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus.
 +
13. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de apóstolos:
 +
14. Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu,
 +
15. Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador;
 +
16. Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor.
 +
17. Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judéia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades.
 +
18. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres.
 +
19. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos.
 +
20. Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!
 +
21. Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis!
 +
22. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem!
 +
23. Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.
 +
24. Mas ai de vós, ricos, porque tendes a vossa consolação!
 +
25. Ai de vós, que estais fartos, porque vireis a ter fome! Ai de vós, que agora rides, porque gemereis e chorareis!
 +
26. Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!
 +
27. Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam,
 +
28. abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam.
 +
29. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica.
 +
30. Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.
 +
31. O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles.
 +
32. Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam.
 +
33. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem também os pecadores.
 +
34. Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que recompensa mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto.
 +
35. Pelo contrário, amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem daí esperar nada. E grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é bom para com os ingratos e maus.
 +
36. Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
 +
37. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados;
 +
38. dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.
 +
39. Propôs-lhes também esta comparação: Pode acaso um cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?
 +
40. O discípulo não é superior ao mestre; mas todo discípulo perfeito será como o seu mestre.
 +
41. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?
 +
42. Ou como podes dizer a teu irmão: Deixa-me, irmão, tirar de teu olho o argueiro, quando tu não vês a trave no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e depois enxergarás para tirar o argueiro do olho de teu irmão.
 +
43. Uma árvore boa não dá frutos maus, uma árvore má não dá bom fruto.
 +
44. Porquanto cada árvore se conhece pelo seu fruto. Não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas dos abrolhos.
 +
45. O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio.
 +
46. Por que me chamais: Senhor, Senhor... e não fazeis o que digo?
 +
47. Todo aquele que vem a mim ouve as minhas palavras e as pratica, eu vos mostrarei a quem é semelhante.
 +
48. É semelhante ao homem que, edificando uma casa, cavou bem fundo e pôs os alicerces sobre a rocha. As águas transbordaram, precipitaram-se as torrentes contra aquela casa e não a puderam abalar, porque ela estava bem construída.
 +
49. Mas aquele que as ouve e não as observa é semelhante ao homem que construiu a sua casa sobre a terra movediça, sem alicerces. A torrente investiu contra ela, e ela logo ruiu; e grande foi a ruína daquela casa.
 +
 
 +
 +
Capítulo 7
 +
 
 +
1. Tendo Jesus concluído todos os seus discursos ao povo que o escutava, entrou em Cafarnaum.
 +
2. Havia lá um centurião que tinha um servo a quem muito estimava e que estava à morte.
 +
3. Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe alguns anciãos dos judeus, rogando-lhe que o viesse curar.
 +
4. Aproximando-se eles de Jesus, rogavam-lhe encarecidamente: Ele bem merece que lhe faças este favor,
 +
5. pois é amigo da nossa nação e foi ele mesmo quem nos edificou uma sinagoga.
 +
6. Jesus então foi com eles. E já não estava longe da casa, quando o centurião lhe mandou dizer por amigos seus: Senhor, não te incomodes tanto assim, porque não sou digno de que entres em minha casa;
 +
7. por isso nem me achei digno de chegar-me a ti, mas dize somente uma palavra e o meu servo será curado.
 +
8. Pois também eu, simples subalterno, tenho soldados às minhas ordens; e digo a um: Vai ali! E ele vai; e a outro: Vem cá! E ele vem; e ao meu servo: Faze isto! E ele o faz.
 +
9. Ouvindo estas palavras, Jesus ficou admirado. E, voltando-se para o povo que o ia seguindo, disse: Em verdade vos digo: nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé.
 +
10. Voltando para a casa do centurião os que haviam sido enviados, encontraram o servo curado.
 +
11. No dia seguinte dirigiu-se Jesus a uma cidade chamada Naim. Iam com ele diversos discípulos e muito povo.
 +
12. Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de uma viúva; acompanhava-a muita gente da cidade.
 +
13. Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores!
 +
14. E aproximando-se, tocou no esquife, e os que o levavam pararam. Disse Jesus: Moço, eu te ordeno, levanta-te.
 +
15. Sentou-se o que estivera morto e começou a falar, e Jesus entregou-o à sua mãe.
 +
16. Apoderou-se de todos o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós: Deus voltou os olhos para o seu povo.
 +
17. A notícia deste fato correu por toda a Judéia e por toda a circunvizinhança.
 +
18. Os discípulos de João referiram-lhe todas estas coisas.
 +
19. E João chamou dois dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, perguntando: És tu o que há de vir ou devemos esperar por outro?
 +
20. Chegando estes homens a ele, disseram: João Batista enviou-nos a ti, perguntando: És tu o que há de vir ou devemos esperar por outro?
 +
21. Ora, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de enfermidades, de doenças e de espíritos malignos, e dado a vista a muitos cegos.
 +
22. Respondeu-lhes ele: Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho;
 +
23. e bem-aventurado é aquele para quem eu não for ocasião de queda!
 +
24. Depois que se retiraram os mensageiros de João, ele começou a falar de João ao povo: Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?
 +
25. Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas preciosas e vivem no luxo estão nos palácios dos reis.
 +
26. Mas, enfim, que fostes ver? Um profeta? Sim, digo-vos, e mais do que profeta.
 +
27. Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro ante a tua face; ele preparará o teu caminho diante de ti (Ml 3,1).
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28. Pois vos digo: entre os nascidos de mulher não há maior que João. Entretanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele.
 +
29. Ouvindo-o todo o povo, e mesmo os publicanos, deram razão a Deus, fazendo-se batizar com o batismo de João.
 +
30. Os fariseus, porém, e os doutores da lei, recusando o seu batismo, frustraram o desígnio de Deus a seu respeito.
 +
31. A quem compararei os homens desta geração? Com quem se assemelham?
 +
32. São semelhantes a meninos que, sentados na praça, falam uns com os outros, dizendo: Tocamos a flauta e não dançastes; entoamos lamentações e não chorastes.
 +
33. Pois veio João Batista, que nem comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Ele está possuído do demônio.
 +
34. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e libertinos.
 +
35. Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.
 +
36. Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa.
 +
37. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume;
 +
38. e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume.
 +
39. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora.
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40. Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele.
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41. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta.
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42. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais?
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43. Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem.
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44. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos.
 +
45. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés.
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46. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés.
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47. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama.
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48. E disse a ela: Perdoados te são os pecados.
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49. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer, então: Quem é este homem que até perdoa pecados?
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50. Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: Tua fé te salvou; vai em paz.
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Capítulo 8
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1. Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus.
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2. Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios;
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3. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses.
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4. Havia se reunido uma grande multidão: eram pessoas vindas de várias cidades para junto dele. Ele lhes disse esta parábola:
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5. Saiu o semeador a semear a sua semente. E ao semear, parte da semente caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram.
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6. Outra caiu no pedregulho; e, tendo nascido, secou, por falta de umidade.
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7. Outra caiu entre os espinhos; cresceram com ela os espinhos, e sufocaram-na.
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8. Outra, porém, caiu em terra boa; tendo crescido, produziu fruto cem por um. Dito isto, Jesus acrescentou alteando a voz: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
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9. Os seus discípulos perguntaram-lhe a significação desta parábola.
 +
10. Ele respondeu: A vós é concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas; de forma que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.
 +
11. Eis o que significa esta parábola: a semente é a palavra de Deus.
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12. Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem; mas depois vem o demônio e lhes tira a palavra do coração, para que não creiam nem se salvem.
 +
13. Aqueles que a recebem em solo pedregoso são os ouvintes da palavra de Deus que a acolhem com alegria; mas não têm raiz, porque crêem até certo tempo, e na hora da provação a abandonam.
 +
14. A que caiu entre os espinhos, estes são os que ouvem a palavra, mas prosseguindo o caminho, são sufocados pelos cuidados, riquezas e prazeres da vida, e assim os seus frutos não amadurecem.
 +
15. A que caiu na terra boa são os que ouvem a palavra com coração reto e bom, retêm-na e dão fruto pela perseverança.
 +
16. Ninguém acende uma lâmpada e a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama; mas a põe sobre um castiçal, para iluminar os que entram.
 +
17. Porque não há coisa oculta que não acabe por se manifestar, nem secreta que não venha a ser descoberta.
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18. Vede, pois, como é que ouvis. Porque ao que tiver, lhe será dado; e ao que não tiver, até aquilo que julga ter lhe será tirado.
 +
19. A mãe e os irmãos de Jesus foram procurá-lo, mas não podiam chegar-se a ele por causa da multidão.
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20. Foi-lhe avisado: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam ver-te.
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21. Ele lhes disse: Minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a palavra de Deus e a observam.
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22. Num daqueles dias ele subiu com os seus discípulos a uma barca. Disse ele: Passemos à outra margem do lago. E eles partiram.
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23. Durante a travessia, Jesus adormeceu. Desabou então uma tempestade de vento sobre o lago. A barca enchia-se de água, e eles se achavam em perigo.
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24. Aproximaram-se dele então e o despertaram com este grito: Mestre, Mestre! Nós estamos perecendo! Levantou-se ele e ordenou aos ventos e à fúria da água que se acalmassem; e se acalmaram e logo veio a bonança. 25 Perguntou-lhes, então: Onde está a vossa fé? Eles, cheios de respeito e de profunda admiração, diziam uns aos outros: Quem é este, a quem os ventos e o mar obedecem?
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26. Navegaram para a região dos gerasenos, que está defronte da Galiléia.
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27. Mal saltou em terra, veio-lhe ao encontro um homem dessa região, possuído de muitos demônios; há muito tempo não se vestia nem parava em casa, mas habitava no cemitério.
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28. Ao ver Jesus, prostrou-se diante dele e gritou em alta voz: Por que te ocupas de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te, não me atormentes!
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29. Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem. Pois há muito tempo que se apoderara dele, e guardavam-no preso em cadeias e com grilhões nos pés, mas ele rompia as cadeias e era impelido pelo demônio para os desertos.
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30. Jesus perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Ele respondeu: Legião! (Porque eram muitos os demônios que nele se ocultavam.)
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31. E pediam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.
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32. Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe os demônios que lhes permitisse entrar neles. Ele permitiu.
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33. Saíram, pois, os demônios do homem e entraram nos porcos; e a manada de porcos precipitou-se, pelo despenhadeiro, impetuosamente no lago e afogou-se.
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34. Quando aqueles que os guardavam viram o acontecido, fugiram e foram contá-lo na cidade e pelo campo.
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35. Saíram eles, pois, a ver o que havia ocorrido. Chegaram a Jesus e acharam a seus pés, sentado, vestido e calmo, o homem de quem haviam sido expulsos os demônios; e tomados de medo,
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36. ouviram das testemunhas a narração desse exorcismo.
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37. Então todo o povo da região dos gerasenos rogou a Jesus que se retirasse deles, pois estavam possuídos de grande temor. Jesus subiu à barca, para regressar.
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38. Nesse momento, pedia-lhe o homem, de quem tinham saído os demônios, para ficar com ele. Mas Jesus despediu-o, dizendo:
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39. Volta para casa, e conta quanto Deus te fez. E ele se foi, publicando por toda a cidade essas grandes coisas...
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40. À sua volta, Jesus foi recebido por uma multidão que o esperava.
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41. O chefe da sinagoga, chamado Jairo, foi ao seu encontro. Lançou-se a seus pés e rogou-lhe que fosse à sua casa,
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42. porque tinha uma filha única, de uns doze anos, que estava para morrer. Jesus dirigiu-se para lá, comprimido pelo povo.
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43. Ora, uma mulher que padecia dum fluxo de sangue havia doze anos, e tinha gasto com médicos todos os seus bens, sem que nenhum a pudesse curar,
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44. aproximou-se dele por detrás e tocou-lhe a orla do manto; e no mesmo instante lhe parou o fluxo de sangue.
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45. Jesus perguntou: Quem foi que me tocou? Como todos negassem, Pedro e os que com ele estavam disseram: Mestre, a multidão te aperta de todos os lados...
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46. Jesus replicou: Alguém me tocou, porque percebi sair de mim uma força.
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47. A mulher viu-se descoberta e foi tremendo e prostrou-se aos seus pés; e declarou diante de todo o povo o motivo por que o havia tocado, e como logo ficara curada.
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48. Jesus disse-lhe: Minha filha, tua fé te salvou; vai em paz.
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49. Enquanto ainda falava, veio alguém e disse ao chefe da sinagoga: Tua filha acaba de morrer; não incomodes mais o Mestre.
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50. Mas Jesus o ouviu e disse a Jairo: Não temas; crê somente e ela será salva.
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51. Quando Jesus chegou à casa, não deixou ninguém entrar com ele, senão Pedro, Tiago, João com o pai e a mãe da menina.
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52. Todos, entretanto, choravam e se lamentavam. Mas Jesus disse: Não choreis; a menina não morreu, mas dorme.
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53. Zombavam dele, pois sabiam bem que estava morta.
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54. Mas segurando ele a mão dela, disse em alta voz: Menina, levanta-te!
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55. Voltou-lhe a vida e ela levantou-se imediatamente. Jesus mandou que lhe dessem de comer.
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56. Seus pais ficaram tomados de pasmo; Jesus ordenou-lhes que não contassem a pessoa alguma o que se tinha passado.
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Capítulo 9
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1. Reunindo Jesus os doze apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades.
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2. Enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos.
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3. Disse-lhes: Não leveis coisa alguma para o caminho, nem bordão, nem mochila, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas.
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4. Em qualquer casa em que entrardes, ficai ali até que deixeis aquela localidade.
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5. Onde ninguém vos receber, deixai aquela cidade e em testemunho contra eles sacudi a poeira dos vossos pés.
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6. Partiram, pois, e percorriam as aldeias, pregando o Evangelho e fazendo curas por toda parte.
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7. O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que Jesus fazia e ficou perplexo. Uns diziam: É João que ressurgiu dos mortos; outros: É Elias que apareceu;
 +
8. e ainda outros: É um dos antigos profetas que ressuscitou.
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9. Mas Herodes dizia: Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo.
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10. Os apóstolos, ao voltarem, contaram a Jesus tudo o que haviam feito. Tomando-os ele consigo à parte, dirigiu-se a um lugar deserto para o lado de Betsaida.
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11. Logo que a multidão o soube, o foi seguindo; Jesus recebeu-os e falava-lhes do Reino de Deus. Restabelecia também a saúde dos doentes.
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12. Ora, o dia começava a declinar e os Doze foram dizer-lhe: Despede as turbas, para que vão pelas aldeias e sítios da vizinhança e procurem alimento e hospedagem, porque aqui estamos num lugar deserto.
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13. Jesus replicou-lhes: Dai-lhes vós mesmos de comer. Retrucaram eles: Não temos mais do que cinco pães e dois peixes, a menos que nós mesmos vamos e compremos mantimentos para todo este povo.
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14. (Pois eram quase cinco mil homens.) Jesus disse aos discípulos: Mandai-os sentar, divididos em grupos de cinqüenta.
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15. Assim o fizeram e todos se assentaram.
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16. Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os a seus discípulos, para que os servissem ao povo.
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17. E todos comeram e ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços.
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18. Num dia em que ele estava a orar a sós com os discípulos, perguntou-lhes: Quem dizem que eu sou?
 +
19. Responderam-lhe: Uns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas.
 +
20. Perguntou-lhes, então: E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: O Cristo de Deus.
 +
21. Ordenou-lhes energicamente que não o dissessem a ninguém.
 +
22. Ele acrescentou: É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia.
 +
23. Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.
 +
24. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á.
 +
25. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?
 +
26. Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos.
 +
27. Em verdade vos digo: dos que aqui se acham, alguns há que não morrerão, até que vejam o Reino de Deus.
 +
28. Passados uns oitos dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar.
 +
29. Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.
 +
30. E eis que falavam com ele dois personagens: eram Moisés e Elias,
 +
31. que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém.
 +
32. Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono; ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia.
 +
33. Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse: Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!... Ele não sabia o que dizia.
 +
34. Enquanto ainda assim falava, veio uma nuvem e encobriu-os com a sua sombra; e os discípulos, vendo-os desaparecer na nuvem, tiveram um grande pavor.
 +
35. Então da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o!
 +
36. E, enquanto ainda ressoava esta voz, achou-se Jesus sozinho. Os discípulos calaram-se e a ninguém disseram naqueles dias coisa alguma do que tinham visto.
 +
37. No dia seguinte, descendo eles do monte, veio ao encontro de Jesus uma grande multidão.
 +
38. Eis que um homem exclamou do meio da multidão: Mestre, rogo-te que olhes para meu filho, pois é o único que tenho.
 +
39. Um espírito se apodera dele e subitamente dá gritos, lança-o por terra, agita-o com violência, fá-lo espumar e só o larga depois de o deixar todo ofegante.
 +
40. Pedi a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam fazer.
 +
41. Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco e vos aturarei? Traze cá teu filho.
 +
42. E quando ele ia chegando, o demônio lançou-o por terra e agitou-o violentamente. Mas Jesus intimou o espírito imundo, curou o menino e o restituiu a seu pai.
 +
43. Todos ficaram pasmados ante a grandeza de Deus. Como todos se admirassem de tudo o que Jesus fazia, disse ele a seus discípulos:
 +
44. Gravai nos vossos corações estas palavras: O Filho do Homem há de ser entregue às mãos dos homens!
 +
45. Eles, porém, não entendiam esta palavra e era-lhes obscura, de modo que não alcançaram o seu sentido; e tinham medo de lhe perguntar a este respeito.
 +
46. Veio-lhes então o pensamento de qual deles seria o maior.
 +
47. Penetrando Jesus nos pensamentos de seus corações, tomou um menino, colocou-o junto de si e disse-lhes:
 +
48. Todo o que recebe este menino em meu nome, a mim é que recebe; e quem recebe a mim, recebe aquele que me enviou; pois quem dentre vós for o menor, esse será grande.
 +
49. João tomou a palavra e disse: Mestre, vimos um homem que expelia demônios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos.
 +
50. Mas Jesus lhe disse: Não lho proibais; porque, o que não é contra vós, é a vosso favor.
 +
51. Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém.
 +
52. Enviou diante de si mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para lhe arranjar pousada.
 +
53. Mas não o receberam, por ele dar mostras de que ia para Jerusalém.
 +
54. Vendo isto, Tiago e João disseram: Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?
 +
55. Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. [Não sabeis de que espírito sois animados.
 +
56. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las.] Foram então para outra povoação.
 +
57. Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que vás.
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58. Jesus replicou-lhe: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.
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59. A outro disse: Segue-me. Mas ele pediu: Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.
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60. Mas Jesus disse-lhe: Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.
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61. Um outro ainda lhe falou: Senhor, seguir-te-ei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa.
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62. Mas Jesus disse-lhe: Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.
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Capítulo 10
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1. Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir.
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2. Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe.
 +
3. Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos.
 +
4. Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho.
 +
5. Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!
 +
6. Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós.
 +
7. Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa.
 +
8. Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir.
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9. Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo.
 +
10. Mas se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei:
 +
11. Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo.
 +
12. Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma.
 +
13. Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza.
 +
14. Por isso haverá no dia do juízo menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vós.
 +
15. E tu, Cafarnaum, que te elevas até o céu, serás precipitada até aos infernos.
 +
16. Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.
 +
17. Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!
 +
18. Jesus disse-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio.
 +
19. Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo.
 +
20. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus.
 +
21. Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado.
 +
22. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
 +
23. E voltou-se para os seus discípulos, e disse: Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes,
 +
24. pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.
 +
25. Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?
 +
26. Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês?
 +
27. Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).
 +
28. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás.
 +
29. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?
 +
30. Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto.
 +
31. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante.
 +
32. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante.
 +
33. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão.
 +
34. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele.
 +
35. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei.
 +
36. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
 +
37. Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo.
 +
38. Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa.
 +
39. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar.
 +
40. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.
 +
41. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas;
 +
42. no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.
 +
 
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Capítulo 11
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 +
1. Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-lhe um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos.
 +
2. Disse-lhes ele, então: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso Reino;
 +
3. dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento;
 +
4. perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação.
 +
5. Em seguida, ele continuou: Se alguém de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães,
 +
6. pois um amigo meu acaba de chegar à minha casa, de uma viagem, e não tenho nada para lhe oferecer;
 +
7. e se ele responder lá de dentro: Não me incomodes; a porta já está fechada, meus filhos e eu estamos deitados; não posso levantar-me para te dar os pães;
 +
8. eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar.
 +
9. E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.
 +
10. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá.
 +
11. Se um filho pedir um pão, qual o pai entre vós que lhe dará uma pedra? Se ele pedir um peixe, acaso lhe dará uma serpente?
 +
12. Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á porventura um escorpião?
 +
13. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.
 +
14. Jesus expelia um demônio que era mudo. Tendo o demônio saído, o mudo pôs-se a falar e a multidão ficou admirada.
 +
15. Mas alguns deles disseram: Ele expele os demônios por Beelzebul, príncipe dos demônios.
 +
16. E para pô-lo à prova, outros lhe pediam um sinal do céu.
 +
17. Penetrando nos seus pensamentos, disse-lhes Jesus: Todo o reino dividido contra si mesmo será destruído e seus edifícios cairão uns sobre os outros.
 +
18. Se, pois, Satanás está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Pois dizeis que expulso os demônios por Beelzebul.
 +
19. Ora, se é por Beelzebul que expulso os demônios, por quem o expulsam vossos filhos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes!
 +
20. Mas se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o Reino de Deus.
 +
21. Quando um homem forte guarda armado a sua casa, estão em segurança os bens que possui.
 +
22. Mas se sobrevier outro mais forte do que ele e o vencer, este lhe tirará todas as armas em que confiava, e repartirá os seus despojos.
 +
23. Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha.
 +
24. Quando um espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; não o achando, diz: Voltarei à minha casa, donde saí.
 +
25. Chegando, acha-a varrida e adornada.
 +
26. Vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e entram e estabelecem-se ali. E a última condição desse homem vem a ser pior do que a primeira.
 +
27. Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!
 +
28. Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!
 +
29. Afluía o povo e ele continuou: Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não se lhe dará outro sinal senão o sinal do profeta Jonas.
 +
30. Pois, como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o Filho do Homem o será para esta geração.
 +
31. A rainha do meio-dia levantar-se-á no dia do juízo para condenar os homens desta geração, porque ela veio dos confins da terra ouvir a sabedoria de Salomão! Ora, aqui está quem é mais que Salomão.
 +
32. Os ninivitas levantar-se-ão no dia do juízo para condenar os homens desta geração, porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas.
 +
33. Ninguém acende uma lâmpada e a põe em lugar oculto ou debaixo da amassadeira, mas sobre um candeeiro, para alumiar os que entram.
 +
34. O olho é a lâmpada do corpo. Se teu olho é são, todo o corpo será bem iluminado; se, porém, estiver em mau estado, o teu corpo estará em trevas.
 +
35. Vê, pois, que a luz que está em ti não sejam trevas.
 +
36. Se, pois, todo o teu corpo estiver na luz, sem mistura de trevas, ele será inteiramente iluminado, como sob a brilhante luz de uma lâmpada.
 +
37. Enquanto Jesus falava, pediu-lhe um fariseu que fosse jantar em sua companhia. Ele entrou e pôs-se à mesa.
 +
38. Admirou-se o fariseu de que ele não se tivesse lavado antes de comer.
 +
39. Disse-lhe o Senhor: Vós, fariseus, limpais o que está por fora do vaso e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e maldade!
 +
40. Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o conteúdo?
 +
41. Dai antes em esmola o que possuís, e todas as coisas vos serão limpas.
 +
42. Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de diversas ervas e desprezais a justiça e o amor de Deus. No entanto, era necessário praticar estas coisas, sem contudo deixar de fazer aquelas outras coisas.
 +
43. Ai de vós, fariseus, que gostais das primeiras cadeiras nas sinagogas e das saudações nas praças públicas!
 +
44. Ai de vós, que sois como os sepulcros que não aparecem, e sobre os quais os homens caminham sem o saber.
 +
45. Um dos doutores da lei lhe disse: Mestre, falando assim também a nós outros nos afrontas.
 +
46. Ele respondeu: Ai também de vós, doutores da lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar, mas vós mesmos nem sequer com um dedo vosso tocais os fardos.
 +
47. Ai de vós, que edificais sepulcros para os profetas que vossos pais mataram.
 +
48. Vós servis assim de testemunhas das obras de vossos pais e as aprovais, porque em verdade eles os mataram, mas vós lhes edificais os sepulcros.
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49. Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, mas eles darão a morte a uns e perseguirão a outros.
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50. E assim se pedirá conta a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo,
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51. desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e o templo. Sim, declaro-vos que se pedirá conta disso a esta geração!
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52. Ai de vós, doutores da lei, que tomastes a chave da ciência, e vós mesmos não entrastes e impedistes aos que vinham para entrar.
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53. Depois que Jesus saiu dali, os escribas e fariseus começaram a importuná-lo fortemente e a persegui-lo com muitas perguntas,
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54. armando-lhe desta maneira ciladas, e procurando surpreendê-lo nalguma palavra de sua boca.
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Capítulo 12
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1. Enquanto isso, os homens se tinham reunido aos milhares em torno de Jesus, de modo que se atropelavam uns aos outros. Jesus começou a dizer a seus discípulos: Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia.
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2. Porque não há nada oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a ser conhecido.
 +
3. Pois o que dissestes às escuras será dito à luz; e o que falastes ao ouvido, nos quartos, será publicado de cima dos telhados.
 +
4. Digo-vos a vós, meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disto nada mais podem fazer.
 +
5. Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: temei àquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a este.
 +
6. Não se vendem cinco pardais por dois asses? E, entretanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus.
 +
7. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois. Mais valor tendes vós do que numerosos pardais.
 +
8. Digo-vos: todo o que me reconhecer diante dos homens, também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus;
 +
9. mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus.
 +
10. Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem obterá perdão, mas aquele que tiver blasfemado contra o Espírito Santo não alcançará perdão.
 +
11. Quando, porém, vos levarem às sinagogas, perante os magistrados e as autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de falar em vossa defesa,
 +
12. porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer.
 +
13. Disse-lhe então alguém do meio do povo: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.
 +
14. Jesus respondeu-lhe: Meu amigo, quem me constituiu juiz ou árbitro entre vós?
 +
15. E disse então ao povo: Guardai-vos escrupulosamente de toda a avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas.
 +
16. E propôs-lhe esta parábola: Havia um homem rico cujos campos produziam muito.
 +
17. E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher a minha colheita.
 +
18. Disse então ele: Farei o seguinte: derrubarei os meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda a minha colheita e os meus bens.
 +
19. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te.
 +
20. Deus, porém, lhe disse: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?
 +
21. Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.
 +
22. Jesus voltou-se então para seus discípulos: Portanto vos digo: não andeis preocupados com a vossa vida, pelo que haveis de comer; nem com o vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
 +
23. A vida vale mais do que o sustento e o corpo mais do que as vestes.
 +
24. Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro; entretanto, Deus os sustenta. Quanto mais valeis vós do que eles?
 +
25. Mas qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
 +
26. Se vós, pois, não podeis fazer nem as mínimas coisas, por que estais preocupados com as outras?
 +
27. Considerai os lírios, como crescem; não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles.
 +
28. Se Deus, portanto, veste assim a erva que hoje está no campo e amanhã se lança ao fogo, quanto mais a vós, homens de fé pequenina!
 +
29. Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações.
 +
30. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso.
 +
31. Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.
 +
32. Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino.
 +
33. Vendei o que possuís e dai esmolas; fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro inesgotável nos céus, aonde não chega o ladrão e a traça não o destrói.
 +
34. Pois onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.
 +
35. Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas.
 +
36. Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram.
 +
37. Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á.
 +
38. Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos!
 +
39. Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa.
 +
40. Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.
 +
41. Disse-lhe Pedro: Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?
 +
42. O Senhor replicou: Qual é o administrador sábio e fiel que o senhor estabelecerá sobre os seus operários para lhes dar a seu tempo a sua medida de trigo?
 +
43. Feliz daquele servo que o senhor achar procedendo assim, quando vier!
 +
44. Em verdade vos digo: confiar-lhe-á todos os seus bens.
 +
45. Mas, se o tal administrador imaginar consigo: Meu senhor tardará a vir, e começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se,
 +
46. o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar e na hora em que ele não pensar, e o despedirá e o mandará ao destino dos infiéis.
 +
47. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes.
 +
48. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir.
 +
49. Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?
 +
50. Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra!
 +
51. Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação.
 +
52. Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três;
 +
53. estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.
 +
54. Dizia ainda ao povo: Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: Aí vem chuva. E assim sucede.
 +
55. Quando vedes soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor. E assim acontece.
 +
56. Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente?
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57. Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo?
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58. Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele te não arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão.
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59. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.
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Capítulo 13
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1. Neste mesmo tempo contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios.
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2. Jesus toma a palavra e lhes pergunta: Pensais vós que estes galileus foram maiores pecadores do que todos os outros galileus, por terem sido tratados desse modo?
 +
3. Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo.
 +
4. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados do que todos os demais habitantes de Jerusalém?
 +
5. Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo.
 +
6. Disse-lhes também esta comparação: Um homem havia plantado uma figueira na sua vinha, e, indo buscar fruto, não o achou.
 +
7. Disse ao viticultor: - Eis que três anos há que venho procurando fruto nesta figueira e não o acho. Corta-a; para que ainda ocupa inutilmente o terreno?
 +
8. Mas o viticultor respondeu: - Senhor, deixa-a ainda este ano; eu lhe cavarei em redor e lhe deitarei adubo.
 +
9. Talvez depois disto dê frutos. Caso contrário, cortá-la-ás.
 +
10. Estava Jesus ensinando na sinagoga em um sábado.
 +
11. Havia ali uma mulher que, havia dezoito anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e não podia absolutamente erguer-se.
 +
12. Ao vê-la, Jesus a chamou e disse-lhe: Estás livre da tua doença.
 +
13. Impôs-lhe as mãos e no mesmo instante ela se endireitou, glorificando a Deus.
 +
14. Mas o chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse ao povo: São seis os dias em que se deve trabalhar; vinde, pois, nestes dias para vos curar, mas não em dia de sábado.
 +
15. Hipócritas!, disse-lhes o Senhor. Não desamarra cada um de vós no sábado o seu boi ou o seu jumento da manjedoura, para os levar a beber?
 +
16. Esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre desta prisão, em dia de sábado?
 +
17. Ao proferir estas palavras, todos os seus adversários se encheram de confusão, ao passo que todo o povo, à vista de todos os milagres que ele realizava, se entusiasmava.
 +
18. Jesus dizia ainda: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei?
 +
19. É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até se fazer uma grande planta e as aves do céu vieram fazer ninhos nos seus ramos.
 +
20. Disse ainda: A que direi que é semelhante o Reino de Deus?
 +
21. É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha e toda a massa ficou levedada.
 +
22. Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus ia atravessando cidades e aldeias e nelas ensinava.
 +
23. Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os homens que se salvam? Ele respondeu:
 +
24. Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão.
 +
25. Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei de onde sois.
 +
26. Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças.
 +
27. Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores.
 +
28. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora.
 +
29. Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus.
 +
30. Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos.
 +
31. No mesmo dia chegaram alguns dos fariseus, dizendo a Jesus: Sai e vai-te daqui, porque Herodes te quer matar.
 +
32. Disse-lhes ele: Ide dizer a essa raposa: eis que expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e ao terceiro dia terminarei a minha vida.
 +
33. É necessário, todavia, que eu caminhe hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não é admissível que um profeta morra fora de Jerusalém.
 +
34. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os enviados de Deus, quantas vezes quis ajuntar os teus filhos, como a galinha abriga a sua ninhada debaixo das asas, mas não o quiseste!
 +
35. Eis que vos ficará deserta a vossa casa. Digo-vos, porém, que não me vereis até que venha o dia em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor!
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Capítulo 14
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1. Jesus entrou num sábado em casa de um fariseu notável, para uma refeição; eles o observavam.
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2. Havia ali um homem hidrópico.
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3. Jesus dirigiu-se aos doutores da lei e aos fariseus: É permitido ou não fazer curas no dia de sábado?
 +
4. Eles nada disseram. Então Jesus, tomando o homem pela mão, curou-o e despediu-o.
 +
5. Depois, dirigindo-se a eles, disse: Qual de vós que, se lhe cair o jumento ou o boi num poço, não o tira imediatamente, mesmo em dia de sábado?
 +
6. A isto nada lhe podiam replicar.
 +
7. Observando também como os convivas escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes a seguinte parábola:
 +
8. Quando fores convidado às bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração do que tu,
 +
9. e vindo o que te convidou, te diga: Cede o lugar a este. Terias então a confusão de dever ocupar o último lugar.
 +
10. Mas, quando fores convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, passa mais para cima. Então serás honrado na presença de todos os convivas.
 +
11. Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado.
 +
12. Dizia igualmente ao que o tinha convidado: Quando deres alguma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem os parentes, nem os vizinhos ricos. Porque, por sua vez, eles te convidarão e assim te retribuirão.
 +
13. Mas, quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.
 +
14. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.
 +
15. A estas palavras, disse a Jesus um dos convidados: Feliz daquele que se sentar à mesa no Reino de Deus!
 +
16. Respondeu-lhe Jesus: Um homem deu uma grande ceia e convidou muitas pessoas.
 +
17. E à hora da ceia, enviou seu servo para dizer aos convidados: Vinde, tudo já está preparado.
 +
18. Mas todos, um a um, começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um terreno e preciso sair para vê-lo; rogo-te me dês por escusado.
 +
19. Disse outro: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te me dês por escusado.
 +
20. Disse também um outro: Casei-me e por isso não posso ir.
 +
21. Voltou o servo e referiu isto a seu senhor. Então, irado, o pai de família disse a seu servo: Sai, sem demora, pelas praças e pelas ruas da cidade e introduz aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.
 +
22. Disse o servo: Senhor, está feito como ordenaste e ainda há lugar.
 +
23. O senhor ordenou: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga todos a entrar, para que se encha a minha casa.
 +
24. Pois vos digo: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a minha ceia.
 +
25. Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes:
 +
26. Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
 +
27. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.
 +
28. Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?
 +
29. Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,
 +
30. dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar.
 +
31. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?
 +
32. De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.
 +
33. Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
 +
34. O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará?
 +
35. Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!
 +
 
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Capítulo 15
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 +
1. Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores para ouvi-lo.
 +
2. Os fariseus e os escribas murmuravam: Este homem recebe e come com pessoas de má vida!
 +
3. Então lhes propôs a seguinte parábola:
 +
4. Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?
 +
5. E depois de encontrá-la, a põe nos ombros, cheio de júbilo,
 +
6. e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido.
 +
7. Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.
 +
8. Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma delas, não acende a lâmpada, varre a casa e a busca diligentemente, até encontrá-la?
 +
9. E tendo-a encontrado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido.
 +
10. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa.
 +
11. Disse também: Um homem tinha dois filhos.
 +
12. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres.
 +
13. Poucos dias depois, ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou a sua fortuna, vivendo dissolutamente.
 +
14. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar penúria.
 +
15. Foi pôr-se ao serviço de um dos habitantes daquela região, que o mandou para os seus campos guardar os porcos.
 +
16. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
 +
17. Entrou então em si e refletiu: Quantos empregados há na casa de meu pai que têm pão em abundância... e eu, aqui, estou a morrer de fome!
 +
18. Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti;
 +
19. já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados.
 +
20. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
 +
21. O filho lhe disse, então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
 +
22. Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés.
 +
23. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa.
 +
24. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a festa.
 +
25. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
 +
26. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia.
 +
27. Ele lhe explicou: Voltou teu irmão. E teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o reencontrou são e salvo.
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28. Encolerizou-se ele e não queria entrar, mas seu pai saiu e insistiu com ele.
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29. Ele, então, respondeu ao pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos.
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30. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandaste matar um novilho gordo!
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31. Explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu.
 +
32. Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado.
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Capítulo 16
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1. Jesus disse também a seus discípulos: Havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens.
 +
2. Ele chamou o administrador e lhe disse: Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens.
 +
3. O administrador refletiu então consigo: Que farei, visto que meu patrão me tira o emprego? Lavrar a terra? Não o posso. Mendigar? Tenho vergonha.
 +
4. Já sei o que fazer, para que haja quem me receba em sua casa, quando eu for despedido do emprego.
 +
5. Chamou, pois, separadamente a cada um dos devedores de seu patrão e perguntou ao primeiro: Quanto deves a meu patrão?
 +
6. Ele respondeu: Cem medidas de azeite. Disse-lhe: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve: cinqüenta.
 +
7. Depois perguntou ao outro: Tu, quanto deves? Respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe o administrador: Toma os teus papéis e escreve: oitenta.
 +
8. E o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz no trato com seus semelhantes.
 +
9. Eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos.
 +
10. Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á também nas grandes.
 +
11. Se, pois, não tiverdes sido fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras?
 +
12. E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso?
 +
13. Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
 +
14. Ora, ouviam tudo isto os fariseus, que eram avarentos, e zombavam dele.
 +
15. Jesus disse-lhes: Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus vos conhece os corações; pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.
 +
16. A lei e os profetas duraram até João. Desde então é anunciado o Reino de Deus, e cada um faz violência para aí entrar.
 +
17. Mais facilmente, porém, passará o céu e a terra do que se perderá uma só letra da lei.
 +
18. Todo o que abandonar sua mulher e casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher rejeitada, comete adultério também.
 +
19. Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava.
 +
20. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico.
 +
21. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas.
 +
22. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado.
 +
23. E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro no seu seio.
 +
24. Gritou, então: - Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas.
 +
25. Abraão, porém, replicou: - Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento.
 +
26. Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que, os que querem passar daqui para vós, não o podem, nem os de lá passar para cá.
 +
27. O rico disse: - Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos,
 +
28. para lhes testemunhar, que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos.
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29. Abraão respondeu: - Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos!
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30. O rico replicou: - Não, pai Abraão; mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão.
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31. Abraão respondeu-lhe: - Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos.
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Capítulo 17
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1. Jesus disse também a seus discípulos: É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm!
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2. Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos.
 +
3. Se teu irmão pecar, repreende-o; se se arrepender, perdoa-lhe.
 +
4. Se pecar sete vezes no dia contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: Estou arrependido, perdoar-lhe-ás.
 +
5. Os apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta-nos a fé!
 +
6. Disse o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá.
 +
7. Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: Vem depressa sentar-te à mesa?
 +
8. E não lhe dirá ao contrário: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu?
 +
9. E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica-lhe o senhor devendo alguma obrigação?
 +
10. Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer.
 +
11. Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus passava pelos confins da Samaria e da Galiléia.
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12. Ao entrar numa aldeia, vieram-lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando:
 +
13. Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!
 +
14. Jesus viu-os e disse-lhes: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E quando eles iam andando, ficaram curados.
 +
15. Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz.
 +
16. Prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradecia. E era um samaritano.
 +
17. Jesus lhe disse: Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove?
 +
18. Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?!
 +
19. E acrescentou: Levanta-te e vai, tua fé te salvou.
 +
20. Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo.
 +
21. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.
 +
22. Mais tarde ele explicou aos discípulos: Virão dias em que desejareis ver um só dia o Filho do Homem, e não o vereis.
 +
23. Então vos dirão: Ei-lo aqui; e: Ei-lo ali. Não deveis sair nem os seguir.
 +
24. Pois como o relâmpago, reluzindo numa extremidade do céu, brilha até a outra, assim será com o Filho do Homem no seu dia.
 +
25. É necessário, porém, que primeiro ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.
 +
26. Como ocorreu nos dias de Noé, acontecerá do mesmo modo nos dias do Filho do Homem.
 +
27. Comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Veio o dilúvio e matou a todos.
 +
28. Também do mesmo modo como aconteceu nos dias de Lot. Os homens festejavam, compravam e vendiam, plantavam e edificavam.
 +
29. No dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou todos eles.
 +
30. Assim será no dia em que se manifestar o Filho do Homem.
 +
31. Naquele dia, quem estiver no terraço e tiver os seus bens em casa não desça para os tirar; da mesma forma, quem estiver no campo não torne atrás.
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32. Lembrai-vos da mulher de Lot.
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33. Todo o que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; mas todo o que a perder, encontrá-la-á.
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34. Digo-vos que naquela noite dois estarão numa cama: um será tomado e o outro será deixado;
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35. duas mulheres estarão moendo juntas: uma será tomada e a outra será deixada.
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36. Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado.
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37. Perguntaram-lhe os discípulos: Onde será isto, Senhor? Respondeu-lhes: Onde estiver o cadáver, ali se reunirão também as águias.
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Capítulo 18
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1. Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.
 +
2. Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma.
 +
3. Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com freqüência à sua presença para dizer-lhe: Faze-me justiça contra o meu adversário.
 +
4. Ele, porém, por muito tempo não o quis. Por fim, refletiu consigo: Eu não temo a Deus nem respeito os homens;
 +
5. todavia, porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar.
 +
6. Prosseguiu o Senhor: Ouvis o que diz este juiz injusto?
 +
7. Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los?
 +
8. Digo-vos que em breve lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?
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9. Jesus lhes disse ainda esta parábola a respeito de alguns que se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os outros:
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10. Subiram dois homens ao templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano.
 +
11. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali.
 +
12. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros.
 +
13. O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!
 +
14. Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.
 +
15. Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isto, os discípulos as repreendiam.
 +
16. Jesus, porém, chamou-as e disse: Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas.
 +
17. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará.
 +
18. Um homem de posição perguntou então a Jesus: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?
 +
19. Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.
 +
20. Conheces os mandamentos: não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; honrarás pai e mãe.
 +
21. Disse ele: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade.
 +
22. A estas palavras, Jesus lhe falou: Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.
 +
23. Ouvindo isto, ele se entristeceu, pois era muito rico.
 +
24. Vendo-o entristecer-se, disse Jesus: Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus!
 +
25. É mais fácil passar o camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.
 +
26. Perguntaram os ouvintes: Quem então poderá salvar-se?
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27. Respondeu Jesus: O que é impossível aos homens é possível a Deus.
 +
28. Pedro então disse: Vê, nós abandonamos tudo e te seguimos.
 +
29. Jesus respondeu: Em verdade vos declaro: ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos,
 +
30. que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna.
 +
31. Em seguida, Jesus tomou à parte os Doze e disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém. Tudo o que foi escrito pelos profetas a respeito do Filho do Homem será cumprido.
 +
32. Ele será entregue aos pagãos. Hão de escarnecer dele, ultrajá-lo, desprezá-lo;
 +
33. bater-lhe-ão com varas e o farão morrer; e ao terceiro dia ressurgirá.
 +
34. Mas eles nada disto compreendiam, e estas palavras eram-lhes um enigma cujo sentido não podiam entender.
 +
35. Ao aproximar-se Jesus de Jericó, estava um cego sentado à beira do caminho, pedindo esmolas.
 +
36. Ouvindo o ruído da multidão que passava, perguntou o que havia.
 +
37. Responderam-lhe: É Jesus de Nazaré, que passa.
 +
38. Ele então exclamou: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!
 +
39. Os que vinham na frente repreendiam-no rudemente para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais forte: Filho de Davi, tem piedade de mim!
 +
40. Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Chegando ele perto, perguntou-lhe:
 +
41. Que queres que te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu veja.
 +
42. Jesus lhe disse: Vê! Tua fé te salvou.
 +
43. E imediatamente ficou vendo e seguia a Jesus, glorificando a Deus. Presenciando isto, todo o povo deu glória a Deus.
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Capítulo 19
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 +
1. Jesus entrou em Jericó e ia atravessando a cidade.
 +
2. Havia aí um homem muito rico chamado Zaqueu, chefe dos recebedores de impostos.
 +
3. Ele procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia por causa da multidão, porque era de baixa estatura.
 +
4. Ele correu adiande, subiu a um sicômoro para o ver, quando ele passasse por ali.
 +
5. Chegando Jesus àquele lugar e levantando os olhos, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa.
 +
6. Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente.
 +
7. Vendo isto, todos murmuravam e diziam: Ele vai hospedar-se em casa de um pecador...
 +
8. Zaqueu, entretanto, de pé diante do Senhor, disse-lhe: Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo.
 +
9. Disse-lhe Jesus: Hoje entrou a salvação nesta casa, porquanto também este é filho de Abraão.
 +
10. Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.
 +
11. Ouviam-no falar. E como estava perto de Jerusalém, alguns se persuadiam de que o Reino de Deus se havia de manifestar brevemente; ele acrescentou esta parábola:
 +
12. Um homem ilustre foi para um país distante, a fim de ser investido da realeza e depois regressar.
 +
13. Chamou dez dos seus servos e deu-lhes dez minas, dizendo-lhes: Negociai até eu voltar.
 +
14. Mas os homens daquela região odiavam-no e enviaram atrás dele embaixadores, para protestarem: Não queremos que ele reine sobre nós.
 +
15. Quando, investido da dignidade real, voltou, mandou chamar os servos a quem confiara o dinheiro, a fim de saber quanto cada um tinha lucrado.
 +
16. Veio o primeiro: Senhor, a tua mina rendeu dez outras minas.
 +
17. Ele lhe disse: Muito bem, servo bom; porque foste fiel nas coisas pequenas, receberás o governo de dez cidades.
 +
18. Veio o segundo: Senhor, a tua mina rendeu cinco outras minas.
 +
19. Disse a este: Sê também tu governador de cinco cidades.
 +
20. Veio também o outro: Senhor, aqui tens a tua mina, que guardei embrulhada num lenço;
 +
21. pois tive medo de ti, por seres homem rigoroso, que tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste.
 +
22. Replicou-lhe ele: Servo mau, pelas tuas palavras te julgo. Sabias que sou rigoroso, que tiro o que não depositei e ceifo o que não semeei...
 +
23. Por que, pois, não puseste o meu dinheiro num banco? Na minha volta, eu o teria retirado com juros.
 +
24. E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem dez minas.
 +
25. Replicaram-lhe: Senhor, este já tem dez minas!...
 +
26. Eu vos declaro: a todo aquele que tiver, dar-se-lhe-á; mas, ao que não tiver, ser-lhe-á tirado até o que tem.
 +
27. Quanto aos que me odeiam, e que não me quiseram por rei, trazei-os e massacrai-os na minha presença.
 +
28. Depois destas palavras, Jesus os foi precedendo no caminho que sobe a Jerusalém.
 +
29. Chegando perto de Betfagé e de Betânia, junto do monte chamado das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos e disse-lhes:
 +
30. Ide a essa aldeia que está defronte de vós. Entrando nela, achareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma; desprendei-o e trazei-mo.
 +
31. Se alguém vos perguntar por que o soltais, responder-lhe-eis assim: O Senhor precisa dele.
 +
32. Partiram os dois discípulos e acharam tudo como Jesus tinha dito.
 +
33. Quando desprendiam o jumentinho, perguntaram-lhes seus donos: Por que fazeis isto?
 +
34. Eles responderam: O Senhor precisa dele.
 +
35. E trouxeram a Jesus o jumentinho, sobre o qual deitaram seus mantos e fizeram Jesus montar.
 +
36. À sua passagem, muitas pessoas estendiam seus mantos no caminho.
 +
37. Quando já se ia aproximando da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, tomada de alegria, começou a louvar a Deus em altas vozes, por todas as maravilhas que tinha visto.
 +
38. E dizia: Bendito o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto dos céus!
 +
39. Neste momento, alguns fariseus interpelaram a Jesus no meio da multidão: Mestre, repreende os teus discípulos.
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40. Ele respondeu: Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!
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41. Aproximando-se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo:
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42. Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos.
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43. Virão sobre ti dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados;
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44. destruir-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada.
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45. Em seguida, entrou no templo e começou a expulsar os mercadores.
 +
46. Disse ele: Está escrito: A minha casa é casa de oração! Mas vós a fizestes um covil de ladrões (Is 56,7; Jr 7,11).
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47. Todos os dias ensinava no templo. Os príncipes dos sacerdotes, porém, os escribas e os chefes do povo procuravam tirar-lhe a vida.
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48. Mas não sabiam como realizá-lo, porque todo o povo ficava suspenso de admiração, quando o ouvia falar.
 +
 
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Capítulo 20
 +
 
 +
1. Num daqueles dias, Jesus ensinava no templo e anunciava ao povo a boa nova. Chegaram os príncipes dos sacerdotes e os escribas com os anciãos,
 +
2. e falaram-lhe: Dize-nos: com que direito fazes essas coisas, ou quem é que te deu essa autoridade?
 +
3. Jesus respondeu: Também eu vos farei uma pergunta.
 +
4. Respondei-me: o batismo de João era do céu ou dos homens?
 +
5. Eles começaram a raciocinar entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, ele dirá: Por que razão, pois, não crestes nele?
 +
6. Se, porém, dissermos: Dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque está convencido de que João era profeta.
 +
7. Responderam por fim que não sabiam de onde era.
 +
8. Replicou-lhes também Jesus: Nem eu vos direi com que direito faço estas coisas.
 +
9. Então Jesus propôs-lhes esta parábola: Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a vinhateiros e ausentou-se por muito tempo para uma terra estranha.
 +
10. No tempo da colheita, enviou um servo aos vinhateiros para que lhe dessem do produto da vinha. Estes o feriram e o reenviaram de mãos vazias.
 +
11. Tornou a enviar outro servo; eles feriram também a este, ultrajaram-no e despediram-no sem coisa alguma.
 +
12. Tornou a enviar um terceiro; feriram também este e expulsaram-no.
 +
13. Disse então o senhor da vinha: Que farei? Mandarei meu filho amado; talvez o respeitem.
 +
14. Vendo-o, porém, os vinhateiros discorriam entre si e diziam: Este é o herdeiro; matemo-lo, para que se torne nossa a herança.
 +
15. E lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Que lhes fará, pois, o dono da vinha?
 +
16. Virá e exterminará estes vinhateiros e dará a vinha a outros. A estas palavras, disseram: Que Deus não o permita!
 +
17. Mas Jesus, fixando o olhar neles, disse-lhes: Que quer dizer então o que está escrito: A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular (Sl 117,22)?
 +
18. Todo o que cair sobre esta pedra ficará despedaçado; e sobre quem ela cair, este será esmagado!
 +
19. Naquela mesma hora os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuraram prendê-lo, mas temeram o povo. Tinham compreendido que se referia a eles ao propor essa parábola.
 +
20. Puseram-se então a observá-lo e mandaram espiões que se disfarçassem em homens de bem, para armar-lhe ciladas e surpreendê-lo no que dizia, a fim de o entregarem à autoridade e ao poder do governador.
 +
21. Perguntaram-lhe eles: Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão e que, sem fazer acepção de pessoa alguma, ensinas o caminho de Deus segundo a verdade.
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22. É-nos permitido pagar o imposto ao imperador ou não?
 +
23. Jesus percebeu a astúcia e respondeu-lhes:
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24. Mostrai-me um denário. De quem leva a imagem e a inscrição? Responderam: De César.
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25. Então lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
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26. Assim não puderam surpreendê-lo em nenhuma de suas palavras diante do povo. Pelo contrário, admirados da sua resposta, tiveram que calar-se.
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27. Alguns saduceus - que negam a ressurreição - aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe:
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28. Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se alguém morrer e deixar mulher, mas não deixar filhos, case-se com ela o irmão dele, e dê descendência a seu irmão.
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29. Ora, havia sete irmãos, o primeiro dos quais tomou uma mulher, mas morreu sem filhos.
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30. Casou-se com ela o segundo, mas também ele morreu sem filhos.
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31. Casou-se depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete, que morreram sem deixar filhos.
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32. Por fim, morreu também a mulher.
 +
33. Na ressurreição, de qual deles será a mulher? Porque os sete a tiveram por mulher.
 +
34. Jesus respondeu: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento,
 +
35. mas os que serão julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos não terão mulher nem marido.
 +
36. Eles jamais poderão morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, porque são ressuscitados.
 +
37. Por outra parte, que os mortos hão de ressuscitar é o que Moisés revelou na passagem da sarça ardente (Ex 3,6), chamando ao Senhor: Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó .
 +
38. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque todos vivem para ele.
 +
39. Alguns dos escribas disseram, então: Mestre, falaste bem.
 +
40. E já não se atreviam a fazer-lhe pergunta alguma.
 +
41. Jesus perguntou-lhes: Como se pode dizer que Cristo é filho de Davi?
 +
42. Pois o próprio Davi, no livro dos Salmos, diz: Disse o Senhor a meu Senhor: Senta-te à minha direita,
 +
43. até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés (Sl 109,1).
 +
44. Portanto, Davi o chama de Senhor! Como, pois, é ele seu filho?
 +
45. Enquanto todo o povo o ouvia, disse a seus discípulos:
 +
46. Guardai-vos dos escribas, que querem andar de roupas compridas e gostam das saudações nas praças públicas, das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares dos banquetes;
 +
47. que devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Eles receberão castigo mais rigoroso.
 +
 
 +
 +
Capítulo 21
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 +
1. Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam as suas ofertas no cofre do templo.
 +
2. Viu também uma viúva pobrezinha deitar duas pequeninas moedas,
 +
3. e disse: Em verdade vos digo: esta pobre viúva pôs mais do que os outros.
 +
4. Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra; esta, porém, deu, da sua indigência, tudo o que lhe restava para o sustento.
 +
5. Como lhe chamassem a atenção para a construção do templo feito de belas pedras e recamado de ricos donativos, Jesus disse:
 +
6. Dias virão em que destas coisas que vedes não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído.
 +
7. Então o interrogaram: Mestre, quando acontecerá isso? E que sinal haverá para saber-se que isso se vai cumprir?
 +
8. Jesus respondeu: Vede que não sejais enganados. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e ainda: O tempo está próximo. Não sigais após eles.
 +
9. Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos, não vos assusteis; porque é necessário que isso aconteça primeiro, mas não virá logo o fim.
 +
10. Disse-lhes também: Levantar-se-ão nação contra nação e reino contra reino.
 +
11. Haverá grandes terremotos por várias partes, fomes e pestes, e aparecerão fenômenos espantosos no céu.
 +
12. Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim.
 +
13. Isto vos acontecerá para que vos sirva de testemunho.
 +
14. Gravai bem no vosso espírito de não preparar vossa defesa,
 +
15. porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários.
 +
16. Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós.
 +
17. Sereis odiados por todos por causa do meu nome.
 +
18. Entretanto, não se perderá um só cabelo da vossa cabeça.
 +
19. É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação.
 +
20. Quando virdes que Jerusalém foi sitiada por exércitos, então sabereis que está próxima a sua ruína.
 +
21. Os que então se acharem na Judéia fujam para os montes; os que estiverem dentro da cidade retirem-se; os que estiverem nos campos não entrem na cidade.
 +
22. Porque estes serão dias de castigo, para que se cumpra tudo o que está escrito.
 +
23. Ai das mulheres que, naqueles dias, estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia na terra e grande ira contra o povo.
 +
24. Cairão ao fio de espada e serão levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos pagãos, até se completarem os tempos das nações pagãs.
 +
25. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas.
 +
26. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas.
 +
27. Então verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade.
 +
28. Quando começarem a acontecer estas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação.
 +
29. Acrescentou ainda esta comparação: Olhai para a figueira e para as demais árvores.
 +
30. Quando elas lançam os brotos, vós julgais que está perto o verão.
 +
31. Assim também, quando virdes que vão sucedendo estas coisas, sabereis que está perto o Reino de Deus.
 +
32. Em verdade vos declaro: não passará esta geração sem que tudo isto se cumpra.
 +
33. Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.
 +
34. Velai sobre vós mesmos, para que os vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida; para que aquele dia não vos apanhe de improviso.
 +
35. Como um laço cairá sobre aqueles que habitam a face de toda a terra.
 +
36. Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem.
 +
37. Durante o dia Jesus ensinava no templo e, à tarde, saía para passar a noite no monte chamado das Oliveiras.
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38. E todo o povo ia de manhã cedo ter com ele, no templo, para ouvi-lo.
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Capítulo 22
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1. Aproximava-se a festa dos pães sem fermento, chamada Páscoa.
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2. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas buscavam um meio de matar Jesus, mas temiam o povo.
 +
3. Entretanto, Satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, um dos Doze.
 +
4. Judas foi procurar os príncipes dos sacerdotes e os oficiais para se entender com eles sobre o modo de lho entregar.
 +
5. Eles se alegraram com isso, e concordaram em lhe dar dinheiro.
 +
6. Também ele se obrigou. E buscava ocasião oportuna para o trair, sem que a multidão o soubesse.
 +
7. Raiou o dia dos pães sem fermento, em que se devia imolar a Páscoa.
 +
8. Jesus enviou Pedro e João, dizendo: Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa.
 +
9. Perguntaram-lhe eles: Onde queres que a preparemos?
 +
10. Ele respondeu: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem carregando uma bilha de água; segui-o até a casa em que ele entrar,
 +
11. e direis ao dono da casa: O Mestre pergunta-te: Onde está a sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos?
 +
12. Ele vos mostrará no andar superior uma grande sala mobiliada, e ali fazei os preparativos.
 +
13. Foram, pois, e acharam tudo como Jesus lhes dissera; e prepararam a Páscoa.
 +
14. Chegada que foi a hora, Jesus pôs-se à mesa, e com ele os apóstolos.
 +
15. Disse-lhes: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer.
 +
16. Pois vos digo: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.
 +
17. Pegando o cálice, deu graças e disse: Tomai este cálice e distribuí-o entre vós.
 +
18. Pois vos digo: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus.
 +
19. Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.
 +
20. Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...
 +
21. Entretanto, eis que a mão de quem me trai está à mesa comigo.
 +
22. O Filho do Homem vai, segundo o que está determinado, mas ai daquele homem por quem ele é traído!
 +
23. Perguntavam então os discípulos entre si quem deles seria o que tal haveria de fazer.
 +
24. Surgiu também entre eles uma discussão: qual deles seria o maior.
 +
25. E Jesus disse-lhes: Os reis dos pagãos dominam como senhores, e os que exercem sobre eles autoridade chamam-se benfeitores.
 +
26. Que não seja assim entre vós; mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo.
 +
27. Pois qual é o maior: o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é aquele que está sentado à mesa? Todavia, eu estou no meio de vós, como aquele que serve.
 +
28. E vós tendes permanecido comigo nas minhas provações;
 +
29. eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como meu Pai o dispôs a meu favor,
 +
30. para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino e vos senteis em tronos, para julgar as doze tribos de Israel.
 +
31. Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo;
 +
32. mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.
 +
33. Pedro disse-lhe: Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte.
 +
34. Jesus respondeu-lhe: Digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo, até que três vezes hajas negado que me conheces.
 +
35. Depois ajuntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada.
 +
36. Mas agora, disse-lhes ele, aquele que tem uma bolsa, tome-a; aquele que tem uma mochila, tome-a igualmente; e aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma.
 +
37. Pois vos digo: é necessário que se cumpra em mim ainda este oráculo: E foi contado entre os malfeitores (Is 53,12). Com efeito, aquilo que me diz respeito está próximo de se cumprir.
 +
38. Eles replicaram: Senhor, eis aqui duas espadas. Basta, respondeu ele.
 +
39. Conforme o seu costume, Jesus saiu dali e dirigiu-se para o monte das Oliveiras, seguido dos seus discípulos.
 +
40. Ao chegar àquele lugar, disse-lhes: Orai para que não caiais em tentação.
 +
41. Depois se afastou deles à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-se, orava:
 +
42. Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua.
 +
43. Apareceu-lhe então um anjo do céu para confortá-lo.
 +
44. Ele entrou em agonia e orava ainda com mais instância, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra.
 +
45. Depois de ter rezado, levantou-se, foi ter com os discípulos e achou-os adormecidos de tristeza.
 +
46. Disse-lhes: Por que dormis? Levantai-vos, orai, para não cairdes em tentação.
 +
47. Ele ainda falava, quando apareceu uma multidão de gente; e à testa deles vinha um dos Doze, que se chamava Judas. Achegou-se de Jesus para o beijar.
 +
48. Jesus perguntou-lhe: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem!
 +
49. Os que estavam ao redor dele, vendo o que ia acontecer, perguntaram: Senhor, devemos atacá-los à espada?
 +
50. E um deles feriu o servo do príncipe dos sacerdotes, decepando-lhe a orelha direita.
 +
51. Mas Jesus interveio: Deixai, basta. E, tocando na orelha daquele homem, curou-o.
 +
52. Voltando-se para os príncipes dos sacerdotes, para os oficiais do templo e para os anciãos que tinham vindo contra ele, disse-lhes: Saístes armados de espadas e cacetes, como se viésseis contra um ladrão.
 +
53. Entretanto, eu estava todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim; mas esta é a vossa hora e do poder das trevas.
 +
54. Prenderam-no então e conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes. Pedro seguia-o de longe.
 +
55. Acenderam um fogo no meio do pátio, e sentaram-se em redor. Pedro veio sentar-se com eles.
 +
56. Uma criada percebeu-o sentado junto ao fogo, encarou-o de perto e disse: Também este homem estava com ele.
 +
57. Mas ele negou-o: Mulher, não o conheço.
 +
58. Pouco depois, viu-o outro e disse-lhe: Também tu és um deles. Pedro respondeu: Não, eu não o sou.
 +
59. Passada quase uma hora, afirmava um outro: Certamente também este homem estava com ele, pois também é galileu.
 +
60. Mas Pedro disse: Meu amigo, não sei o que queres dizer. E no mesmo instante, quando ainda falava, cantou o galo.
 +
61. Voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra do Senhor: Hoje, antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes.
 +
62. Saiu dali e chorou amargamente.
 +
63. Entretanto, os homens que guardavam Jesus escarneciam dele e davam-lhe bofetadas.
 +
64. Cobriam-lhe o rosto e diziam: Adivinha quem te bateu!
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65. E injuriavam-no ainda de outros modos.
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66. Ao amanhecer, reuniram-se os anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas, e mandaram trazer Jesus ao seu conselho.
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67. Perguntaram-lhe: Dize-nos se és o Cristo! Respondeu-lhes ele: Se eu vo-lo disser, não me acreditareis;
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68. e se vos fizer qualquer pergunta, não me respondereis.
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69. Mas, doravante, o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus.
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70. Então perguntaram todos: Logo, tu és o Filho de Deus? Respondeu: Sim, eu sou.
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71. Eles então exclamaram: Temos nós ainda necessidade de testemunho? Nós mesmos o ouvimos da sua boca.
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Capítulo 23
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1. Levantou-se a sessão e conduziram Jesus diante de Pilatos,
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2. e puseram-se a acusá-lo: Temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei.
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3. Pilatos perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? Jesus respondeu: Sim.
 +
4. Declarou Pilatos aos príncipes dos sacerdotes e ao povo: Eu não acho neste homem culpa alguma.
 +
5. Mas eles insistiam fortemente: Ele revoluciona o povo ensinando por toda a Judéia, a começar da Galiléia até aqui.
 +
6. A estas palavras, Pilatos perguntou se ele era galileu.
 +
7. E, quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, pois justamente naqueles dias se achava em Jerusalém.
 +
8. Herodes alegrou-se muito em ver Jesus, pois de longo tempo desejava vê-lo, por ter ouvido falar dele muitas coisas, e esperava presenciar algum milagre operado por ele.
 +
9. Dirigiu-lhe muitas perguntas, mas Jesus nada respondeu.
 +
10. Ali estavam os príncipes dos sacerdotes e os escribas, acusando-o com violência.
 +
11. Herodes, com a sua guarda, tratou-o com desprezo, escarneceu dele, mandou revesti-lo de uma túnica branca e reenviou-o a Pilatos.
 +
12. Naquele mesmo dia, Pilatos e Herodes fizeram as pazes, pois antes eram inimigos um do outro.
 +
13. Pilatos convocou então os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, e disse-lhes:
 +
14. Apresentastes-me este homem como agitador do povo, mas, interrogando-o eu diante de vós, não o achei culpado de nenhum dos crimes de que o acusais.
 +
15. Nem tampouco Herodes, pois no-lo devolveu. Portanto, ele nada fez que mereça a morte.
 +
16. Por isso, soltá-lo-ei depois de o castigar.
 +
17. [Acontecia que em cada festa ele era obrigado a soltar-lhes um preso.]
 +
18. Todo o povo gritou a uma voz: À morte com este, e solta-nos Barrabás.
 +
19. (Este homem fora lançado ao cárcere devido a uma revolta levantada na cidade, por causa de um homicídio.)
 +
20. Pilatos, porém, querendo soltar Jesus, falou-lhes de novo,
 +
21. mas eles vociferavam: Crucifica-o! Crucifica-o!
 +
22. Pela terceira vez, Pilatos ainda interveio: Mas que mal fez ele, então? Não achei nele nada que mereça a morte; irei, portanto, castigá-lo e, depois, o soltarei.
 +
23. Mas eles instavam, reclamando em altas vozes que fosse crucificado, e os seus clamores recrudesciam.
 +
24. Pilatos pronunciou então a sentença que lhes satisfazia o desejo.
 +
25. Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta, e entregou Jesus à vontade deles.
 +
26. Enquanto o conduziam, detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus.
 +
27. Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam.
 +
28. Voltando-se para elas, Jesus disse: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.
 +
29. Porque virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram!
 +
30. Então dirão aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos!
 +
31. Porque, se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?
 +
32. Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus.
 +
33. Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda.
 +
34. E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam.
 +
35. A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!
 +
36. Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:
 +
37. Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
 +
38. Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.
 +
39. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!
 +
40. Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?
 +
41. Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.
 +
42. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!
 +
43. Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.
 +
44. Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona.
 +
45. Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio.
 +
46. Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.
 +
47. Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: Na verdade, este homem era um justo.
 +
48. E toda a multidão dos que assistiam a este espetáculo e viam o que se passava, voltou batendo no peito.
 +
49. Os amigos de Jesus, como também as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia, conservavam-se a certa distância, e observavam estas coisas.
 +
50. Havia um homem, por nome José, membro do conselho, homem reto e justo.
 +
51. Ele não havia concordado com a decisão dos outros nem com os atos deles. Originário de Arimatéia, cidade da Judéia, esperava ele o Reino de Deus.
 +
52. Foi ter com Pilatos e lhe pediu o corpo de Jesus.
 +
53. Ele o desceu da cruz, envolveu-o num pano de linho e colocou-o num sepulcro, escavado na rocha, onde ainda ninguém havia sido depositado.
 +
54. Era o dia da Preparação e já ia principiar o sábado.
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55. As mulheres, que tinham vindo com Jesus da Galiléia, acompanharam José. Elas viram o túmulo e o modo como o corpo de Jesus ali fora depositado.
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56. Elas voltaram e prepararam aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito do repouso.
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Capítulo 24
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1. No primeiro dia da semana, muito cedo, dirigiram-se ao sepulcro com os aromas que haviam preparado.
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2. Acharam a pedra removida longe da abertura do sepulcro.
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3. Entraram, mas não encontraram o corpo do Senhor Jesus.
 +
4. Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente delas dois personagens com vestes resplandecentes.
 +
5. Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, disseram-lhes eles: Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo?
 +
6. Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como ele vos disse, quando ainda estava na Galiléia:
 +
7. O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores e crucificado, mas ressuscitará ao terceiro dia.
 +
8. Então elas se lembraram das palavras de Jesus.
 +
9. Voltando do sepulcro, contaram tudo isso aos Onze e a todos os demais.
 +
10. Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa.
 +
11. Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito.
 +
12. Contudo, Pedro correu ao sepulcro; inclinando-se para olhar, viu só os panos de linho na terra. Depois, retirou-se para a sua casa, admirado do que acontecera.
 +
13. Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios.
 +
14. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado.
 +
15. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles.
 +
16. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram.
 +
17. Perguntou-lhes, então: De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?
 +
18. Um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: És tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias?
 +
19. Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré... Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo.
 +
20. Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram.
 +
21. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam.
 +
22. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos alarmaram. Elas foram ao sepulcro, antes do nascer do sol;
 +
23. e não tendo achado o seu corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que está vivo.
 +
24. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a ele mesmo não viram.
 +
25. Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas!
 +
26. Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?
 +
27. E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras.
 +
28. Aproximaram-se da aldeia para onde iam e ele fez como se quisesse passar adiante.
 +
29. Mas eles forçaram-no a parar: Fica conosco, já é tarde e já declina o dia. Entrou então com eles.
 +
30. Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho.
 +
31. Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu.
 +
32. Diziam então um para o outro: Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?
 +
33. Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam.
 +
34. Todos diziam: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão.
 +
35. Eles, por sua parte, contaram o que lhes havia acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão.
 +
36. Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco!
 +
37. Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito.
 +
38. Mas ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações?
 +
39. Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho.
 +
40. E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés.
 +
41. Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: Tendes aqui alguma coisa para comer?
 +
42. Então ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado.
 +
43. Ele tomou e comeu à vista deles.
 +
44. Depois lhes disse: Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos.
 +
45. Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras, dizendo:
 +
46. Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia.
 +
47. E que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
 +
48. Vós sois as testemunhas de tudo isso.
 +
49. Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto.
 +
50. Depois os levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou.
 +
51. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu.
 +
52. Depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém com grande júbilo.
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53. E permaneciam no templo, louvando e bendizendo a Deus.
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 +
=====Jo. - Evangelho segundo João=====
 +
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Capítulo 1
 +
 
 +
1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
 +
2. Ele estava no princípio junto de Deus.
 +
3. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.
 +
4. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.
 +
5. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
 +
6. Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
 +
7. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
 +
8. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
 +
9. [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.
 +
10. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.
 +
11. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
 +
12. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,
 +
13. os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.
 +
14. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.
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15. João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim.
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16. Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça.
 +
17. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.
 +
18. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.
 +
19. Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu?
 +
20. Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo.
 +
21. Pois, então, quem és?, perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não.
 +
22. Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?
 +
23. Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías (40,3).
 +
24. Alguns dos emissários eram fariseus.
 +
25. Continuaram a perguntar-lhe: Como, pois, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?
 +
26. João respondeu: Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis.
 +
27. Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado.
 +
28. Este diálogo se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando.
 +
29. No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
 +
30. É este de quem eu disse: Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim.
 +
31. Eu não o conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que ele se torne conhecido em Israel.
 +
32. (João havia declarado: Vi o Espírito descer do céu em forma de uma pomba e repousar sobre ele.)
 +
33. Eu não o conhecia, mas aquele que me mandou batizar em água disse-me: Sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo.
 +
34. Eu o vi e dou testemunho de que ele é o Filho de Deus.
 +
35. No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos.
 +
36. E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus.
 +
37. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus.
 +
38. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
 +
39. Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima.
 +
40. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido.
 +
41. Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).
 +
42. Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).
 +
43. No dia seguinte, tinha Jesus a intenção de dirigir-se à Galiléia. Encontra Filipe e diz-lhe: Segue-me.
 +
44. (Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro.)
 +
45. Filipe encontra Natanael e diz-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei e que os profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José.
 +
46. Respondeu-lhe Natanael: Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré? Filipe retrucou: Vem e vê.
 +
47. Jesus vê Natanael, que lhe vem ao encontro, e diz: Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade.
 +
48. Natanael pergunta-lhe: Donde me conheces? Respondeu Jesus: Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas debaixo da figueira.
 +
49. Falou-lhe Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel.
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50. Jesus replicou-lhe: Porque eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês! Verás coisas maiores do que esta.
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51. E ajuntou: Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
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Capítulo 2
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1. Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus.
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2. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.
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3. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.
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4. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.
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5. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser.
 +
6. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas.
 +
7. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima.
 +
8. Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram.
 +
9. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo
 +
10. e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora.
 +
11. Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.
 +
12. Depois disso, desceu para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ali só demoraram poucos dias.
 +
13. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
 +
14. Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas.
 +
15. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas.
 +
16. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.
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17. Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10).
 +
18. Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?
 +
19. Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias.
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20. Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!
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21. Mas ele falava do templo do seu corpo.
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22. Depois que ressurgiu dos mortos, os seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na palavra de Jesus.
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23. Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia.
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24. Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos.
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25. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem.
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Capítulo 3
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1. Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
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2. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele.
 +
3. Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.
 +
4. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?
 +
5. Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus.
 +
6. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.
 +
7. Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo.
 +
8. O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito.
 +
9. Replicou Nicodemos: Como se pode fazer isso?
 +
10. Disse Jesus: És doutor em Israel e ignoras estas coisas!...
 +
11. Em verdade, em verdade te digo: dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis o nosso testemunho.
 +
12. Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me credes, como crereis se vos falar das celestiais?
 +
13. Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu.
 +
14. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem,
 +
15. para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna.
 +
16. Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.
 +
17. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele.
 +
18. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do Filho único de Deus.
 +
19. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más.
 +
20. Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
 +
21. Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus.
 +
22. Em seguida, foi Jesus com os seus discípulos para os campos da Judéia, e ali se deteve com eles, e batizava.
 +
23. Também João batizava em Enon, perto de Salim, porque havia ali muita água, e muitos vinham e eram batizados.
 +
24. Pois João ainda não tinha sido lançado no cárcere.
 +
25. Ora, surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, a respeito da purificação.
 +
26. Foram e disseram-lhe: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, de quem tu deste testemunho, ei-lo que está batizando e todos vão ter com ele...
 +
27. João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu.
 +
28. Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas fui enviado diante dele.
 +
29. Aquele que tem a esposa é o esposo. O amigo do esposo, porém, que está presente e o ouve, regozija-se sobremodo com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa.
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30. Importa que ele cresça e que eu diminua.
 +
31. Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do céu é superior a todos.
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32. Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe o seu testemunho.
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33. Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro.
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34. Com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas.
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35. O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas.
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36. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus.
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Capítulo 4
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1. O Senhor soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele recrutava e batizava mais discípulos que João
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2. (se bem que não era Jesus quem batizava, mas os seus discípulos).
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3. Deixou a Judéia e voltou para a Galiléia.
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4. Ora, devia passar por Samaria.
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5. Chegou, pois, a uma localidade da Samaria, chamada Sicar, junto das terras que Jacó dera a seu filho José.
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6. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia.
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7. Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber.
 +
8. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.)
 +
9. Aquela samaritana lhe disse: Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!... (Pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos.)
 +
10. Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva.
 +
11. A mulher lhe replicou: Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo... donde tens, pois, essa água viva?
 +
12. És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos?
 +
13. Respondeu-lhe Jesus: Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede,
 +
14. mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna.
 +
15. A mulher suplicou: Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!
 +
16. Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e volta cá.
 +
17. A mulher respondeu: Não tenho marido. Disse Jesus: Tens razão em dizer que não tens marido.
 +
18. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisto disseste a verdade.
 +
19. Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que és profeta!...
 +
20. Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar.
 +
21. Jesus respondeu: Mulher, acredita-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém.
 +
22. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
 +
23. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.
 +
24. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade.
 +
25. Respondeu a mulher: Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas.
 +
26. Disse-lhe Jesus: Sou eu, quem fala contigo.
 +
27. Nisso seus discípulos chegaram e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher. Ninguém, todavia, perguntou: Que perguntas? Ou: Que falas com ela?
 +
28. A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens:
 +
29. Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito. Não seria ele, porventura, o Cristo?
 +
30. Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
 +
31. Entretanto, os discípulos lhe pediam: Mestre, come.
 +
32. Mas ele lhes disse: Tenho um alimento para comer que vós não conheceis.
 +
33. Os discípulos perguntavam uns aos outros: Alguém lhe teria trazido de comer?
 +
34. Disse-lhes Jesus: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra.
 +
35. Não dizeis vós que ainda há quatro meses e vem a colheita? Eis que vos digo: levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa.
 +
36. O que ceifa recebe o salário e ajunta fruto para a vida eterna; assim o semeador e o ceifador juntamente se regozijarão.
 +
37. Porque eis que se pode dizer com toda verdade: Um é o que semeia outro é o que ceifa.
 +
38. Enviei-vos a ceifar onde não tendes trabalhado; outros trabalharam, e vós entrastes nos seus trabalhos.
 +
39. Muitos foram os samaritanos daquela cidade que creram nele por causa da palavra da mulher, que lhes declarara: Ele me disse tudo quanto tenho feito.
 +
40. Assim, quando os samaritanos foram ter com ele, pediram que ficasse com eles. Ele permaneceu ali dois dias.
 +
41. Ainda muitos outros creram nele por causa das suas palavras.
 +
42. E diziam à mulher: Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo.
 +
43. Passados os dois dias, Jesus partiu para a Galiléia.
 +
44. (Ele mesmo havia declarado que um profeta não é honrado na sua pátria.)
 +
45. Chegando à Galiléia, acolheram-no os galileus, porque tinham visto tudo o que fizera durante a festa em Jerusalém; pois também eles tinham ido à festa.
 +
46. Ele voltou, pois, a Caná da Galiléia, onde transformara água em vinho. Havia então em Cafarnaum um oficial do rei, cujo filho estava doente.
 +
47. Ao ouvir que Jesus vinha da Judéia para a Galiléia, foi a ele e rogou-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava prestes a morrer.
 +
48. Disse-lhe Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não credes...
 +
49. Pediu-lhe o oficial: Senhor, desce antes que meu filho morra!
 +
50. Vai, disse-lhe Jesus, o teu filho está passando bem! O homem acreditou na palavra de Jesus e partiu.
 +
51. Enquanto ia descendo, os criados vieram-lhe ao encontro e lhe disseram: Teu filho está passando bem.
 +
52. Indagou então deles a hora em que se sentira melhor. Responderam-lhe: Ontem à sétima hora a febre o deixou.
 +
53. Reconheceu o pai ser a mesma hora em que Jesus dissera: Teu filho está passando bem. E creu tanto ele como toda a sua casa.
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54. Esse foi o segundo milagre que Jesus fez, depois de voltar da Judéia para a Galiléia.
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Capítulo 5
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1. Depois disso, houve uma festa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
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2. Há em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, que tem cinco pórticos.
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3. Nestes pórticos jazia um grande número de enfermos, de cegos, de coxos e de paralíticos, que esperavam o movimento da água.
 +
4. [Pois de tempos em tempos um anjo do Senhor descia ao tanque e a água se punha em movimento. E o primeiro que entrasse no tanque, depois da agitação da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse.]
 +
5. Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos.
 +
6. Vendo-o deitado e sabendo que já havia muito tempo que estava enfermo, perguntou-lhe Jesus: Queres ficar curado?
 +
7. O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; enquanto vou, já outro desceu antes de mim.
 +
8. Ordenou-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda.
 +
9. No mesmo instante, aquele homem ficou curado, tomou o seu leito e foi andando. Ora, aquele dia era sábado.
 +
10. E os judeus diziam ao homem curado: E sábado, não te é permitido carregar o teu leito.
 +
11. Respondeu-lhes ele: Aquele que me curou disse: Toma o teu leito e anda.
 +
12. Perguntaram-lhe eles: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?
 +
13. O que havia sido curado, porém, não sabia quem era, porque Jesus se havia retirado da multidão que estava naquele lugar.
 +
14. Mais tarde, Jesus o achou no templo e lhe disse: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior.
 +
15. Aquele homem foi então contar aos judeus que fora Jesus quem o havia curado.
 +
16. Por esse motivo, os judeus perseguiam Jesus, porque fazia esses milagres no dia de sábado.
 +
17. Mas ele lhes disse: Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também.
 +
18. Por esta razão os judeus, com maior ardor, procuravam tirar-lhe a vida, porque não somente violava o repouso do sábado, mas afirmava ainda que Deus era seu Pai e se fazia igual a Deus.
 +
19. Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: o Filho de si mesmo não pode fazer coisa alguma; ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, o faz também semelhantemente o Filho.
 +
20. Pois o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz; e maiores obras do que esta lhe mostrará, para que fiqueis admirados.
 +
21. Com efeito, como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer.
 +
22. Assim também o Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho.
 +
23. Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que o enviou.
 +
24. Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida.
 +
25. Em verdade, em verdade vos digo: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão.
 +
26. Pois como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho o ter a vida em si mesmo,
 +
27. e lhe conferiu o poder de julgar, porque é o Filho do Homem.
 +
28. Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de sua voz:
 +
29. os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados.
 +
30. De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.
 +
31. Se eu der testemunho de mim mesmo, não é digno de fé o meu testemunho.
 +
32. Há outro que dá testemunho de mim, e sei que é digno de fé o testemunho que dá de mim.
 +
33. Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
 +
34. Não invoco, porém, o testemunho de homem algum. Digo-vos essas coisas, a fim de que sejais salvos.
 +
35. João era uma lâmpada que arde e ilumina; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz.
 +
36. Mas tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que meu Pai me deu para executar - essas mesmas obras que faço - testemunham a meu respeito que o Pai me enviou.
 +
37. E o Pai que me enviou, ele mesmo deu testemunho de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz nem vistes a sua face...
 +
38. e não tendes a sua palavra permanente em vós, pois não credes naquele que ele enviou.
 +
39. Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim.
 +
40. E vós não quereis vir a mim para que tenhais a vida...
 +
41. Não espero a minha glória dos homens,
 +
42. mas sei que não tendes em vós o amor de Deus.
 +
43. Vim em nome de meu Pai, mas não me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebê-lo...
 +
44. Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a glória que é só de Deus?
 +
45. Não julgueis que vos hei de acusar diante do Pai; há quem vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança.
 +
46. Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em mim, porque ele escreveu a meu respeito.
 +
47. Mas, se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis nas minhas palavras?
 +
 
 +
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Capítulo 6
 +
 
 +
1. Depois disso, atravessou Jesus o lago da Galiléia (que é o de Tiberíades.)
 +
2. Seguia-o uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos.
 +
3. Jesus subiu a um monte e ali se sentou com seus discípulos.
 +
4. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus.
 +
5. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com ele e disse a Filipe: Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?
 +
6. Falava assim para o experimentar, pois bem sabia o que havia de fazer.
 +
7. Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pedaço.
 +
8. Um dos seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe:
 +
9. Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente?
 +
10. Disse Jesus: Fazei-os assentar. Ora, havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se aqueles homens em número de uns cinco mil.
 +
11. Jesus tomou os pães e rendeu graças. Em seguida, distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes lhes deu quanto queriam.
 +
12. Estando eles saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.
 +
13. Eles os recolheram e, dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram, encheram doze cestos.
 +
14. À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo.
 +
15. Jesus, percebendo que queriam arrebatá-lo e fazê-lo rei, tornou a retirar-se sozinho para o monte.
 +
16. Chegada a tarde, os seus discípulos desceram à margem do lago.
 +
17. Subindo a uma barca, atravessaram o lago rumo a Cafarnaum. Era já escuro, e Jesus ainda não se tinha reunido a eles.
 +
18. O mar, entretanto, se agitava, porque soprava um vento rijo.
 +
19. Tendo eles remado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram Jesus que se aproximava da barca, andando sobre as águas, e ficaram atemorizados.
 +
20. Mas ele lhes disse: Sou eu, não temais.
 +
21. Quiseram recebê-lo na barca, mas pouco depois a barca chegou ao seu destino.
 +
22. No dia seguinte, a multidão que tinha ficado do outro lado do mar percebeu que Jesus não tinha subido com seus discípulos na única barca que lá estava, mas que eles tinham partido sozinhos.
 +
23. Nesse meio tempo, outras barcas chegaram de Tiberíades, perto do lugar onde tinham comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças.
 +
24. E, reparando a multidão que nem Jesus nem os seus discípulos estavam ali, entrou nas barcas e foi até Cafarnaum à sua procura.
 +
25. Encontrando-o na outra margem do lago, perguntaram-lhe: Mestre, quando chegaste aqui?
 +
26. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos.
 +
27. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu o seu sinal.
 +
28. Perguntaram-lhe: Que faremos para praticar as obras de Deus?
 +
29. Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou.
 +
30. Perguntaram eles: Que milagre fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Qual é a tua obra?
 +
31. Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Deu-lhes de comer o pão vindo do céu (Sl 77,24).
 +
32. Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu;
 +
33. porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo.
 +
34. Disseram-lhe: Senhor, dá-nos sempre deste pão!
 +
35. Jesus replicou: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede.
 +
36. Mas já vos disse: Vós me vedes e não credes...
 +
37. Todo aquele que o Pai me dá virá a mim, e o que vem a mim não o lançarei fora.
 +
38. Pois desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.
 +
39. Ora, esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles que me deu, mas que os ressuscite no último dia.
 +
40. Esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.
 +
41. Murmuravam então dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu.
 +
42. E perguntavam: Porventura não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?
 +
43. Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós.
 +
44. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu hei de ressuscitá-lo no último dia.
 +
45. Está escrito nos profetas: Todos serão ensinados por Deus (Is 54,13). Assim, todo aquele que ouviu o Pai e foi por ele instruído vem a mim.
 +
46. Não que alguém tenha visto o Pai, pois só aquele que vem de Deus, esse é que viu o Pai.
 +
47. Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna.
 +
48. Eu sou o pão da vida.
 +
49. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram.
 +
50. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer.
 +
51. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.
 +
52. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?
 +
53. Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos.
 +
54. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.
 +
55. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
 +
56. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.
 +
57. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.
 +
58. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.
 +
59. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de Cafarnaum.
 +
60. Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Isto é muito duro! Quem o pode admitir?
 +
61. Sabendo Jesus que os discípulos murmuravam por isso, perguntou-lhes: Isso vos escandaliza?
 +
62. Que será, quando virdes subir o Filho do Homem para onde ele estava antes?...
 +
63. O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida.
 +
64. Mas há alguns entre vós que não crêem... Pois desde o princípio Jesus sabia quais eram os que não criam e quem o havia de trair.
 +
65. Ele prosseguiu: Por isso vos disse: Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lho for concedido.
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66. Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele.
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67. Então Jesus perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos?
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68. Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.
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69. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus!
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70. Jesus acrescentou: Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!...
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71. Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, porque era quem o havia de entregar não obstante ser um dos Doze.
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Capítulo 7
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1. Depois disso, Jesus percorria a Galiléia. Ele não queria deter-se na Judéia, porque os judeus procuravam tirar-lhe a vida.
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2. Aproximava-se a festa dos judeus chamada dos Tabernáculos.
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3. Seus irmãos disseram-lhe: Parte daqui e vai para a Judéia, a fim de que também os teus discípulos vejam as obras que fazes.
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4. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-te ao mundo.
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5. Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele.
 +
6. Disse-lhes Jesus: O meu tempo ainda não chegou, mas para vós a hora é sempre favorável.
 +
7. O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me, porque eu testemunho contra ele que as suas obras são más.
 +
8. Subi vós para a festa. Quanto a mim, eu não irei, porque ainda não chegou o meu tempo.
 +
9. Dito isto, permaneceu na Galiléia.
 +
10. Mas quando os seus irmãos tinham subido, então subiu também ele à festa, não em público, mas despercebidamente.
 +
11. Buscavam-no os judeus durante a festa e perguntavam: Onde está ele?
 +
12. E na multidão só se discutia a respeito dele. Uns diziam: É homem de bem. Outros, porém, diziam: Não é; ele seduz o povo.
 +
13. Ninguém, contudo, ousava falar dele livremente com medo dos judeus.
 +
14. Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao templo e pôs-se a ensinar.
 +
15. Os judeus se admiravam e diziam: Este homem não fez estudos. Donde lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?
 +
16. Respondeu-lhes Jesus: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.
 +
17. Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se a minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo.
 +
18. Quem fala por própria autoridade busca a própria glória, mas quem procura a glória de quem o enviou é digno de fé e nele não há impostura alguma.
 +
19. Acaso não foi Moisés quem vos deu a lei? No entanto, ninguém de vós cumpre a lei!...
 +
20. Por que procurais tirar-me a vida? Respondeu o povo: Tens um demônio! Quem procura tirar-te a vida?
 +
21. Replicou Jesus: Fiz uma só obra, e todos vós vos maravilhais!
 +
22. Moisés vos deu a circuncisão (se bem que ela não é de Moisés, mas dos patriarcas), e até no sábado circuncidais um homem!
 +
23. Se um homem recebe a circuncisão em dia de sábado, e isso sem violar a Lei de Moisés, por que vos indignais comigo, que tenho curado um homem em todo o seu corpo em dia de sábado?
 +
24. Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça.
 +
25. Algumas das pessoas de Jerusalém diziam: Não é este aquele a quem procuram tirar a vida?
 +
26. Todavia, ei-lo que fala em público e não lhe dizem coisa alguma. Porventura reconheceram de fato as autoridades que ele é o Cristo?
 +
27. Mas este nós sabemos de onde vem. Do Cristo, porém, quando vier, ninguém saberá de onde seja.
 +
28. Enquanto ensinava no templo, Jesus exclamou: Ah! Vós me conheceis e sabeis de onde eu sou!... Entretanto, não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou, e vós não o conheceis.
 +
29. Eu o conheço, porque venho dele e ele me enviou.
 +
30. Procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora.
 +
31. Muitos do povo, porém, creram nele e perguntavam: Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que este faz?
 +
32. Os fariseus ouviram esse murmúrio que circulava entre o povo a respeito de Jesus. Então, de acordo com eles, os príncipes dos sacerdotes enviaram guardas para prendê-lo.
 +
33. Disse Jesus: Ainda por um pouco de tempo estou convosco e então vou para aquele que me enviou.
 +
34. Buscar-me-eis sem me achar, nem podereis ir para onde estou.
 +
35. Os judeus perguntavam entre si: Para onde irá ele, que o não possamos achar? Porventura irá para o meio dos judeus dispersos entre os gregos, para tornar-se o doutor dos estrangeiros?
 +
36. Que significam essas palavras que nos disse: Buscar-me-eis sem me achar, e onde estou para lá não podereis ir?
 +
37. No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: Se alguém tiver sede, venha a mim e beba.
 +
38. Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva (Zc 14,8; Is 58,11).
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39. Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado.
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40. Ouvindo essas palavras, alguns daquela multidão diziam: Este é realmente o profeta.
 +
41. Outros diziam: Este é o Cristo. Mas outros protestavam: É acaso da Galiléia que há de vir o Cristo?
 +
42. Não diz a Escritura: O Cristo há de vir da família de Davi, e da aldeia de Belém, onde vivia Davi?
 +
43. Houve por isso divisão entre o povo por causa dele.
 +
44. Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe lançou as mãos.
 +
45. Voltaram os guardas para junto dos príncipes dos sacerdotes e fariseus, que lhes perguntaram: Por que não o trouxestes?
 +
46. Os guardas responderam: Jamais homem algum falou como este homem!...
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47. Replicaram os fariseus: Porventura também vós fostes seduzidos?
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48. Há, acaso, alguém dentre as autoridades ou fariseus que acreditou nele?
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49. Este poviléu que não conhece a lei é amaldiçoado!...
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50. Replicou-lhes Nicodemos, um deles, o mesmo que de noite o fora procurar:
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51. Condena acaso a nossa lei algum homem, antes de o ouvir e conhecer o que ele faz?
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52. Responderam-lhe: Porventura és também tu galileu? Informa-te bem e verás que da Galiléia não saiu profeta.
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53. E voltaram, cada um para sua casa.
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Capítulo 8
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1. Dirigiu-se Jesus para o monte das Oliveiras.
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2. Ao romper da manhã, voltou ao templo e todo o povo veio a ele. Assentou-se e começou a ensinar.
 +
3. Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério.
 +
4. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério.
 +
5. Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?
 +
6. Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra.
 +
7. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.
 +
8. Inclinando-se novamente, escrevia na terra.
 +
9. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele.
 +
10. Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?
 +
11. Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.
 +
12. Falou-lhes outra vez Jesus: Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.
 +
13. A isso, os fariseus lhe disseram: Tu dás testemunho de ti mesmo; teu testemunho não é digno de fé.
 +
14. Respondeu-lhes Jesus: Embora eu dê testemunho de mim mesmo, o meu testemunho é digno de fé, porque sei de onde vim e para onde vou; mas vós não sabeis de onde venho nem para onde vou.
 +
15. Vós julgais segundo a aparência; eu não julgo ninguém.
 +
16. E, se julgo, o meu julgamento é conforme a verdade, porque não estou sozinho, mas comigo está o Pai que me enviou.
 +
17. Ora, na vossa lei está escrito: O testemunho de duas pessoas é digno de fé (Dt 19,15).
 +
18. Eu dou testemunho de mim mesmo; e meu Pai, que me enviou, o dá também.
 +
19. Perguntaram-lhe: Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também a meu Pai.
 +
20. Estas palavras proferiu Jesus ensinando no templo, junto aos cofres de esmola. Mas ninguém o prendeu, porque ainda não era chegada a sua hora.
 +
21. Jesus disse-lhes: Eu me vou, e procurar-me-eis e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou, vós não podeis ir.
 +
22. Perguntavam os judeus: Será que ele se vai matar, pois diz: Para onde eu vou, vós não podeis ir?
 +
23. Ele lhes disse: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
 +
24. Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado.
 +
25. Quem és tu?, perguntaram-lhe eles então. Jesus respondeu: Exatamente o que eu vos declaro.
 +
26. Tenho muitas coisas a dizer e a julgar a vosso respeito, mas o que me enviou é verdadeiro e o que dele ouvi eu o digo ao mundo.
 +
27. Eles, porém, não compreenderam que ele lhes falava do Pai.
 +
28. Jesus então lhes disse: Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis quem sou e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou.
 +
29. Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado.
 +
30. Tendo proferido essas palavras, muitos creram nele.
 +
31. E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos;
 +
32. conhecereis a verdade e a verdade vos livrará.
 +
33. Replicaram-lhe: Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como dizes tu: Sereis livres?
 +
34. Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo.
 +
35. Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre.
 +
36. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres.
 +
37. Bem sei que sois a raça de Abraão; mas quereis matar-me, porque a minha palavra não penetra em vós.
 +
38. Eu falo o que vi junto de meu Pai; e vós fazeis o que aprendestes de vosso pai.
 +
39. Nosso pai, replicaram eles, é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão.
 +
40. Mas, agora, procurais tirar-me a vida, a mim que vos falei a verdade que ouvi de Deus! Isso Abraão não o fez.
 +
41. Vós fazeis as obras de vosso pai. Retrucaram-lhe eles: Nós não somos filhos da fornicação; temos um só pai: Deus.
 +
42. Jesus replicou: Se Deus fosse vosso pai, vós me amaríeis, porque eu saí de Deus. É dele que eu provenho, porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou.
 +
43. Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra.
 +
44. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
 +
45. Mas eu, porque vos digo a verdade, não me credes.
 +
46. Quem de vós me acusará de pecado? Se vos falo a verdade, por que me não credes?
 +
47. Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus.
 +
48. Responderam então os judeus: Não dizemos com razão que és samaritano, e que estás possesso de um demônio?
 +
49. Respondeu-lhes Jesus: Eu não estou possesso de demônio, mas honro a meu Pai. Vós, porém, me ultrajais!
 +
50. Não busco a minha glória. Há quem a busque e ele fará justiça.
 +
51. Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá jamais a morte.
 +
52. Disseram-lhe os judeus: Agora vemos que és possuído de um demônio. Abraão morreu, e também os profetas. E tu dizes que, se alguém guardar a tua palavra, jamais provará a morte...
 +
53. És acaso maior do que nosso pai Abraão? E, entretanto, ele morreu... e os profetas também. Quem pretendes ser?
 +
54. Respondeu Jesus: Se me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é quem me glorifica, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus
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55. e, contudo, não o conheceis. Eu, porém, o conheço e, se dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vós. Mas conheço-o e guardo a sua palavra.
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56. Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver o meu dia. Viu-o e ficou cheio de alegria.
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57. Os judeus lhe disseram: Não tens ainda cinqüenta anos e viste Abraão!...
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58. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, eu sou.
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59. A essas palavras, pegaram então em pedras para lhas atirar. Jesus, porém, se ocultou e saiu do templo.
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Capítulo 9
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1. Caminhando, viu Jesus um cego de nascença.
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2. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?
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3. Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus.
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4. Enquanto for dia, cumpre-me terminar as obras daquele que me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar.
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5. Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
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6. Dito isso, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego.
 +
7. Depois lhe disse: Vai, lava-te na piscina de Siloé (esta palavra significa emissário). O cego foi, lavou-se e voltou vendo.
 +
8. Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto mendigar perguntavam: Não é este aquele que, sentado, mendigava?
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9. Respondiam alguns: É ele. Outros contestavam: De nenhum modo, é um parecido com ele. Ele, porém, dizia: Sou eu mesmo.
 +
10. Perguntaram-lhe, então: Como te foram abertos os olhos?
 +
11. Respondeu ele: Aquele homem que se chama Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo.
 +
12. Interrogaram-no: Onde está esse homem? Respondeu: Não o sei.
 +
13. Levaram então o que fora cego aos fariseus.
 +
14. Ora, era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos.
 +
15. Os fariseus indagaram dele novamente de que modo ficara vendo. Respondeu-lhes: Pôs-me lodo nos olhos, lavei-me e vejo.
 +
16. Diziam alguns dos fariseus: Este homem não é o enviado de Deus, pois não guarda sábado. Outros replicavam: Como pode um pecador fazer tais prodígios? E havia desacordo entre eles.
 +
17. Perguntaram ainda ao cego: Que dizes tu daquele que te abriu os olhos? É um profeta, respondeu ele.
 +
18. Mas os judeus não quiseram admitir que aquele homem tivesse sido cego e que tivesse recobrado a vista, até que chamaram seus pais.
 +
19. E os interrogaram: É este o vosso filho? Afirmais que ele nasceu cego? Pois como é que agora vê?
 +
20. Seus pais responderam: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego.
 +
21. Mas não sabemos como agora ficou vendo, nem quem lhe abriu os olhos. Perguntai-o a ele. Tem idade. Que ele mesmo explique.
 +
22. Seus pais disseram isso porque temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo.
 +
23. Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho.
 +
24. Tornaram a chamar o homem que fora cego, dizendo-lhe: Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador.
 +
25. Disse-lhes ele: Se esse homem é pecador, não o sei... Sei apenas isto: sendo eu antes cego, agora vejo.
 +
26. Perguntaram-lhe ainda uma vez: Que foi que ele te fez? Como te abriu os olhos?
 +
27. Respondeu-lhes: Eu já vo-lo disse e não me destes ouvidos. Por que quereis tornar a ouvir? Quereis vós, porventura, tornar-vos também seus discípulos?...
 +
28. Então eles o cobriram de injúrias e lhe disseram: Tu que és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés.
 +
29. Sabemos que Deus falou a Moisés, mas deste não sabemos de onde ele é.
 +
30. Respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos.
 +
31. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade.
 +
32. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
 +
33. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada.
 +
34. Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no.
 +
35. Jesus soube que o tinham expulsado e, havendo-o encontrado, perguntou-lhe: Crês no Filho do Homem?
 +
36. Respondeu ele: Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?
 +
37. Disse-lhe Jesus: Tu o vês, é o mesmo que fala contigo!
 +
38. Creio, Senhor, disse ele. E, prostrando-se, o adorou.
 +
39. Jesus então disse: Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.
 +
40. Alguns dos fariseus, que estavam com ele, ouviram-no e perguntaram-lhe: Também nós somos, acaso, cegos?...
 +
41. Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado, mas agora pretendeis ver, e o vosso pecado subsiste.
 +
 
 +
 +
Capítulo 10
 +
 
 +
1. Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador.
 +
2. Mas quem entra pela porta é o pastor das ovelhas.
 +
3. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz à pastagem.
 +
4. Depois de conduzir todas as suas ovelhas para fora, vai adiante delas; e as ovelhas seguem-no, pois lhe conhecem a voz.
 +
5. Mas não seguem o estranho; antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.
 +
6. Jesus disse-lhes essa parábola, mas não entendiam do que ele queria falar.
 +
7. Jesus tornou a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas.
 +
8. Todos quantos vieram antes de mim foram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os ouviram.
 +
9. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá e encontrará pastagem.
 +
10. O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância.
 +
11. Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas.
 +
12. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas.
 +
13. O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas.
 +
14. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim,
 +
15. como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
 +
16. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor.
 +
17. O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar.
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18. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai.
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19. A propósito dessas palavras, originou-se nova divisão entre os judeus.
 +
20. Muitos deles diziam: Ele está possuído do demônio. Ele delira. Por que o escutais vós?
 +
21. Outros diziam: Estas palavras não são de quem está endemoninhado. Acaso pode o demônio abrir os olhos a um cego?
 +
22. Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era inverno.
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23. Jesus passeava no templo, no pórtico de Salomão.
 +
24. Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente.
 +
25. Jesus respondeu-lhes : Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim.
 +
26. Entretanto, não credes, porque não sois das minhas ovelhas.
 +
27. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem.
 +
28. Eu llhes dou a vida eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de minha mão.
 +
29. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém as pode arrebatar da mão de meu Pai.
 +
30. Eu e o Pai somos um.
 +
31. Os judeus pegaram pela segunda vez em pedras para o apedejar.
 +
32. Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais?
 +
33. Os judeus responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus.
 +
34. Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses (Sl 81,6)?
 +
35. Se a lei chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (ora, a Escritura não pode ser desprezada),
 +
36. como acusais de blasfemo aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque eu disse: Sou o Filho de Deus?
 +
37. Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais.
 +
38. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai.
 +
39. Procuraram então prendê-lo, mas ele se esquivou das suas mãos.
 +
40. Ele se retirou novamente para além do Jordão, para o lugar onde João começara a batizar, e lá permaneceu.
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41. Muitos foram a ele e diziam: João não fez milagre algum,
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42. mas tudo o que João falou deste homem era verdade. E muitos acreditaram nele.
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Capítulo 11
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1. Lázaro caiu doente em Betânia, onde estavam Maria e sua irmã Marta.
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2. Maria era quem ungira o Senhor com o óleo perfumado e lhe enxugara os pés com os seus cabelos. E Lázaro, que estava enfermo, era seu irmão.
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3. Suas irmãs mandaram, pois, dizer a Jesus: Senhor, aquele que tu amas está enfermo.
 +
4. A estas palavras, disse-lhes Jesus: Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus.
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5. Ora, Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro.
 +
6. Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, demorou-se ainda dois dias no mesmo lugar.
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7. Depois, disse a seus discípulos: Voltemos para a Judéia.
 +
8. Mestre, responderam eles, há pouco os judeus te queriam apedrejar, e voltas para lá?
 +
9. Jesus respondeu: Não são doze as horas do dia? Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo.
 +
10. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a luz.
 +
11. Depois destas palavras, ele acrescentou: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo.
 +
12. Disseram-lhe os seus discípulos: Senhor, se ele dorme, há de sarar.
 +
13. Jesus, entretanto, falara da sua morte, mas eles pensavam que falasse do sono como tal.
 +
14. Então Jesus lhes declarou abertamente: Lázaro morreu.
 +
15. Alegro-me por vossa causa, por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos a ele.
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16. A isso Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele.
 +
17. À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro.
 +
18. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios.
 +
19. Muitos judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para lhes apresentar condolências pela morte de seu irmão.
 +
20. Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa.
 +
21. Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!
 +
22. Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá.
 +
23. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá.
 +
24. Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.
 +
25. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
 +
26. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?
 +
27. Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo.
 +
28. A essas palavras, ela foi chamar sua irmã Maria, dizendo-lhe baixinho: O Mestre está aí e te chama.
 +
29. Apenas ela o ouviu, levantou-se imediatamente e foi ao encontro dele.
 +
30. (Pois Jesus não tinha chegado à aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta o tinha encontrado.)
 +
31. Os judeus que estavam com ela em casa, em visita de pêsames, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, crendo que ela ia ao sepulcro para ali chorar.
 +
32. Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés e disse-lhe: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!
 +
33. Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção,
 +
34. perguntou: Onde o pusestes? Responderam-lhe: Senhor, vinde ver.
 +
35. Jesus pôs-se a chorar.
 +
36. Observaram por isso os judeus: Vede como ele o amava!
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37. Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos do cego de nascença, fazer com que este não morresse?
 +
38. Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra.
 +
39. Jesus ordenou: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí...
 +
40. Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu: Se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra.
 +
41. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste.
 +
42. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste.
 +
43. Depois destas palavras, exclamou em alta voz: Lázaro, vem para fora!
 +
44. E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus: Desligai-o e deixai-o ir.
 +
45. Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.
 +
46. Alguns deles, porém, foram aos fariseus e lhes contaram o que Jesus realizara.
 +
47. Os pontífices e os fariseus convocaram o conselho e disseram: Que faremos? Esse homem multiplica os milagres.
 +
48. Se o deixarmos proceder assim, todos crerão nele, e os romanos virão e arruinarão a nossa cidade e toda a nação.
 +
49. Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes: Vós não entendeis nada!
 +
50. Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação.
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51. E ele não disse isso por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia de morrer pela nação,
 +
52. e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos.
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53. E desde aquele momento resolveram tirar-lhe a vida.
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54. Em conseqüência disso, Jesus já não andava em público entre os judeus. Retirou-se para uma região vizinha do deserto, a uma cidade chamada Efraim, e ali se detinha com seus discípulos.
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55. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo o país subia a Jerusalém antes da Páscoa para se purificar.
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56. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no templo: Que vos parece? Achais que ele não virá à festa?
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57. Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde ele estava o denunciasse, para o prenderem.
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Capítulo 12
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1. Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara.
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2. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas.
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3. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo.
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4. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair, disse:
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5. Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?
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6. Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam.
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7. Jesus disse: Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura.
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8. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a mim nem sempre me tereis.
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9. Uma grande multidão de judeus veio a saber que Jesus lá estava; e chegou, não somente por causa de Jesus, mas ainda para ver Lázaro, que ele ressuscitara.
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10. Mas os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro,
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11. porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus.
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12. No dia seguinte, uma grande multidão que tinha vindo à festa em Jerusalém ouviu dizer que Jesus se ia aproximando.
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13. Saíram-lhe ao encontro com ramos de palmas, exclamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!
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14. Tendo Jesus encontrado um jumentinho, montou nele, segundo o que está escrito:
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15. Não temas, filha de Sião, eis que vem o teu rei montado num filho de jumenta (Zc 9,9).
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16. Os seus discípulos a princípio não compreendiam essas coisas, mas, quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que isto estava escrito a seu respeito e de que assim lho fizeram.
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17. A multidão, pois, que se achava com ele, quando chamara Lázaro do sepulcro e o ressuscitara, aclamava-o.
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18. Por isso o povo lhe saía ao encontro, porque tinha ouvido que Jesus fizera aquele milagre.
 +
19. Mas os fariseus disseram entre si: Vede! Nada adiantamos! Reparai que todo mundo corre após ele!
 +
20. Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa.
 +
21. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galiléia) e rogaram-lhe: Senhor, quiséramos ver Jesus.
 +
22. Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor.
 +
23. Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado.
 +
24. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.
 +
25. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna.
 +
26. Se alguém me quer servir, siga-me; e, onde eu estiver, estará ali também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará.
 +
27. Presentemente, a minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora.
 +
28. Pai, glorifica o teu nome! Nisto veio do céu uma voz: Já o glorifiquei e tornarei a glorificá-lo.
 +
29. Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: Um anjo falou-lhe.
 +
30. Jesus disse: Essa voz não veio por mim, mas sim por vossa causa.
 +
31. Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo.
 +
32. E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim.
 +
33. Dizia, porém, isto, significando de que morte havia de morrer.
 +
34. A multidão respondeu-lhe: Nós temos ouvido da lei que o Cristo permanece para sempre. Como dizes tu: Importa que o Filho do Homem seja levantado? Quem é esse Filho do Homem?
 +
35. Respondeu-lhes Jesus: Ainda por pouco tempo a luz estará em vosso meio. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos surpreendam; e quem caminha nas trevas não sabe para onde vai.
 +
36. Enquanto tendes a luz, crede na luz, e assim vos tornareis filhos da luz. Jesus disse essas coisas, retirou-se e ocultou-se longe deles.
 +
37. Embora tivesse feito tantos milagres na presença deles, não acreditavam nele.
 +
38. Assim se cumpria o oráculo do profeta Isaías: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor (Is 53,1)?
 +
39. Aliás, não podiam crer, porque outra vez disse Isaías:
 +
40. Ele cegou-lhes os olhos, endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos nem entendam com o coração e se convertam e eu os sare (Is 6,10).
 +
41. Assim se exprimiu Isaías, quando teve a visão de sua glória e dele falou.
 +
42. Não obstante, também muitos dos chefes creram nele, mas por causa dos fariseus não o manifestavam, para não serem expulsos da sinagoga.
 +
43. Assim preferiram a glória dos homens àquela que vem de Deus.
 +
44. Entretanto, Jesus exclamou em voz alta: Aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou;
 +
45. e aquele que me vê, vê aquele que me enviou.
 +
46. Eu vim como luz ao mundo; assim, todo aquele que crer em mim não ficará nas trevas.
 +
47. Se alguém ouve as minhas palavras e não as guarda, eu não o condenarei, porque não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo.
 +
48. Quem me despreza e não recebe as minhas palavras, tem quem o julgue; a palavra que anunciei julgá-lo-á no último dia.
 +
49. Em verdade, não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele mesmo me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar.
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50. E sei que o seu mandamento é vida eterna. Portanto, o que digo, digo-o segundo me falou o Pai.
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Capítulo 13
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 +
1. Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou.
 +
2. Durante a ceia, - quando o demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-lo -,
 +
3. sabendo Jesus que o Pai tudo lhe dera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava,
 +
4. levantou-se da mesa, depôs as suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela.
 +
5. Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.
 +
6. Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro lhe disse: Senhor, queres lavar-me os pés!...
 +
7. Respondeu-lhe Jesus: O que faço não compreendes agora, mas compreendê-lo-ás em breve.
 +
8. Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés!... Respondeu-lhe Jesus: Se eu não tos lavar, não terás parte comigo.
 +
9. Exclamou então Simão Pedro: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça.
 +
10. Disse-lhe Jesus: Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro. Ora, vós estais puros, mas nem todos!...
 +
11. Pois sabia quem o havia de trair; por isso, disse: Nem todos estais puros.
 +
12. Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: Sabeis o que vos fiz?
 +
13. Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.
 +
14. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros.
 +
15. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós.
 +
16. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou.
 +
17. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes.
 +
18. Não digo isso de vós todos; conheço os que escolhi, mas é preciso que se cumpra esta palavra da Escritura: Aquele que come o pão comigo levantou contra mim o seu calcanhar (Sl 40,10).
 +
19. Desde já vo-lo digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais e reconheçais quem sou eu.
 +
20. Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviei recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.
 +
21. Dito isso, Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente: Em verdade, em verdade vos digo: um de vós me há de trair!...
 +
22. Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava.
 +
23. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus.
 +
24. Simão Pedro acenou-lhe para dizer-lhe: Dize-nos, de quem é que ele fala.
 +
25. Reclinando-se este mesmo discípulo sobre o peito de Jesus, interrogou-o: Senhor, quem é?
 +
26. Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o pão embebido. Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.
 +
27. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele. Jesus disse-lhe, então: O que queres fazer, faze-o depressa.
 +
28. Mas ninguém dos que estavam à mesa soube por que motivo lho dissera.
 +
29. Pois, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe falava: Compra aquilo de que temos necessidade para a festa. Ou: Dá alguma coisa aos pobres.
 +
30. Tendo Judas recebido o bocado de pão, apressou-se em sair. E era noite...
 +
31. Logo que Judas saiu, Jesus disse: Agora é glorificado o Filho do Homem, e Deus é glorificado nele.
 +
32. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará em breve.
 +
33. Filhinhos meus, por um pouco apenas ainda estou convosco. Vós me haveis de procurar, mas como disse aos judeus, também vos digo agora a vós: para onde eu vou, vós não podeis ir.
 +
34. Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros.
 +
35. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.
 +
36. Perguntou-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais? Jesus respondeu-lhe: Para onde vou, não podes seguir-me agora, mas seguir-me-ás mais tarde.
 +
37. Pedro tornou a perguntar: Senhor, por que te não posso seguir agora? Darei a minha vida por ti!
 +
38. Respondeu-lhe Jesus: Darás a tua vida por mim!... Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo até que me negues três vezes.
 +
 
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Capítulo 14
 +
 
 +
1. Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim.
 +
2. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar.
 +
3. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais.
 +
4. E vós conheceis o caminho para ir aonde vou.
 +
5. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?
 +
6. Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
 +
7. Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto.
 +
8. Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
 +
9. Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai...
 +
10. Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras.
 +
11. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.
 +
12. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai.
 +
13. E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
 +
14. Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei.
 +
15. Se me amais, guardareis os meus mandamentos.
 +
16. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco.
 +
17. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós.
 +
18. Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós.
 +
19. Ainda um pouco de tempo e o mundo já não me verá. Vós, porém, me tornareis a ver, porque eu vivo e vós vivereis.
 +
20. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós.
 +
21. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele.
 +
22. Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo?
 +
23. Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.
 +
24. Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou.
 +
25. Disse-vos estas coisas enquanto estou convosco.
 +
26. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito.
 +
27. Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!
 +
28. Ouvistes que eu vos disse: Vou e volto a vós. Se me amardes, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai, porque o Pai é maior do que eu.
 +
29. E disse-vos agora estas coisas, antes que aconteçam, para que creiais quando acontecerem.
 +
30. Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em mim.
 +
31. O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui.
 +
 
 +
 +
Capítulo 15
 +
 
 +
1. Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará;
 +
2. e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto.
 +
3. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado.
 +
4. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim.
 +
5. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
 +
6. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á.
 +
7. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.
 +
8. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.
 +
9. Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor.
 +
10. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor.
 +
11. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa.
 +
12. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.
 +
13. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.
 +
14. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.
 +
15. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.
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16. Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda.
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17. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.
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18. Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós.
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19. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia.
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20. Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir. Se guardaram a minha palavra, hão de guardar também a vossa.
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21. Mas vos farão tudo isso por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou.
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22. Se eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado; mas agora não há desculpa para o seu pecado.
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23. Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai.
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24. Se eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado; mas agora as viram e odiaram a mim e a meu Pai.
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25. Mas foi para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem motivo (Sl 34,19; 68,5).
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26. Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim.
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27. Também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio
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Capítulo 16
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1. Disse-vos essas coisas para vos preservar de alguma queda.
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2. Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus.
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3. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a mim.
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4. Disse-vos, porém, essas palavras para que, quando chegar a hora, vos lembreis de que vo-lo anunciei. E não vo-las disse desde o princípio, porque estava convosco.
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5. Agora vou para aquele que me enviou, e ninguém de vós me pergunta: Para onde vais?
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6. Mas porque vos falei assim, a tristeza encheu o vosso coração.
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7. Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei.
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8. E, quando ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do juízo.
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9. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em mim.
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10. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque eu me vou para junto do meu Pai e vós já não me vereis;
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11. ele o convencerá a respeito do juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado.
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12. Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora.
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13. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão.
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14. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará.
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15. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse: Há de receber do que é meu, e vo-lo anunciará.
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16. Ainda um pouco de tempo, e já me não vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai.
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17. Nisso alguns dos seus discípulos perguntavam uns aos outros: Que é isso que ele nos diz: Ainda um pouco de tempo, e não me vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver? E que significa também: Eu vou para o Pai?
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18. Diziam então: Que significa este pouco de tempo de que fala? Não sabemos o que ele quer dizer.
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19. Jesus notou que lho queriam perguntar e disse-lhes: Perguntais uns aos outros acerca do que eu disse: Ainda um pouco de tempo, e não me vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver.
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20. Em verdade, em verdade vos digo: haveis de lamentar e chorar, mas o mundo se há de alegrar. E haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza se há de transformar em alegria.
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21. Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo.
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22. Assim também vós: sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria.
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23. Naquele dia não me perguntareis mais coisa alguma.
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Em verdade, em verdade vos digo: o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará.
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24. Até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita.
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25. Disse-vos essas coisas em termos figurados e obscuros. Vem a hora em que já não vos falarei por meio de comparações e parábolas, mas vos falarei abertamente a respeito do Pai.
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